Amapá, missionário do PIME agredido pela defesa da terra

por Andrea Guerra

O padre Dennis Koltz, um missionário estadunidense do PIME na diocese de Macapá, foi repetidamente agredido por um fazendeiro em seu carro por ter investigado a regularidade das licenças de um lote de terra. Um ato de violência que faz parte da guerra diária que na Amazônia retira pequenos agricultores em favor de grandes agricultores de soja.

O padre Dennis Koltz, missionário do PIME que vive no Brasil há anos, foi agredido na terça-feira, 25 de fevereiro, quando todo o país pretendia celebrar o carnaval. A agressão ocorreu no território da diocese de Macapá, onde o missionário vive e trabalha, e mais especificamente em São Benedito da Campina: o padre Dennis, além de ser administrador paroquial da paróquia de São Joaquim de Pacuí, também trabalha na Pastoral da Terra, e é precisamente durante uma visita pastoral que o fato aconteceu.

O fato

O padre Dennis estava no carro com o padre Sisto Magro, coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) da diocese de Macapá. Nas proximidades de uma grande fazenda, os dois pararam (estavam dentro do carro) e o padre Dennis saiu do veículo para tirar uma foto da placa com informações sobre a propriedade daquela terra. Por lei, as placas com informações sobre concessões de terras devem ser colocadas “em vista”: neste caso, no entanto, a placa estava, segundo a história dos dois missionários, bastante escondida e, portanto, “suspeita”. Nesse momento, um homem que se apresentou como dono da fazenda correu para encontrar o padre Dennis. E uma violenta discussão verbal começou terminando com a agressão física do homem contra o missionário.

As denúncias

O homem, que primeiro tentou pegar e quebrar as chaves do carro dos missionários, bateu em várias vezes o padre Dennis na cara e no tórax. Depois disso, ele entrou no carro e bateu repetidamente no carro dos dois padres, destruindo o lado direito. “Como se isso não bastasse – diz o padre Sisto, que testemunhou a cena – o homem, depois de tudo isso, também apresentou uma queixa dizendo que o padre Dennis havia invadido sua propriedade, quando isso não era verdade. E ele também disse que o próprio padre Denis tentaria atropelá-lo com o carro, razão pela qual ele reagiu para tentar escapar da agressão “. O relatório do padre Sisto, completo com exames médicos realizados pelo padre Dennis, faz parte da declaração oficial emitida pelo Gabinete de Comunicação da Diocese de Macapá.

Solidariedade

Felizmente, o padre Dennis não relatou sérias consequências. Porém, existe uma grande preocupação com a segurança de pais e leigos que trabalham na Pastoral da Terra (CPT) ou Comissão Pastoral da Terra, órgão da CNBB, a Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros, criada em 1975 e comprometida com a promoção da conquista de direitos e terras, da resistência na terra, da produção sustentável), e a diocese local, como muitos outros ministros, associações e organizações pastorais envolvidas na luta contra o direito à terra, imediatamente expressou sua proximidade com os missionários e com o PIME pelo que aconteceu.

Foto: Joscar Josi Oscar

Abaixo, no íntegro, a nota do esclarecimento da Diocese de Macapá:

A Diocese de Macapá, através da Pastoral da Comunicação e da Comissão Pastoral da Terra, vem a público apresentar alguns esclarecimentos dos fatos ocorridos nesta terça-feira, 25/2, na localidade de São Benedito da Campina, e amplamente divulgado pelos meios de comunicação, envolvendo o administrador paroquial de São Joaquim do Pacuí, padre Dennis Koltz, e o coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) diocesana, padre Sisto Magro, ambos missionários do Pontifício Instituto de Missões Exteriores (PIME).

1. Enquanto realizavam visita de caráter pastoral pela área, prática comum na atividade desenvolvida pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) há mais de 40 anos em solo amapaense, especialmente após denúncias de membros de comunidades da região, os missionários se deslocaram até as proximidades da Fazenda São Sebastião com o objetivo de se certificar inicialmente de que a ocupação da área apresentava a identificação de licenciamento exigida por legislação. Para isso, realizavam no momento um registro fotográfico da placa que deveria conter as informações da natureza do uso e a validade do licenciamento da mesma. O registro, para ciência e arquivo em relatórios da CPT, fora o motivo do início das discussões entre aquele que se apresenta como proprietário e os missionários. Vale ressaltar que se tratava apenas do registro da placa, instrumento obrigatório de publicidade do licenciamento.

2. Os padres estavam fora da área propriedade quando do início do desentendimento entre as partes. O acesso a área só fora realizado pelo fato da placa com as informações do licenciamento não está fixada nas proximidades da cerca, como deveria estar em propriedades rurais para transparência e/ou fiscalização.

3. Após a discussão, os padres tomaram a decisão de se retirar do local quando foram surpreendidos pelo senhor proprietário avançando e debruçando-se para dentro do carro dos padres na intenção de retirar, ou mesmo, quebrar a chave na ignição para impedir que os mesmos se retirassem do local. Na tentativa frustrada de apropriar-se da chave do carro que os padres estavam, o senhor proprietário iniciou as agressões físicas ao padre Dennis, desferindo sobre o religioso socos entre as costelas, peito e cabeça, comprovados pelo exame de corpo de delito realizado pelo sacerdote.

4. Em nenhum momento os padres realizaram qualquer tipo de ameaça ou atentado a vida tanto do proprietário quanto de seus familiares. Todo o contato físico ocorreu tão somente em caráter de preservação da própria integridade física dos missionários, após a iniciativa de agressão pela outra parte.

5. Ainda enquanto pretendiam retirar-se do local, os padres foram surpreendidos com o carro dirigido pelo proprietário em direção aos dois sacerdotes quando já haviam retornado para o interior do automóvel de uso nas atividades pastorais naquela região. Pela manobra realizada pelo motorista e pelo estado que o transporte do sacerdote foi atingido percebe-se a intencionalidade de agressão direta, o que poderia ter uma consequência fatal, que felizmente, não ocorreu.

6. Após todo o ocorrido, os missionários dirigiram-se as autoridades policiais onde também realizaram o boletim de ocorrência. Na próxima quinta-feira, 27, uma audiência Delegacia Geral de Polícia será realizada com a presença das partes envolvidas para esclarecimentos.

7. Diante dos fatos e esclarecimentos, a Diocese de Macapá manifesta solidariedade aos missionários e recorda seu compromisso na construção de uma sociedade mais justa, em favor dos menos favorecidos, dos pobres e excluídos. Compromisso este expresso na iniciativa de organismos envolvidos na promoção da justiça e do bem comum, como a Comissão Pastoral da Terra (CPT). O fato ocorrido às vésperas da Quarta-feira de Cinzas, início da Quaresma e da Campanha da Fraternidade, que este ano tem como tema Fraternidade e Vida – Dom e Compromisso, ressalta a urgência de um autêntico testemunho cristão em defesa da dignidade da vida e das famílias no interior do estado que hoje sofrem com a apropriação e ocupação da terra de forma muitas vezes indevida.

Macapá/Ap, 26 de fevereiro de 2020

Pastoral da Comunicação

Comissão Pastoral da Terra

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