Ai Weiwei: engajamento político e criação artística

Ai Weiwei

O artista chinês Ai Weiwei esteve recentemente no Brasil, durante a 41ª Mostra Internacional de Cinema | Foto: Ai Weiwei Studio

Além de apresentar o presente com olhar crítico, o artista e sua obra devem ser um instrumento de contestação de coisas como elas são atualmente. Pelo menos é o que propõe o artista chinês

 

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ão é raro ouvir que a arte possui um papel transgressor na sociedade. Artistas de diferentes épocas e linguagens são classificados como aqueles que nadaram contra a corrente. Há inúmeras obras de arte que também foram censuradas, na maioria das vezes, pelo regime político da nação do artista. Ai Weiwei é um artista que já foi – e ainda continua sendo – perseguido por causa de suas obras e opiniões. Nascido na China, em 1957, é filho do poeta Ai Qing, que foi amigo de outro grande nome da poesia mundial, o chileno Pablo Neruda.

A obra intitulada “Dropping a Han Dynasty Urn” é de 1995. Ai Weiwei quebrou um vaso milenar chinês da dinastia Han. Essa performance já foi exibida em vários lugares do mundo. A provocação gira em torno daquilo que é considerado – ou não – arte. Se tudo está em constante movimento, o conceito de arte também muda com o tempo? Um objeto considerado como algo a ser preservado pela cultura é, nas mãos de um artista, completamente destruído. E, este mesmo artista, em um outro vaso antigo escreve: Coca-cola. Tudo isso para criticar o consumo e o sistema capitalista. “Se um objeto é símbolo de repressão, como um vaso chinês, o mesmo é símbolo da opressão, então não é arte, porque toda esta deve ser libertação”, diz Weiwei.

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Exílio e perseguições
Atualmente, Ai Weiwei está exilado na Alemanha e é considerado um dos mais importantes artistas contemporâneos. Ele se intitula documentarista, artista plástico, designer arquitetônico, pintor e ativista social. É, portanto, um ativista da arte contemporânea.

Na China foi perseguido e desperta a fúria das autoridades. Em uma série de fotografias, ele mostra o dedo do meio a diversos palácios do governo. Teve seu passaporte apreendido pelo governo e foi preso duas vezes, além de ter seu ateliê demolido pela administração chinesa. Seu blog foi retirado do ar devido ao grande fluxo de críticas sociais e políticas referentes ao governo chinês.

Em 2009 um terremoto atingiu a China. Na ocasião, inúmeros prédios caíram. Ai Weiwei se engajou para fazer uma investigação sobre as péssimas condições em que esses prédios se encontravam. Depois, fez uma lista com mais de 5 mil nomes de estudantes mortos na tragédia. Por esse motivo foi espancado por policiais.

O ativismo de sua arte

Em uma de suas obras, que demorou dois anos e meio para ficar pronta, o artista confeccionou sementes de girassol de porcelana para, depois, serem pisadas. Para ele, é uma crítica à milenar tradição das porcelanas chinesas.
A internet é o principal canal de manifestação de Weiwei. Ele mesmo confessou que passa cerca de oito horas por dia na internet, postando suas expressões. Como na China a internet é regulada, uma tentativa de digitar o nome de Ai Weiwei em um site de busca aparece como erro de digitação. Para o artista, a separação entre engajamento político e criação artística nunca existiu. A arte deve sempre defender os direitos humanos e a liberdade de expressão.

O tema “Refugiados” está presente em seus trabalhos. Ai Weiwei instalou 14 mil coletes salva-vidas nas colunas Konzerthaus, em Berlim. Na Galeria Nacional de Praga há uma escultura de 70 metros com pessoas sobre um bote inflável. Foi alvo de duras críticas quando posou como o menino Aylan Kurdi, que morreu na Turquia, e se tornou um símbolo dos refugiados na grande imprensa. “Não sei por que fui criticado. Tenho toda razão para fazer isso. Crianças morrem todos os dias afogadas e a Europa finge até hoje que nada está acontecendo. Por que são tão sensíveis à foto do Aylan? Acho bizarro. Como artista, posso fazer um gesto de Jesus, qualquer gesto, é uma forma de expressão. Carrega um significado moral, mas meu objetivo é usar a forma para levantar um argumento intelectual”, finalizou Weiwei.

“HUMAN FLOW”: CRÍTICA NAS TELONAS

Ai Weiwei veio ao Brasil apresentar o documentário durante a 41ª Mostra Internacional de Cinema, que ocorreu em São Paulo

Ainda sobre o tema “Refugiados”, há dois anos Weiwei trabalha no documentário “Human flow”, que retrata a vida daqueles que precisaram deixar a sua pátria. O filme estreou no Festival de Veneza, em 2017. O tema, que já foi explorado pela imprensa de todo o mundo, ganha uma abordagem mais pessoal do artista. Como a família de Weiwei foi perseguida pelos políticos, ele mesmo conhece o que significa o deslocamento forçado (clique aqui e assista a uma entrevista em que ele conta suas motivações para filmar o drama dos refugiados).

Em duas horas e 20 minutos de filme, “Human flow” mostra o depoimento de refugiados e imagens de 22 países. A “tragédia humanitária”, como o artista intitula, já expulsou de suas casas 65 milhões de pessoas, de acordo com dados das Nações Unidas. “As notícias sobre a crise migratória estão tão banalizadas que foi preciso buscar uma linguagem própria para o documentário, que sobrevivesse ao antes e o depois de o filme ser feito. Era preciso encontrar formas de contextualizar e fornecer perspectiva histórica ao que estávamos filmando, porque o problema da migração ainda está em processo”, relata o artista.

No documentário há trechos de poemas de autores de diversas origens, o que torna a narrativa poética. “O filme é feito com uma convicção profunda no valor dos direitos humanos. Nestes tempos de incerteza, precisamos de mais tolerância, compaixão e confiança nos outros, uma vez que somos apenas um só”, finaliza Weiwei.

Confira abaixo o trailer oficial do documentário dirigido por Ai Weiwei (com legenda em português):

 

Publicado no Jornal Transcender de outubro/novembro de 2017 – Ed. 43
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