A força que vem da tribo

Conheça um pouco mais sobre um ritual importante para os índios saterê-mawé: a dança da tucandeira

U
m costume tradicional de uma nação indígena da região do baixo Amazonas, da diocese de Parintins, é a Dança da Tucandeira dos índios saterê-mawé, dos rios Andirá e Maraú. A tucandeira ou tucandera é uma espécie de formiga gigante com o ferrão no abdômen, coberta de fina pelugem ruiva. Sua ferroada é muito dolorosa. Dá febre e inchaço. Os índios contam que, desde a origem, eles receberam do grande Tatu (sahu-wató) o ritual de se fazer ferrar pelas Tucandeiras, em uma cerimônia que eles chamam de waty’amá.

As partes principais da narração mitológica do ritual são feitas através de cantos, melodias especiais da tucandeira, e com palavras arcaicas, sobretudo para os nomes de animais, peixes e heróis culturais. Estas narrações penetram no fundo da alma do povo. É força. É a vida da tribo. Eles cantam e dançam melodias, palavras e ritmos especiais. Mas, por que os índios fazem a waty’amá? Por que eles se deixam ferrar pelas tucandeiras, colocadas vivas e presas em luvas especiais de talas de palha? Os velhos explicam:

1) A tucandeira foi dada para a saúde do índio; para o índio vencer a febre, o reumatismo e as dores. A sua ferroada é um tipo de remédio, uma vacina contra as doenças. Este é o aspecto terapêutico do ritual.

2) A waty’amá é realizada para a iniciação masculina, ou seja, quando o adolescente passa a ser considerado adulto. Mas  também há casos de meninos de 6 a 8 anos que participam.

3) Através da dança da tucandeira o índio realiza a própria identidade tribal. Descobre de onde veio, para onde vai e dá sentido à própria existência dentro de um clã. Para ser um saterê-mawé, o certo mesmo é participar do rito waty’amá pelo menos 20 vezes durante a vida.

4) Todo o povo participa e aprecia como os candidatos se submetem ao doloroso rito de passagem. É também o momento de conhecimento e encontro das pessoas para futuros casamentos.

5) Às vezes, os velhos pedem que seja realizada a festa da tucandeira quando os índios querem ouvir lendas e narrações:
a memória tribal.

6) Também a cerimônia é feita para o índio ser um bom pescador, caçador, ter sorte na vida, no trabalho, na lavoura, ser corajoso e lutador: enfim, o aspecto propiciatório é pedir a Deus algo de bom para a vida das pessoas. Como aspecto mais conhecido da tucandeira o povo se junta para festejar a origem das estrelas, da lua, do sol, das águas, dos animais, da
floresta. É, enfim, a forma de louvar a Deus por tudo o que temos e somos. Cada povo, cada nação, tem o próprio modo
de pensar e viver os grandes acontecimentos da vida. A tudo isto nós damos o nome de cultura.

REFLEXÃO

A tucandeira parece ser uma forma para manter a saúde física e espiritual do índio e da tribo. Simboliza a força e a união de um povo. Tudo isso não impediu os saterê-mawé de receber o Batismo, hábito que tem mais de 300 anos. Eles acham que a evangelização cristã complementa e ajuda esse desejo de serem amparados pela força de Deus, Tupana, e de Anumarehit, Jesus Cristo. A sabedoria indígena dos antigos soube abraçar a fé cristã sem perder idioma, tradições e rituais próprios da sua cultura. Nas últimas décadas, a religião católica vem valorizando aspectos culturais indígenas que a sociedade dos chamados civilizados despreza e destrói. A reflexão desta edição termina com o salmo, que ensina: “Nações, louvai todas ao Senhor. Enaltecei-o povos todos porque grande é para nós a sua bondade. A fidelidade do Senhor permanece para sempre” (Sl 116).

Publicado no Jornal Missão Jovem de Junho/Julho de 2018

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