A caminho da Páscoa: um tempo de reflexão

D
urante séculos os cristãos aproveitavam o tempo quaresmal para meditar sobre Jesus no deserto (Mt 4, 1-11) e seus posteriores sofrimentos, do Horto ao Calvário. E o faziam através de jejuns, atos de misericórdia e penitência. No confessionário, lavavam a alma, pois, “se o doente tem vergonha de mostrar sua ferida ao médico, a medicina não pode curar aquilo que ignora”, bradava São Jerônimo.

Os dias são outros, evidentemente. Mas não custa lembrar que os cristãos de hoje também devem, de vez em quando, botar o pé no freio e se submeter a um check up espiritual, antes de acelerar a vida pelo mundo afora.

Neste ano, a Campanha da Fraternidade adverte os católicos para que, com uma mão, afastem todo tipo de violência e, com a outra, aproximem de si a fraternidade e a justiça. Duas tarefas pesadas, pois a violência sempre fez sombra aos homens, enquanto a prática da justiça e a fraternidade universal ainda estão devir, no desejo: “Dias virão (quando?) em que lobo e cordeiro pastarão juntos, …” (Is 65,25).

A humanidade tem evoluído, sim, mas… quase sempre para o lado errado. Se não, vejamos: nos dias de Hamurabi (soberano babilônico do século XVIII a.C.) um olho custava o do vizinho, e um dente, o dente alheio. Justiça feita, cada qual voltava resmungando para seu canto, e tudo estava resolvido. Hoje, ao menor descuido, um míssil tende a atrair outro, ainda mais feroz, lá do lado oposto do planeta. E o estrago, portanto, sobra pra todo lado.

Acontece que a história vai de avanços e recuos. Sobre essa marcha a ré consta que, um dia, alguém quis ouvir Einstein: “Como seria uma Terceira Guerra Mundial?”. “Não faço ideia! – respondeu o ilustre físico -. Mas a Quarta será na base do arco e da flecha, sem dúvida”. Pelo andar da carruagem, eu concluo que o pai da teoria da relatividade queria dizer que logo voltaremos ao corpo a corpo do velho e justo Hamurabi. Regredindo mais ainda, poderíamos desembarcar no Éden, onde o Senhor “viu tudo quanto havia feito, e era tudo muito bom” (Gn1,31). E todo mundo sabe no que deu aquilo.

Voltar ao paraíso terrestre é obviamente impossível, mas São João da Cruz diz que não custa tentar. “É preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros: nela, por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas surgirão”, afirmava. Mais do que um convite, um apelo.

E, mais do que um convite, Mundo e Missão também apela: leve aos amigos, à paróquia, à escola, ao trabalho, tudo aquilo de bom que esta edição põe em suas mãos. E deixe para trás a terra suja que a “grande imprensa” oferece ao seu jantar. Afinal, você e eu assumimos o compromisso essencial de manter vivo este veículo de formação humana e cristã. Então, mãos à obra! Cavemos juntos na mina riquíssima apontada por João da Cruz. Dela, novos veios de novas riquezas surgirão nesta Páscoa, com certeza!

Publicado na revista Mundo e Missão de março/2018 – Ed. 220

 

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