Ao longo dos rios da Amazônia, com hansenianos nos ombros

Francisco Galliani

Conheça a história do missionário Francisco Galliani, que dedicou quase 40 anos de sua vida no cuidado de pacientes contaminados com hanseníase e diversas outras doenças

 

F
rancisco Galliani nasceu em Roccafranca (região da Lombardia, província italiana de Brescia) em 1925. Iniciou sua formação religiosa no Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME) em 1944. Dez anos depois, fez seu juramento como missionário leigo no Instituto. Em 1956 embarcou em um navio rumo ao Brasil. Destino final: Parintins-AM. A missão na prelazia (hoje diocese) de Parintins tinha sido confiada aos missionários do PIME em 1948. A ação pastoral da prelazia apoiava-se em duas colunas: serviço humanitário e anúncio do Evangelho entre indígenas, ribeirinhos e caboclos da região.

Terminado o período de adaptação, o superior regional destinou-o a viver entre os nativos da área de Marau, junto com o padre Iseo Sandri. A área à qual foram destinados era vasta e contava com quase 50 vilarejos espalhados pela floresta e ao longo das ramificações do Grande Rio, o Amazonas.

A atenção aos sofredores

Depois de três anos vividos em Marau, Francisco retornou a Parintins, onde havia necessidade de tudo, principalmente no campo sanitário. Um hospital novo, com 30 leitos e uma sala cirúrgica completa, estava fechado por falta de médicos e enfermeiras. O pontapé inicial para que ele atendesse a população foi dado pelos missionários do PIME. Eles inauguraram dois cursos para moças e senhoras: enfermagem e orientações sanitárias. E o irmão Francisco estava entre aqueles que ministravam os cursos.

Certo dia, um de seus colaboradores lhe disse que uma canoa estava encalhada na margem do rio e dentro dela estava um idoso, que parecia morto. O missionário mandou seu amigo buscá-lo, mas este retornou assustado: “Não, não toco nele, é um leproso”. Aquele hanseniano tinha sido colocado na canoa e empurrado no rio pela própria família, que queria livrar-se dele e mandá-lo à morte nas correntezas do Amazonas. Francisco tomou a frente, acomodou o doente em seus braços, levantou-se e levou-o para a casa da missão.

De início, não foi fácil hospedar o doente, pois, se a notícia se espalhasse pelos vilarejos, mais ninguém iria até a missão. Então Francisco construiu-lhe uma cabana na floresta. E, diariamente, a ela se dirigia para alimentar e medicar o doente. Daquele dia em diante, começaram a chegar outros hansenianos e o missionário se tornou o único e verdadeiro amparo a cada um deles.

Para fazer frente ao novo desafio, Francisco viajou à Espanha, onde frequentou um curso especializado. Em seguida, retornou e aumentou as dimensões da cabana, dando-lhe o nome de “Ilha da Paz”.

Um dia, um dos pacientes em tratamento na Ilha da Paz precisava de cuidados por causa de um problema cardíaco. Francisco foi ao hospital do governo para pedir assistência, mas os médicos lhe responderam que não aceitavam leprosos. O missionário, então, retornou, tomou nos braços o corpo chagado e o levou ao hospital. Entrou sem pedir licença. Deitou o doente no primeiro leito livre e, levantando a voz aos médicos e enfermeiros perplexos, ordenou: “Este homem tem o direito de ser tratado, como todos os demais”. Para aplacar a indignação de Francisco, o diretor do nosocômio permitiu que o doente ocupasse um cômodo isolado e autorizou o irmão a visitá-lo todos os dias: “Aqui, ninguém quer tomar conta deste leproso. Venha o senhor para dar-lhe de comer, medicá-lo e, se for preciso, nós o ensinaremos como fazer”. Francisco ia ao hospital todos os dias, por quase três meses. Contudo, não conseguiu impedir o irreparável. No momento da morte daquele senhor estava presente também o diretor do hospital. Comovido, ele viu a mão do moribundo, no extremo sinal de amizade, procurar e apertar a do missionário.

“Irmão Francisco, você venceu sua batalha e rompeu as barreiras que nos separam dos leprosos. Nosso hospital não os acolhia antes. De agora em diante, pode trazer todos os leprosos que desejar. Cuidaremos deles”, reconheceu.

Mesmo com poucos recursos, Irmão Francisco ia ao encontro dos doentes

Do lado dos leprosos

Quando Francisco começou a construir um local maior, o PIME decidiu apoiar o projeto, comprando o terreno e dando início à construção de um ambulatório. Francisco colocou a mão na massa para obter os recursos econômicos necessários, mas as ajudas não chegaram com rapidez, como se esperava. Inevitavelmente, os trabalhos ficaram lentos, mas sua fé na Providência, não. Ele sabia que não estava lutando por um projeto pessoal e que, portanto, “Deus haveria de fazer sua parte”.

Em 1974, Francisco foi chamado à Itália. Na sua volta à missão, em 1976, colocou-se imediatamente a trabalhar, de modo quase exclusivo, para adiantar a construção do ambulatório. No final dos anos 70, um jovem padre morreu em um acidente provocado por um motoqueiro. Atingido por aquela morte repentina, Francisco desejou dar ao ambulatório o nome do missionário morto. Nasceu, assim, a casa ‘Padre Vittorio Giurin’. No início dos anos 80, o hospital ocupava-se da assistência constante de 30 hansenianos e de centenas de outros doentes, espalhados pelo distrito missionário, mas afetados por patologias variadas.

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O declínio

O início do ano de 1996 marca o começo do declínio físico de Francisco. Os médicos o diagnosticaram com cirrose hepática, consequência do tratamento inadequado para uma hepatite crônica. Em 1997, com a saúde comprometida, decidiram levá-lo à Itália para tentar novas terapias. No dia 12 de outubro, festa de Nossa Senhora de Nazaré, véspera da partida de Francisco para a Itália, a procissão desfilou diante da Casa Padre Vittorio, onde o enfermo penava, para prestar as últimas homenagens a quem sempre lutou pela saúde dos parintinenses. O homem que havia consumido sua vida naquele lugar da Amazônia estava indo embora. Francisco morreu na cidade de Lecco, próxima de Milão, no dia 25 de outubro do mesmo ano (1997). Dos seus 72 anos de idade, 39 foram vividos ao longo dos rios da Amazônia.

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de agosto de 2018 – edição nº 224
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