“A caridade é o melhor modo de evangelizar, diz missionário na China

Padre Mario Marazzi, missionário do PIME em Hong Kong, completou 90 anos no início deste ano e segue firme em seu propósito de evangelizar

 

padre Mario Marazzi

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o início deste ano, em Hong Kong, padre Mario Marazzi completou 90 anos de vida. O missionário está em grande forma. Desenvolve, com simplicidade e generosidade bem conhecidas, um claro serviço à missão, à qual se doa ardorosamente.

Antes de se tornar missionário, Mario pensava em se casar. Trabalhou por dez anos como operário. Nascido em Mandello del Lario, na Itália, ingressou no PIME aos 24 anos. Foi ordenado padre em 1960, aos 32. Hong Kong foi sua primeira missão. Aprendeu muito bem a língua cantonesa, falada e escrita, e se empenhou a fundo para entrar na realidade daquele povo, tornando-se parte dele. A inculturação, ou seja, o “fazer-se” como as pessoas e viver como elas, foi um empenho constante em sua vida, inclusive escolher viver, por dez anos, em uma família na cidade de Guangzhou.

Entre idas e vindas

Quando padre Mario chegou a Hong Kong, “a Pérola do Oriente”, a região fazia parte da Grã-Bretanha. Na época, a China era governada por Mao Tsé-tung e Hong Kong se tornou a meta para mais de um milhão de refugiados chineses, necessitados de tudo. A Igreja católica local empenhou-se, com esforço titânico, em socorrê-los, acolhê-los e evangelizá-los. Os missionários do PIME, até então responsáveis pela diocese, eram a linha de frente.

“A caridade é o melhor modo de evangelizar. Muitas pessoas se aproximaram exatamente por se sentirem tocadas pelo amor dos missionários e dos cristãos de Hong Kong”, garante padre Mario.

Dom Francis Xavier Hsu atraiu o missionário ao Centro Católico, uma instituição no coração da cidade, fundada anos antes por outro coirmão do PIME. O recém-chegado atraiu um grande número de pessoas por meio de iniciativas culturais, eclesiais e de comunicação. Na época, graças ao equilíbrio e retidão, padre Mario foi chamado para guiar a comunidade dos padres, que viviam ardentes discussões de evangelização pós-conciliar. Em 1980 foi à Itália, e lá permaneceu por quase 20 anos.

Em Milão, padre Mario deixou fortes sinais de presença e de trabalho, ainda hoje relembrados com saudade. Em especial, ao repensar o significado e os conteúdos do museu do centro missionário, dando-lhe também um novo nome: Museu Povos e Culturas. Mas o coração de padre Mario pulsava pela China: “Meu desejo era o de retornar à minha missão. Aquela gente é minha família. Durante o tempo que fiquei em Milão, insistia com os superiores para retornar à China, a minha casa”. Finalmente, em 1999, aos 71 anos, padre Mario retornou a Hong Kong. Não havia esquecido a língua e um grande número de colaboradores e amigos foram acolhê-lo com entusiasmo.

padre Mario Marazzi

Aventura surpreendente

“Retomei as atividades na paróquia, em meio às pessoas, e estava feliz. Mas, a certo ponto, entendi que poderia e deveria mudar”, diz. Já era possível viver na China continental, mesmo proibido de exercer a atividade missionária. Nova partida. “Por mais de dez anos vivi em Guangzhou como voluntário da Huiling, uma ONG que ajuda pessoas com deficiência mental”, afirma padre Mario.

Laboratórios para iniciar os jovens ao mundo do trabalho, ateliês que produzem objetos artísticos e padarias estão entre as inúmeras atividades da Huiling, em várias cidades da China. “Morei em uma casa-família, com seis pessoas entre 25 e 40 anos de idade, todas assistidas por uma senhora que era guia e mãe. E, com ela, outros voluntários da Huiling abraçaram a fé católica”, relata. Uma aventura enorme para um padre entre seus 75 e 85 anos de idade, confinado num apartamento minúsculo e com uma família tão desafiadora.

“O relacionamento vivido com pessoas deficientes me mudou profundamente. Cresci com elas, amadureci. Fui a Guangzhou com a intenção de ajudá-las. Fiz alguma coisa certa. Mas foi muito mais o que recebi. As pessoas deficientes amam e querem se relacionar, ensinando-nos que a relação humana é fundamental”, relembra padre Mario.

Segundo ele, as pessoas com as quais conviveu, lhe ensinaram algo valioso: “para aceitar as pessoas e amá-las como elas são é preciso fazer o que elas fazem. A relação, o amor, a capacidade de integrar em nossa vida as pessoas com deficiência foram os elementos que me fizeram amadurecer em dez anos na casa-família em Guangzhou”, diz.

padre Mario Marazzi

Em 2013, aos 85 anos, padre Mario sentiu o peso da idade. E, mesmo com espírito jovem, a mente e o ânimo vivazes, entendeu que devia renunciar às viagens longas e cansativas. Transferiu-se para a casa regional do PIME em Hong Kong. Graças ao seu cuidado e ao seu senso de belo e de harmonia, deixou imediatamente sua marca ali, transformando-a em um lugar agradável e aconchegante. São várias as maneiras com as quais padre Mario continua a desenvolver sua missão. Recebe e visita dezenas de pessoas, às quais oferece apoio espiritual e amizade. Cada vez mais se dedica à oração.

“Minha vida e a vida de todos valem tanto quanto nós as doamos aos outros – diz convencido –. Estou contente por me colocar simplesmente a serviço das pessoas. Recebo muito e isso me deixa feliz. Da janela do meu quarto olho o mar e, com a mente, revejo o navio que há 50 anos me trouxe a este pedaço de terra. Quantas coisas boas aconteceram nestes anos! Quantos motivos para agradecer a Deus e a tantas pessoas!”, conclui.

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de setembro de 2018 –  edição nº 225
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