A desigualdade social retratada por 3 artistas brasileiros

os retirantes - Portinari

‘Os retirantes’, de Portinari

A desigualdade social tem cor e traços bem marcados nos quadros de três grandes pintores brasileiros. Almeida Jr., Di Cavalcanti e Portinari foram pioneiros ao retratar os marginalizados e excluídos em suas telas

 

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e hoje em dia a “invisibilidade” dos moradores de rua assusta, visto que somente na cidade de São Paulo são mais de 20 mil desabrigados, que pouco (ou quase nada) têm de atenção da população que passa por eles de forma apressada, a pobreza e a miséria também passavam despercebidas no passado. Nas artes, por exemplo, o tema começou a ganhar espaço somente após a Proclamação da República, em 1889.

Um dos primeiros artistas brasileiros a retratar o povo humilde foi José Ferraz de Almeida Júnior. Nascido em maio de 1850, na cidade de Itu, no interior de São Paulo, Almeida Jr. demonstrou desde cedo aptidão para as artes. Aos 19 anos, com a ajuda de um padre que lhe custeou os estudos, ingressou na Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Após a conclusão, retornou a Itu e abriu um ateliê, onde trabalhava como pintor e retratista.

Suas obras ganharam notoriedade e, ao chegar às mãos do imperador D. Pedro II, ele ganhou um presente: o monarca ficou tão impressionado com o potencial artístico de Almeida Jr. que decidiu pagar uma bolsa de estudos para ele em Paris. Assim, em 1876, o pintor se matriculou na École National Supérieure des Beaux-Arts e participou de quatro edições do Salão de Paris entre os anos de 1879 e 1882.

De volta ao Brasil, suas obras ganharam uma nova roupagem. Voltando os olhos para experimentos realistas, mas sem jamais abrir mão de todo recurso acadêmico adquirido, Almeida Jr. desenvolveu uma linha de trabalhos voltada ao cidadão brasileiro caipira. Tornou-se, assim, um dos mais importantes pintores do período imperial no Brasil e também um dos primeiros a retratar em suas telas o povo em sua simplicidade, sendo um dos precursores do estilo regionalista. Entre as suas mais importantes obras neste sentido estão Caipira Picando Fumo (1893), Amolação Interrompida (1894) e O Violeiro (1899).

Caipira picando fumo, de Almeida Jr.

“Caipira picando fumo”, de Almeida Jr.

Algumas décadas depois, no início do século 20, outros dois nomes ganharam visibilidade na cena artística brasileira justamente por seguirem na tentativa de dar um rosto ao povo, inclusive com suas cores, bagagem cultural e tudo o mais que fosse possível.

ROSTO BRASILEIRO

Um deles foi Emiliano Augusto Cavalcanti de Paula Albuquerque e Melo, mais conhecido como Di Cavalcanti, um dos mais ilustres representantes do modernismo brasileiro. Segundo especialistas, sua arte contribuiu significativamente para distinguir a arte nacional de outros movimentos artísticos de sua época. Isso porque, com suas reconhecidas cores vibrantes, retratou formas sinuosas e temas tipicamente brasileiros, como carnaval, mulatas e tropicalismos em geral.

Um dos idealizadores da Semana de Arte Moderna em São Paulo, em 1922, que foi um verdadeiro ponto de inflexão no modo de ver o Brasil, Di Cavalcanti por um lado se dedicou à denúncia da corrupção e da desordem política, e, por outro, soube transmitir lirismo ao representar as classes populares por meio de sua dignidade e beleza, e não apenas de sua miséria.

Assim como Almeida Jr., Di Cavalcanti também viajou a Paris para aperfeiçoar sua arte. Mais do que técnicas de pintura, o artista entrou em contato com os principais vanguardistas europeus e com a efervescência política do momento. Dessa forma, quando retornou ao Brasil, em 1925, sua obra seria definitivamente marcada por temáticas de cunho social.

Com notável influência do expressionismo, do cubismo e dos muralistas mexicanos, Di Cavalcanti foi um dos primeiros pintores a abordar a cultura brasileira popular e os temas sociais, como o samba, os operários e a boemia. Nesse sentido, destacam-se as obras Colonas, Samba, Ciganos e Baile Popular.

Obra Baile Popular, de Di Cavalcanti

Obra Baile Popular, de Di Cavalcanti

O poeta brasileiro Murilo Mendes, contemporâneo a Di Cavalcanti, escreveu em 1949 que, “em certa época, ele foi o único pintor social militante do Brasil”, afirmando ainda que “foi um dos poucos a atingir um elevado nível de consciência artística”.

DENÚNCIA SOCIAL

Não dá para falar dos primeiros a usarem os pincéis para retratar o povo brasileiro sem chegar ao nome de Cândido Portinari. De origem bastante humilde e filho de imigrantes italianos, ele nasceu numa fazenda de café no interior de São Paulo, onde, aos poucos, começou a manifestar sua vocação artística. Aos 15 anos, foi para o Rio de Janeiro em busca de um aprendizado mais sistemático em pintura, matriculando-se na Escola Nacional de Belas Artes.

Em sua trajetória como artista, ganhou muitos prêmios. Um deles foi uma passagem para a França, no início da década de 1930. Lá, aproveitou para visitar inúmeros museus e estudar bastante. Retornou da Europa animado para pintar quadros exaltando a cultura brasileira, seu povo, sua natureza e sua história. Influenciado pelos movimentos artísticos europeus, como o cubismo e o surrealismo, Portinari demonstrou-se um grande admirador de Pablo Picasso após conhecer a obra Guernica. A partir desse contato, a opção pela temática social e o caráter de denúncia com relação às desigualdades no Brasil se tornaram o fio condutor dos seus traços dali em diante. Sua obra mais notável, Guerra e Paz, está instalada na sede da ONU em Nova York.

'Criança morta', de Cândido Portinari

Obra Criança morta, de Cândido Portinari

Com o passar dos anos, ao mesmo tempo em que as cidades brasileiras se desenvolviam, o campo se tornava o palco da fome. Esse contexto fez com que o artista pintasse uma série sobre os migrantes nordestinos. As telas Retirantes, Criança Morta e Enterro na Rede retratam a dura realidade enfrentada por famílias que partiam de suas terras devastadas pela miséria extrema rumo a uma vida melhor. Atemporal, a série é lembrada até hoje em comparações diversas, inclusive com o contexto atual da fome na África e também com o destino desolador dos refugiados pelo mundo.

Ciente de seu papel, Portinari chegou a afirmar algumas vezes que não existe obra neutra. “Mesmo quando o artista não tem intenção, o quadro sempre indica um sentido social”, dizia.

 

Publicado no jornal Transcender – edição nº 47
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