A missão “jovem” do padre Zimbaldi

Pe. Zimbaldi (à esquerda) será responsável por abrir as portas de uma nova casa do Pime: instalada na periferia de Chiang Rai, capital de uma província tailandesa na fronteira com Mianmar | Fotos: Pedro Facci

Pe. Zimbaldi (à esquerda) será responsável por abrir as portas de uma nova casa do Pime: instalada na periferia de Chiang Rai, capital de uma província tailandesa na fronteira com Mianmar | Fotos: Pedro Facci

Com 88 anos,  missionário do Pime abre uma nova comunidade na Tailândia

 

O
slogan mais feliz do papa Francisco é a “Igreja em saída”: nós, todos os batizados, devemos nos projetar para fora, como está no 1° capítulo da Exortação apostólica Evangelii Gaudium: “Quero uma Igreja toda missionária”. Pois bem, o padre italiano Gianni Zimbaldi é efetivamente “um padre em saída”, porque sempre testemunhou e anunciou Jesus Cristo entre populações distantes e abandonadas da Tailândia.

Hoje, aos 88 anos, após breves férias custeadas por benfeitores na Itália, Zimbaldi retornou à Tailândia. Não a Bangcoc, onde poderia ficar tranquilo, mas às montanhas e regiões florestais do norte, onde vivem aldeões de religião animista. Um ambiente difícil, inclusive para os deserdados do Mianmar, que ele já conhece (e fala a sua língua), entre os quais atua com alguns coirmãos.

Padre Zimbaldi, após a ordenação sacerdotal em 1953, aprendeu inglês nos EUA e, em 1958, partiu para a Birmânia (hoje Mianmar). Chegou a Kengtung, no chamado Triângulo de Ouro, na Páscoa de 1958. Um mês depois, um professor católico que sabia um pouco de inglês acompanhou-o em uma viagem de quatro dias em lombo de burro à missão de Mong Pok, entre os tribais das etnias Lahu e Akhá, na fronteira com a China. Mong Pok era um vilarejo fora do mundo, desprovido de tudo. Na missão havia duas irmãs catequistas, que viviam em cabana de barro e palha e cozinhavam em um alpendre no quintal. A igreja era de bambu e barro.

“Minha primeira tarefa – explicou Zimbaldi – foi aprender a língua lahu com um professor chinês que arranhava o inglês. Não havia nenhum livro, só uma cartilha com o alfabeto e umas dez palavras, alguns folhetos com orações em lahu e um livro com os Evangelhos, composto em língua shan pelo padre Francesco Portaluppi, do Pime, depois traduzido em lahu e akhá. Mong Pok ficava a quatro dias de Kengtung, aonde se ia em lombo de burro, em caravana, por poucos dias e, ao máximo, duas vezes por ano para comprar mantimentos”.

Vida fascinante

“Meus oito anos de Birmânia foram maravilhosos, apesar da pobreza, do isolamento, dos guerrilheiros e dos comerciantes de ópio, dos bandidos e dos animais ferozes que rodeavam as caravanas e os acampamentos noturnos e assustavam as montarias. Guardo no coração a simplicidade e a cordialidade daquela gente, assim como a sua alegria e fé quando o Senhor lhe dava a graça de se converter”, conta Zimbaldi.

Padre Zimbaldi rodeado de crianças durante trabalho missionário

Padre Zimbaldi rodeado de crianças durante trabalho missionário

O sacerdote viveu nas montanhas e florestas da Birmânia oriental até 1966, quando os militares instalaram a ditadura comunista e expulsaram todos os missionários mais jovens. Em 1972, com dois coirmãos, ei-lo de volta à Tailândia para fundar a missão do Pime. Os três se estabeleceram em Chiang Mai, no norte do país. Após um ano estudando o tailandês, o bispo enviou o padre Zimbaldi a Fang (150 quilômetros ao norte de Chiang Mai) para cuidar dos Lahu e dos Akhá que fugiam da Birmânia. Para Zimbaldi, foi como voltar à antiga missão de Mong Pok. Visitava os vilarejos para encontrar os católicos aí presentes e, falando bem o lahu era acolhido por todos com manifestações de alegria.

A mão da Providência

Naquele tempo, Fang era uma “cidade” com, no máximo 3 mil habitantes, porém era o centro civil e comercial de uma vasta região com cerca de 100 mil habitantes tribais, na maioria em Fang, Zimbaldi morava na missão abandonada há 15 anos. Logo acolheu oito rapazes e sete moças Lahu provenientes das montanhas e alunos da escola do governo. Para as moças alugou uma casinha, na qual acolheu uma idosa católica e suas duas filhas. A senhora cuidava das moças, lavava roupa e fazia comida para todos. A Providência ajudou o missionário e hoje a missão de Fang dispõe de um vasto terreno, no qual há uma grande igreja e outras obras da paróquia.
Hoje Fang abriga perto de 10 mil moradores. Com o auxílio da Providência e dos coirmãos, padre Zimbaldi construiu a igreja. Ao completar 75 anos e deixar a paróquia, foi, por três anos, ajudar os coirmãos na missão de Mae Suay, desmembrada da de Fang. Em 2009, retornou a Fang como assistente pastoral das comunidades que havia criado.

A decisão superior

Nova comunidade do Pime será instalada na divisa entre Mianmar e Tailândia

Nova comunidade do Pime será instalada em Chiang Rai,  na divisa entre Mianmar e Tailândia

Atualmente, Zimbaldi empreende uma nova aventura missionária a pedido do superior geral do Pime, padre Ferruccio Brambillasca (que foi missionário no Japão). Este e seus conselheiros intuíram que o Pime deveria vender a casa regional na Tailândia e seu terreno em Bangcoc, e, com o recurso arrecadado, construir uma nova casa regional na periferia de Chiang Rai, capital de uma província na fronteira com Mianmar. Assim foi feito e doravante será possível acolher e acompanhar melhor os cristãos tribais oriundos da região de Chiang Rai e de Mianmar, além de ajudar a vizinha diocese de Kengtung, evangelizada pelo Pime. Chiang Rai foi escolhida por razões estratégicas: ela mantém um voo direto com Bangcoc e deverá, em um futuro próximo, sediar uma nova diocese (seccionada da de Chiang Mai). O Pime prepara as estruturas. Já foi adquirido o terreno onde logo surgirá a casa.

Incansáveis

O primeiro missionário que irá abrir esta casa será o padre Gianni Zimbaldi, que fala a língua dos desertados e dos tailandeses. Ele terá o auxílio dos coirmãos. Esta é a tradição do Pime, Instituto de sacerdotes não religiosos (isto é: sem votos), mas uma comunidade apostólica de clero secular, fundada em 1850 pelo venerável Angelo Ramazzotti (bispo de Pavia e patriarca de Veneza) e pelos bispos da Lombardia, para anunciar Cristo aos povos mais distantes e abandonados e fundar a Igreja local para o clero local.
No território da futura diocese de Chiang Rai já atua, desde 1991, o Instituto Missionário Tailandês (MET), antiga aspiração da Conferência Episcopal do país. O carismático padre Adriano Pelosin, do Pime, é hoje o assistente superior dos sacerdotes diocesanos e religiosas de algumas congregações locais, no difícil caminho da missão. Além de trabalhar na Tailândia, eles trabalham também no Camboja e em Laos.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de novembro/2017 – Ed. 217
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