A presença dos leigos nas missões

Ottorino Zanatta: leigo do PIME nos Camarões, missionário gerencia uma fazenda-escola que tem como finalidade aumentar a taxa de sustentabilidade da agricultura local

Parece coincidência, e, com efeito, é uma coincidência, a que fez encaixar o ano de reflexão sobre os leigos missionários do PIME com o ano em que a Igreja brasileira quis dedicar à vocação laical. Dois percursos, uma única meta.

 

Massimo Cattaneo: atua no Norte de Bangladesh na direção de uma escola técnica que proporciona aos jovens uma formação integral, além de uma visão cristã da vida

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oucos sabem que entre os primeiros sete missionários do PIME que partiram da Europa para a Oceania, em 10 de abril de 1852, dois – Giuseppe Corti e Luigi Tacchini – eram leigos. Alguns meses antes do martírio do padre Giovanni Battista Mazzucconi, hoje bem-aventurado, Corti faleceu no dia 17 de março de 1855 em decorrência de febres tropicais: o primeiro de uma longa série de missionários que ofereceram a própria vida para o Reino de Deus.

Leigo: uma testemunha qualificada
Graças à caminhada feita pela Igreja, a vocação do missionário leigo continua mais atual e necessária do que no passado. A Constituição dogmática Lumen Gentium, do Concilio Vaticano II, apresenta, de fato, a Igreja como “povo de Deus”, e é nesta perspectiva que deve ser compreendida a missão ad gentes: a expressão de um cuidado que, alcançando os extremos confins da terra, simboliza aquele amor universal que é a característica de Deus.

O missionário leigo não é mais o simples colaborador do padre, mas, graças ao próprio batismo, torna-se uma testemunha qualificada daquilo que Deus continua fazendo em prol da humanidade.

De mangas arregaçadas
Hoje os missionários leigos do PIME trabalham em variados contextos, cada qual colocando a sua habilidade profissional ao dispor da Igreja local. É o caso, por exemplo, do irmão Massimo Cattaneo que, no Norte de Bangladesh, dirige a escola técnica da missão, proporcionando aos jovens uma formação integral, que lhes permita ingressar com sucesso no mercado de trabalho, e, ao mesmo tempo, lhes ofereça uma visão cristã da vida. Da mesma forma, o irmão Roberto Valenti administra uma escola técnica em Watuluma, na Papua Nova Guiné.

Fabio Mussi: leigo do PIME dedicado a numerosos projetos de desenvolvimento da Cáritas local da República dos Camarões

O irmão Fabio Mussi dirige, com incomum habilidade, os numerosos projetos de desenvolvimento da Caritas local da República dos Camarões: escavação de poços, auxílio à alimentação, cursos de formação para o desenvolvimento humano, etc. Também nos Camarões, o irmão Ottorino Zanatta gerencia uma fazenda-escola, que tem como finalidade aumentar a taxa de sustentabilidade da agricultura local.Estes são alguns exemplos concretos que demostram como hoje a missão necessita de profissionais à altura dos tempos.

Presença essencial
Existem também razões de natureza histórica que tornam a presença e a ação dos missionários leigos ainda mais atual do que no passado. Muitos países, particularmente da Ásia, não permitem o ingresso de sacerdotes ou impedem que eles exerçam o ministério. Um missionário leigo, pelo contrário, tem a oportunidade de realizar a própria vocação, ainda que não possa expressar, de forma livre e plena, a sua fé.

Trata-se de deixar espaço ao Espírito e à criatividade dos missionários para que se repensem. Sobretudo é preciso rezar para que muitos jovens se abram à vocação missionária, inclusive na condição de leigos consagrados, colocando assim a própria vida ao dispor do Evangelho.

 

Leigos e leigas nos areópagos modernos

Na Encíclica Redemptoris Missio, São João Paulo II identifica alguns desafios prioritários à missão evangelizadora da Igreja no mundo contemporâneo. Ele os chama de “modernos areópagos”. Lembra que o apóstolo Paulo, depois de ter pregado em numerosos lugares, chega a Atenas e vai ao areópago, onde anuncia o Evangelho, usando uma linguagem adaptada e compreensível para aquele ambiente (At 17,22-31). O areópago, que representava o centro da cultura do povo ateniense, é tomado como símbolo dos novos ambientes onde o Evangelho deve ser proclamado. A preocupação com a presença nos “modernos areópagos” não se reveste da roupagem de conquista espiritual. Exprime somente a atenção da Igreja à realidade de um grande número de pessoas que não têm Jesus como referência. São João Paulo II deixa entrever no texto de sua encíclica a preocupação para que estes areópagos e as “gentes” que os habitam possam ser alcançados de alguma maneira pela Boa-Nova do Evangelho. Os cristãos leigos são os primeiros membros da Igreja a se sentirem interpelados na missão junto a essas grandes áreas culturais ou “mundos” ou fenômenos sociais ou, mesmo, sinais dos tempos.
(Cristãos leigos e leigas na Igreja e na sociedade, 250-251 – doc. CNBB-105)

Publicado na Revista Mundo e Missão de dezembro 2017
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