Apadrinhamento afetivo: doação de carinho

(Foto: Anna Lucchese)

ONG permite que voluntários dediquem um pouco de seu tempo às crianças que aguardam adoção ou que foram temporariamente afastadas de seus pais

 

É
na infância que são construídas as bases do desenvolvimento físico, social e afetivo. Daí a importância de a criança receber o máximo de apoio dos pais para que essa estrutura seja erguida da melhor forma possível. Isso porque as experiências dos primeiros anos causam impacto direto na fase adulta. O problema é que nem todas as crianças crescem no convívio familiar.

Conforme levantamento mais recente do Cadastro Nacional de Adoção (CNA) e de Crianças e Adolescentes Acolhidos (CNCA), 47 mil crianças e adolescentes crescem em abrigos no Brasil. Como garantir que eles guardem memórias positivas da infância se, desde cedo, enfrentam o abandono, o luto ou a dor de serem afastados dos pais biológicos por negligência ou violência doméstica? Na tentativa de lidar com esse problema, há 12 anos surgiu o Instituto Fazendo História, ONG que atua na capital paulista com vários projetos voltados a crianças e adolescentes nessas condições.

Um deles é o Apadrinhamento Afetivo, programa previsto em políticas públicas governamentais e já executado em diversos formatos nos municípios brasileiros, após a regulamentação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). A partir de parcerias com abrigos e com a Vara Central da Infância e Juventude do Tribunal de Justiça de São Paulo, o Fazendo História passou a implementá-lo em 2015. Trata-se de uma iniciativa que visa algo bem simples: doar carinho e atenção àqueles que moram em abrigos.

“Esse serviço é voltado a crianças e adolescentes de 7 a 17 anos, com poucas chances de serem adotados ou de voltarem para suas casas. Eles precisam de referências afetivas duradouras e o apadrinhamento surgiu para preencher essa lacuna que os abrigos não conseguem suprir”, diz Isabel Penteado, coordenadora geral do Fazendo História.

Padrinhos e madrinhas de afeto

(Foto: Anna Lucchese)

Como o nome sugere, os padrinhos e madrinhas afetivos se encontram com os afi­lhados para conversar, dar risada, brincar, passear, entre outras atividades. Muitos acompanham o processo escolar e vão às reuniões da escola. Outros ajudam na busca do primeiro emprego, na escolha de um curso e auxiliam no uso consciente do dinheiro. Alguns colaboram com a saúde, acompanhando consultas e ajudando a criança a seguir as recomendações médicas.

“Longe de ser gesto caritativo, ou envolver presentes e mimos em datas marcadas, o apadrinhamento afetivo implica conhecimento, alteridade, descobertas, amizade e amor. Ser padrinho ou madrinha exige, primeiramente, a responsabilidade social para com sua comunidade. Depois, a busca de uma disponibilidade que está além de ter dinheiro e tempo. É preciso ter humanidade, tempo de olhar o outro e desejo do encontro”, escreveu Dora Martins, juíza do Segundo Grau do Tribunal de Justiça de São Paulo, no prefácio de um guia que a ONG produziu a respeito do apadrinhamento afetivo. Publicado em junho de 2017, o livro está disponível no site do Fazendo História para que outras ONGs e demais interessados possam usá-lo.

Ainda no site da entidade, entre os depoimentos de pessoas que se dispõem a ser padrinhos de afeto, encontra-se a fala de Mirela Loreto. “O Carlos é uma criança simples: enquanto eu penso em passeios, para ele andar pelas ruas observando os prédios e árvores já é um barato. Enquanto eu adio a vinda dele em casa, temendo ser um tédio e fracasso total, cozinhar e ver filme juntos já bastava. Até ver a pipoca estourar no micro-ondas vira um acontecimento. E a cada encontro aprendemos algo sobre o outro”, conta Mirela, que diz ter “crescido como ser humano” desde que passou a desenvolver esse trabalho voluntário. Seu afilhado, no entanto, passou a fazer parte de uma exceção: foi adotado mesmo tendo mais de 7 anos. Mirela, por outro lado, continua firme nesse propósito e deseja apadrinhar outra criança, pois ela sabe que nem todas têm a mesma sorte.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219

 

 

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