A atuação missionária numa comunidade de diversos povos

missionário no Japão

Padre Gianluca Belotti é um missionário italiano que atualmente trabalha como pároco de uma comunidade internacional em Oyama, no Japão, onde a mistura de povos sinaliza para uma integração

 

U
ma comunidade católica na encruzilhada de pessoas de muitas partes do mundo. É a experiência diária do padre italiano Gianluca Belotti, 50 anos, missionário do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME) e pároco em Oyama, uma cidade de 126 mil habitantes na diocese de Saitama, a cerca de 100 km de Tóquio. “Minha comunidade é internacional. Aos domingos, quase 100 fiéis participam da Missa, mas os japoneses são, no máximo, uns 20; a maioria, aposentada. Os demais são vietnamitas, filipinos, peruanos, brasileiros e um ou outro norte-americano”, diz o pároco.

“Em uma realidade tão fluida, as Missas internacionais me parecem o caminho para uma comunidade estável, que se encontra toda semana e anda unida. Por isso, celebro em, pelo menos, duas línguas: a parte principal do rito em japonês e as leituras ora em inglês, ora em vietnamita. Deste modo, mesmo que não entendam bem o japonês, todos ouvem uma palavra na língua natal. Aos latino-americanos celebro em espanhol no primeiro sábado de cada mês, com leitura ou cantos em português”, esclarece o padre Gianluca.

O pároco está convencido de que a liturgia é o caminho para a missão: “A liturgia é como via-mestra para caminharmos juntos na vida cristã. Se soubermos transmitir a beleza da liturgia, a celebração se torna catequese, sobretudo em um país onde é tão enraizado o valor daquilo que é belo”.

Pão partilhado X solidão

Partir juntos o Pão de fato ajuda a abrir os olhos ao irmão. O padre dá o exemplo da comunidade vietnamita em Oyama: “Estão aqui como trabalhadores com visto temporário – conta o missionário -. No Japão, quando vence o visto, o indivíduo deve partir. Esses vietnamitas têm entre 19 e 21 anos de idade. Estando aqui por pouco tempo, não conseguem aprender o japonês, tampouco o inglês. Porém, na paróquia, são o grupo mais forte na fé: mesmo quando nada entendem, sempre participam. Por isso, uma ou duas vezes por mês, leem a segunda leitura em vietnamita na Missa comunitária.”

Em um contexto onde os cristãos são uma ínfima minoria, não faltam momentos de solidão, até mesmo ao missionário.

“Às vezes, durante a semana, celebro a Missa sozinho. Celebro-a assim mesmo e em voz alta: lembrando-me sempre de São João Batista Vianney, o Cura d’Ars, e dos missionários do passado que iniciaram uma presença e não tinham ninguém atrás de si. São momentos em que me pergunto: ‘Por que isso’? E respondo: ‘Ora, porque estou aqui. Nada é em vão’”, diz padre Gianluca.

Traços de uma descoberta pessoal

“Eu era um dos muitos jovens que, uma vez crismados, deixam de ir à Missa – diz o missionário -. Já adulto, passei a trabalhar como segurança. Eu gostava do que fazia, tanto é que fiz isso por dez anos. Saía com os amigos e até então estava distante da vida cristã. Em 1996, algo começou a se mover em mim. Apesar do trabalho correr às maravilhas, um vazio aumentava na alma. Passei a me perguntar sobre Deus, mas logo respondia a mim mesmo: ‘eu não preciso dar nenhuma resposta’. A mudança chegou com a morte da minha avó, em 1996. Nossas relações eram esplêndidas. Interessante: Não senti tristeza ou comoção, mas uma paz jamais experimentada. Comecei a rever os principais momentos da minha vida. Passei a ler os Evangelhos e, de improviso, nasceu o desejo de me consagrar. Até então, praticamente nada sabia sobre fé, apenas sentia a misteriosa presença de Deus em mim. Assim cheguei ao PIME e aos anos do discernimento vocacional. A ordenação sacerdotal foi em 2008, aos 40 anos de idade. E, no final daquele mesmo ano, fui destinado ao Japão”.

Na cultura japonesa, o ‘nós’ prevalece sobre o ‘eu’ e o ‘tu’. Mas, assim como o individualismo ocidental, o coletivismo realiza só parcialmente o ser humano. A longo prazo, ambos alienam.

“A competição exasperada – elenca padre Gianluca –, a sociedade em mudança e a crise demográfica enfraquecem o caráter da nacionalidade. A única região japonesa com aumento de população é Tóquio, aonde acorrem os jovens à procura de fortuna. Em um raio de 50 quilômetros concentram-se 40 milhões de pessoas, um terço da população total. Todos se acotovelam, mas não se falam. Cada qual em sua rotina. A cultura enraizada do ‘não perturbe’ é muito forte”.

Conforme o padre, nem a família japonesa escapou da globalização. “Metade da população é formada por solteiros e, na outra metade, cresce o número de divorciados. Com os adultos trabalhando como uns doidos visando o bem-estar, as crianças acabam ficando o tempo todo na escola”, diz o missionário, que acrescenta: “Pela prevalência da coletividade, floresce toda uma gama de distúrbios mentais. E numa cultura fechada em si mesma não pode desaparecer tão facilmente. Sair do isolamento é um desafio, válido também para a Igreja do Japão”. E conclui: “A comunidade cristã se coloca como espaço de acolhida. Nem sempre é fácil, mas é um espaço precioso para a missão. E esta é a verdadeira contribuição que nós, missionários, podemos dar ao Japão de hoje”.

 

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de maio de 2019 – edição nº 232
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