Arcabas: Artesão da beleza

No caminho de Emaus

catechesiverona.it – No caminho de Emaus . As imagens deste post referem-se ao ciclo Os peregrinos de Emaus (1993-94) pintado na Igreja paroquial da Ressurreição em Torre de’ Roveri, na Itália.

Mais um passo no Rastro de Deus. Um rastro que encontra na alma humana, mais precisamente na resposta da fé ao chamado de Deus, o lugar para se concretizar, transformando-se, no caso da pintura, em cores, luzes, figuras. Assim nasceu Arcabas, um dos mestres da arte sacra contemporânea.

J
ean Marie Pirot, 91 anos, pintor francês, é internacionalmente conhecido como Arcabas. De formação artística parisiense, Arcabas expôs sua arte em muitas exposições, tanto em sua pátria (Paris, Lion, Grenoble) quando no exterior (Frankfurt, Berlim, Ottawa, Panamá). As suas obras estão presentes em coleções públicas e particulares na França, Canadá, Estados Unidos, México, Japão. Atualmente, o artista vive e trabalha na região francesa de Isère, depois de ter-se longamente dedicado ao ensino da pintura. Mas é, sobretudo, a produção sacra que fez de Arcabas um pintor mundialmente conhecido: obras como as realizadas na igreja de Saint-Hugues de Chartreuse (pinturas e esculturas, entre 1950 e 1990), no santuário de La Salette, na igreja de S. Ismier (vitrais), na catedral de Saint-Malo (altar, batistério, paramentos litúrgicos), na igreja paroquial da Ressurreição em Torre de’ Roveri, na Itália, onde pintou o ciclo Os peregrinos de Emaus (1993-94). Apresentamos a seguir trechos de um diálogo entre o pintor e o monge Enzo Bianchi, fundador e prior da Comunidade monástica de Bosi, na Itália.

Eu não sou um homem da palavra – principia Arcabas. – Fui professor de pintura, mas a linguagem verbal não é a minha forma de expressão. Quanto mais envelheço, tanto mais percebo que as palavras são limitadas, imperfeitas. São como pedras que constroem campos de concentração, que me sinto obrigado a derrubar para encontrar uma espécie de virgindade da sensação, de lembrança da minha infância, daquilo que é o húmus real do meu trabalho de pintor. E quanto menos eu falo, melhor me sinto.

Mas, então, por que, no âmbito da palavra, obteve-se certa renovação da arte com conotação cristã, enquanto na pintura isto é algo tão difícil? São raros os pintores que tiveram a capacidade de representar o mistério. Eu conheço só Chagall, Rouault e, hoje, você. Digo francamente: não conheço muitos que tenham tido esta capacidade de aproximar-se do mistério de Deus, do mistério cristão, com uma arte que consiga Pressentir uma presença.

 

acolhida

A acolhida

Não sei se consigo apresentar razões que expliquem esta falta de artistas em relação à fé. Você falou de Rouault, de Chagall, para nos limitarmos à época contemporânea, e eu noto que estes artistas tinham fé. Mas você sabe que quando os frades dominicanos construíram a igreja de Nossa Senhora de todas as graças, no plateau d’Assy (o planalto de Assy fica no sul da França, próximo dos Alpes, ndr), decidiram que não poderia ser ‘arte sacra’ se, antes, não houvesse realmente ‘arte’. Eis porque convidaram os artistas mais famosos daquela época, de variadas origens, entre os quais Matisse, Chagall, Bonnard, Braque, Rouault, Germaine Richier, Jacques Lipchitz, Fernand Léger, Jean Lurçat. E nem todos tinham fé religiosa. Tudo isso para dizer que não se pode entrar no sagrado, se nós, artistas figurativos, não entramos antes na arte. Porque já existe uma abundância de arte feia.

Até demais, inclusive no âmbito eclesial.

Exato! Você sustenta que houve uma renovação da linguagem cristã: é possível que sim, mas não estou convencido. Desejaria que esta linguagem fosse determinada, em prol de todos os não crentes que conheço, pela generosidade dos crentes que saem à procura dos outros; que fosse uma linguagem simples. Porque, já que estamos entre nós, podemos fazer o esforço de entender coisas também difíceis. Mas, para as ovelhas que ficam à espera, que não pertencem ao mesmo redil, e que querem ir à procura do pastor, é preciso uma linguagem, não que as alcancem, mas que as chame. Não é a mesma coisa.

a-ceia

A ceia

Não! Mas pensava, sobretudo, no fato que existem poetas cristãos, autores que escreveram obras literárias cristãs. Há também autores na música: Arvo Pärt e todo o movimento dos países bálticos. Mas não acontece a mesma coisa na pintura.

Eu atribuo isso à queda da fé. Veja: na França é preciso coragem para mostrar uma cruz no pescoço, e eu a coloco habitualmente sobre a camisa para dizer ao meu interlocutor, sem precisar de palavras: ‘Eu creio em Deus!’. É uma coisa que hoje se percebe claramente: tão logo se coloca ouro em uma pintura, tão logo ocorra uma sonoridade musical de certa qualidade, as pessoas fogem rápido: ‘Aquilo é coisa religiosa! Estou fora…’.

A partir da revolução francesa, houve uma espécie de declínio progressivo da fé que provocou, mais entre os pintores do que entre os literatos, uma fuga da religião. É a este fenômeno que eu atribuo a pobreza da arte sacra atual. Mas há coisa ainda pior. Na arte contemporânea muitos artistas dizem que trabalham com a beleza e não com a fé. Ora, se há uma coisa valiosa, e que se sobressai acima de todas as outras, é esta: a necessidade de recuperar a sentido da transcendência da beleza. É de uma importância capital: sem este sentido não há arte.

o-desaparecimento

O desaparecimento

o-retorno

O retorno

As cores são o mais belo presente de Deus. Me submergem em um mundo de perguntas e pedem de mim um grande respeito.

Adaptação. Original publicado na revista italiana Luoghi dell’Infinito. Publicado na Revista Mundo e Missão de outubro de 2017