A missão do cristão é recuperar a dignidade humana

ajuda humanitária

A originalidade do discípulo-missionário, nos passos de Jesus de Nazaré, encontra-se no serviço da misericórdia

 

J
esus de Nazaré causou reboliços pelo modo de falar das coisas de Deus e com os gestos de misericórdia em favor dos sofredores e marginalizados. Seus familiares tentaram prendê-lo, julgando ter enlouquecido (Mc 3,21). Os conterrâneos de Nazaré ficaram furiosos e quiseram jogá-lo do alto de um precipício, por não suportarem seu modo de pensar (Lc 4,28-29). Um grupo de fariseus tomou a decisão de eliminá-lo, ao verem os milagres realizados em dia de sábado, quando a religião impunha o descanso obrigatório (Mt 12,14).

Os adversários o questionavam: “Com que autoridade tu fazes estas coisas?” (Mc 11,28). Afinal, Jesus agia com uma liberdade, até então, desconhecida. Seus inimigos pensavam que, se agisse impulsionado por Deus, seria submisso às normas da religião e as respeitaria, como eles. O preconceito levava-os a desvalorizar a ação de Jesus, pois sua família era bem conhecida. “Não é este o carpinteiro, o filho de Maria, irmão de Tiago, Joset, Judas e Simão? Suas irmãs não estão aqui entre nós?” (Mc 6,3). Esse conhecimento tão próximo impedia-os de reconhecer a novidade de Jesus. Era um deles! Então, como entender seu modo de falar e de fazer o bem tão diferente de tudo quanto conheciam até então?

Jesus não tinha como convencer a liderança religiosa de que sua autoridade provinha de Deus. De fato, não pertencia a nenhuma instituição que o pudesse respaldar; aliás, vivia fora dos círculos religiosos da época. Era um missionário independente, sem relação com as autoridades do templo e das sinagogas. Uma convicção o movia: ter sido enviado pelo Pai para proclamar o Evangelho da salvação (Lc 4,16-21).

Quem convivia com ele e o escutava, de coração aberto, percebia a mão de Deus agindo nele. Esse era o ponto de partida e de chegada de tudo que fazia. O Pai orientava o foco de sua ação, para não se perder em meio a tantas atividades em favor do povo sofrido.

Jesus tinha consciência de que o poder recebido do Pai destinava-se a libertar as pessoas de toda sorte de escravidão. Seu agir encarnava a misericórdia divina, em favor dos pecadores e dos marginalizados.

O cumprimento escrupuloso dos preceitos religiosos, como insistiam os inimigos, não lhe interessava. Importava-lhe, sim, as pessoas, com suas dores e aflições, necessitadas de acolhimento e cuidado. Elas acorriam à sua procura, a ponto de não ter nem tempo para comer sossegado (Mc 6,31). Tudo isso por ser um missionário peculiar, jamais visto.

Os missionários cristãos de hoje devem se perguntar qual é o diferencial de sua atuação. Fazer pregações barulhentas em praça pública com a Bíblia erguida? Anunciar um castigo divino implacável para os pecadores? Fazer promessas de milagres, para resolver todo tipo de problema? Basta proclamar o nome de Jesus para ser, de fato, verdadeiro missionário cristão?

A originalidade do discípulo-missionário, nos passos de Jesus de Nazaré, encontra-se no serviço da misericórdia, em favor da humanidade sofredora, como mediadores da compaixão do Pai. O empenho efetivo para recuperar a dignidade humana, aviltada de muitas maneiras, é o característico da missão cristã. Com o mesmo poder de Jesus, os missionários vão pelo mundo fazendo o bem (At 10,38).

 

Publicado na revista Mundo e Missão de novembro de 2018 – edição nº 227
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