A estrela no caminho da missão

Irmã Maria Garofalo conta a sua experiência de evangelização entre os moradores da Vila Nova, na periferia da cidade de Registro. É nas periferias que Jesus nos encontra e nos mostra o caminho missionário a seguir

Por Irmã Maria Garofalo, MdI


Morei, até fevereiro deste ano, na cidade paulista de Registro, no vale do rio Ribeira de Iguape, próximo do litoral sul desse estado da região Sudeste. Nós, as irmãs da comunidade de Registro, depois de um processo de discernimento feito em comunhão com a diocese, e a partir das indicações do papa Francisco e do nosso capitulo que convidam a sermos comunidades proféticas que anunciam o Evangelho nas periferias, decidimos sair de casa e evangelizar em direção á periferia, onde se encontra o povo que mais sofre, tanto física quanto espiritualmente. Assim, escolhemos um bairro muito carente, não somente no sentido geográfico, mas, sobretudo existencial.

Vila Nova

Vila Nova é um bairro relativamente pequeno, e muito próximo das margens do rio Ribeira de Iguape. Evidentemente, o local é vulnerável a enchentes nas longas épocas de chuva que caracterizam o vale. As casas, então, ficam alagadas. Em resumo: a área é um misto de sofrimento, droga, pobreza, violência e muita solidão.

Pé na estrada

O primeiro passo foi sair às ruas pedindo acolhida, privilegiando a “linguagem da proximidade”. Procuramos criar laços de amizade e de confiança, aproximando as pessoas na rua, abraçando as crianças, falando com os usuários de droga, visitando famílias, doentes, escutando sofrimentos e esperanças, sem fazer distinção e, como fazia Jesus, preferindo sempre os mais pobres. Essas pessoas precisam é de mais afeto, amizade, um olhar de amor. É bem o papa Francisco chama, ao pedir a “revolução da ternura” na sua Exortação apostólica Evangelii Gaudium (EG, n.88). Da mesma forma, o pontífice salienta, na Christus Vivit (ChV): “Devemos privilegiar a linguagem da proximidade, a linguagem do amor desinteressado, relacional e existencial, que toca o coração da vida, e que desperta esperanças e desejos” (ChV, n. 211).

Da rua às casas

Depois de alguns meses, nos sentíamos em casa no bairro. Chamávamos as pessoas na rua pelo nome e éramos reconhecidas. Começamos então a nos reunir nas casas, em pequenos grupos. Quem nos abriu a porta foi nossa Senhora. A devoção e o amor a Maria é muito profundo no povo e, rezando o terço em uma simples garagem, colocamos no coração dela as dores e as alegrias da vida do povo. Aos poucos, Maria nos levava á Palavra, ao Filho.

Reuníamo-nos para meditar a Palavra, rezar e partilhar a vida. Foi uma experiência de fraternidade, de oração e de anúncio de Jesus. Apesar de quase todas serem batizdas, aquelas pessoas não conheciam a vida de Jesus. Os encontros com a Palavra de Deus, especialmente durante a novena de Natal, nos deram a oportunidade de apresentar Jesus a adultos e crianças.

Percebi nas pessoas uma grande sede de Deus, de amizade e de humanidade. Apesar da pobreza, apesar de terem casas muito pequenas e frágeis, fiz experiência de acolhida profunda e, evangelizando, descobri que eu mesma estava sendo evangelizada. Jesus está lá, presente no irmão que mais sofre e se revela aos pequeninos. “Escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos mais pequeninos”.

Episódio comovente

Gostaria de narrar um fato que aconteceu durante os encontros nas famílias e que me tocou profundamente por ocasião do Natal. A protagonista é dona Maria, uma mulher simples, tímida, com muitos filhos consumidos pelo álcool. Quando a conhecemos, quase não olhava para a gente, mas, aos poucos, fomos conquistando sua confiança e ela nos abriu a porta da sua humilde casa. Um ambiente simples, desprovido, pequeno. Nele, mal cabiam quatro ou cinco pessoas, se tanto. Uma noite marcamos um encontro da novena de Natal na casa dela com outras famílias para rezarmos juntas e grande foi a surpresa: a sala tinha se tornado maior. Dona Maria derrubou uma parede da sala para tentar recepcionar a todos.

Fiquei profundamente comovida pelo gesto e me senti na pessoa de dona Maria, acolhida por Deus que vem ao meu encontro através dos pequenos e humildes. Para mim, a estrela de Natal parou naquelas casas e me levou ao encontro com Jesus. Na pobreza e simplicidade vi nascer Cristo. A periferia é a estrela que nos aponta o caminho a seguir. Sair às periferias existenciais é sair ao encontro de Cristo.

texto publicado na secção “Missionárias da Imaculada” na edição Junho/Julho da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante


Inscreva-se e receba a newsletter

seu apoio vale muito, assine a revista Mundo e Missão

Adicionar Comentário

Seu endereço de e-mail está seguro conosco. Campos obrigatórios são marcados com *

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Gregório Serrão 177
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP