A raiz da paz: precisamos lembrar que somos bons

Precisamos ser construtores da paz

 

 

H
á uma raiz misteriosa da qual a paz depende. Uma raiz que, muitas vezes, esquecemos e, por isso, a paz nos abandona. E nos tornamos atormentados e atormentadores. Enchemos o ar com nossos gemidos, incapazes de perceber qualquer mensagem de socorro. Incapazes de escuta.

Sim, a paz tem uma raiz que, como todas, inclusive as das árvores, está debaixo da terra, escondida, mas que dali sustenta com ímpeto manso tudo o que se ergue acima da superfície. A raiz se chama Memória. Mas não é um simples lembrar coisas do passado, às quais nos liga à uma vã nostalgia, mas é Memória de algo, ou melhor, de Alguém que está sempre presente ali onde nos deixamos encontrar.

Nós, cristãos – e repito todas as vezes em que celebro a Eucaristia -, somos sortudos porque a nossa fé nos oferece palavras. Palavras para dizer Àquele que se faz presente e nos sustenta. A paz, portanto, não é só empenho “prático”. É primariamente um ato espiritual. Sem esta raiz nada acontece na sociedade, porque nada acontece nas famílias, nas amizades, naqueles relacionamentos aparentemente irrelevantes nos quais, todavia, está entrelaçada a nossa vida.

“Bem-aventurados os construtores de paz”, proclama o evangelista, mas só depois de ter proclamado que são “bem-aventurados os pobres em espírito”. Não se pode, de fato, construir a paz se em nós mora a guerra. Se a Memória fundante se ofuscou até quase desaparecer. Se, quando pensamos, nos sentimos irremediavelmente, doloridamente sós. Se em nós prevalece o afã de quem se sente perdido. Dessa forma, sanar as feridas em nós e ao nosso redor é o novo imperativo categórico. O imperativo categórico da época das paixões tristes.

Há na África uma etnia que tem um costume muito bonito. Quando alguém faz algo prejudicial e errado, a comunidade leva a pessoa para o centro da aldeia, e toda a tribo vem e a rodeia. Durante dois dias, ela diz à pessoa todas as coisas boas que ela já fez. Isso porque a tribo acredita que cada ser humano vem ao mundo como um ser bom. Isso quer dizer que cada um de nós deseja segurança, amor, paz, felicidade. Mas, às vezes, na busca, comete erros.

A comunidade vê aqueles desvios como um grito de socorro. E se une, então, para reerguer o infeliz, para reconectá-lo à sua verdadeira natureza, para recordá-lo de quem realmente é, até que ele se lembre totalmente da verdade, da qual tinha se desconectado temporariamente: “Eu sou bom”.

Sawabona! Shikoba!

Sawabona é um cumprimento usado na África e que quer dizer: “Eu te respeito, eu te valorizo. És importante pra mim!”. Em resposta, a pessoa exclama: “Shikoba!”, que significa: “Então, eu existo pra ti!”.

Sawabona, queridas amigas e queridos amigos!

Feliz 2018!

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219
Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP