O missionário leigo que levou a fé na ponta do pincel

Di Pascale Michel

Conheça a história de um missionário leigo do PIME que deixou o ofício de sapateiro para ensinar arte a jovens de Parintins, no Amazonas

 

N
ascido em 1917, Miguel de Pascale, órfão de pai, transcorreu toda a sua infância em um orfanato de Avelino, na Região da Campanha, na Itália. Depois de ter frequentado a escola primária foi admitido em uma sapataria. Sua vocação iniciou-se quando, aos 17 anos, encontrou um frade mendicante, um daqueles religiosos que ainda perambulavam de casa em casa em busca de esmolas para os necessitados e para o seu convento. Era um frade com túnica e embornal, que transmitia serenidade e paz. Miguel ficou imediatamente atraído.

“Padre, eu gostaria de fazer como você, que roda por todas as cidades e está sempre sereno e contente”. Com um olhar bondoso, o frade lhe respondeu: “Não sou um padre, mas um simples irmão mendicante”. Esta resposta surpreendeu Miguel, que não conseguia assimilar esta distinção.

Continuou, então, a fazer perguntas até que entendeu: para ajudar os outros não era necessário ter estudado tanto e se tornar sacerdote, mas era indispensável ter paz no coração e viver o Evangelho com simplicidade. Esta convicção levou-o a procurar a estrada mais válida para realizar este desejo, que agora, não o deixava mais tranquilo. Um caminho que o conduziu de Avelino à Milão, aos missionários do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME).

Disposição natural à pintura

Miguel não tivera a oportunidade de estudar muito. Era, porém, um jovem que sonhava conhecer e entender o mundo em suas diversas expressões. Além disso, ficava extasiado frente aos grandes afrescos que via nas igrejas. Frequentemente se perguntava: “Como é possível que gente normal, pessoas como eu, possa compor quadros tão lindos?”.

Um dia teve a coragem de perguntar ao superior da casa, para que lhe explicasse como alguém poderia fazer obras tão grandiosas que ele, em seus limites, não conseguia entender. O padre, sem saber bem o que responder, teve a excelente intuição de lhe mostrar alguns livros da biblioteca que explicavam a história e as obras de alguns grandes pintores italianos do Renascimento.

Daquele dia em diante, quando tinha um pouco de tempo livre, Miguel corria para a biblioteca. Ele queria ler e entender como se pinta e como se esculpe. Mas isto não lhe bastava. Então começou a reproduzir aquelas obras-primas em folhas de papel. O tempo foi passando. Ele fez as promessas como missionário leigo do PIME, e sentiu o forte desejo de partir para as missões. Mas o seu país entrou na Segunda Guerra Mundial (1939-45) e ele não pode ir.

Di Pascale Michel

O “caso” de uma estátua… sem cabeça

Depois da guerra, Miguel pôde, finalmente, partir para uma missão do PIME: a de Parintins. Tinha 36 anos. Naquela cidade amazonense, o artista dos sapatos se tornaria um mestre pintor. E foi tudo meio por acaso, quando uma senhora idosa apareceu na casa do bispo, levando em uma mão uma estatueta em gesso, decapitada e, na outra, duas pequenas cabeças. Uma tinha linhas masculinas e outra feminina. Ambas, provenientes de alguma estátua quebrada. A senhora solicitava uma ajuda para devolver à estatueta a cabeça correta. O bispo confiou o encargo a Miguel, que pediu alguns dias para restaurar aquele objeto e devolver-lhe o esplendor inicial. O irmão levou as peças à sua modesta “oficina” e, com limitados instrumentos disponíveis, colou a cabeça, pegou as tintas que tinha comprado na cidade e, em alguns dias, restaurou a peça. Aquela figura que, há tempos, não se conseguia distinguir nem o sexo, transformou-se em uma linda estátua da Virgem Maria.

Lições preciosas

Escola do irmão Di Pascale Michel

A fama deste “feito” encaminhou a Miguel muitas outras obras deterioradas, entre pinturas e estátuas. O reconhecimento por parte da população local só aumentava. As pessoas então começavam a colocá-lo contra parede: ”Se é capaz de tanto, por que não poderia ensinar os nossos filhos?” Miguel ficaria contente em fazê-lo, mas onde? O caso chegou ao bispo, que havia contribuído para o nascimento desta nova aventura. Então liberou ao irmão a ampla garagem onde estacionava a sua motocicleta.

Assim, foi inaugurada uma escola profissional de pintura e escultura que, com mais de 35 anos de atividade, encaminhou ao mercado de trabalho e à vida muitos meninos de Parintins. Miguel aceitava aproximadamente 30 estudantes por dia, entre meninos e rapazes, divididos em dois turnos, de modo que todos tivessem a possibilidade de aprender com as suas lições.

Uma particularidade

Enquanto os alunos restauravam estátuas sacras, ou se ocupavam com pinturas religiosas, todos recitavam, juntos e em voz alta, o rosário. “Porque, se não se reza, não se pode desenhar ou esculpir bem qualquer coisa sacra”, esclarecia o mestre. Quando algum aluno lhe pedia explicações muito complicadas, ele tinha a resposta pronta: “Na pintura, como na vida, o mais importante para nos tornar melhores é conhecer e seguir o exemplo de alguém comprovadamente melhor do que nós”.

A passagem do bastão

Era a manhã do dia 3 de setembro de 2010 quando o atual bispo de Parintins, dom Giuliano Frigeni, anunciou na rádio da diocese (Rádio Alvorada) a morte do irmão Miguel de Pasquale, ocorrida no dia anterior na casa dos missionários idosos de Rancio di Lecco, na Itália. O comentário geral que ganhou as ruas e praças de Parintins era sempre este: “Irmão Miguel foi sepultado na Itália, mas seu coração e seu espírito permanecem entre nós!”.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de maio 2018 –  edição nº 222
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