As CEBs e a luta por moradia

luta por moradia

As CEBs já foram a principal referência na luta por moradia

As Comunidades Eclesiais de Base tiveram atuações relevantes nos anos 80, mas perderam força nas últimas décadas

 

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este ano, o congresso internacional “Medellín: 50 anos depois” homenageou a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, que aconteceu em 1968, trazendo à tona a temática de uma Igreja que faz a opção pelos pobres. A questão, que foi amplamente discutida em 1968, deu origem às Comunidades Eclesiais de Base (CEB) e continua atual. Infelizmente, após 50 anos, as necessidades e propostas parecem ter andado em círculos.

Em um contexto sociopolítico de ditadura militar por toda a América Latina, lutar por moradia era uma reflexão proibida. Foi nesse cenário que Eraclides Reis, diácono salesiano, aprendeu a pensar sobre a posse de terra: “Fui criado em meio aos círculos bíblicos da minha comunidade em Votuporanga, ainda não tinha nem paróquia, tudo era organizado pela CEB. Ali aprendemos a refletir sobre o que era proibido: ter uma casa”. O nascimento das CEBs foi uma resposta ao apelo do Concílio Vaticano II por uma Igreja mais pastoral, voltada aos pobres.

As comunidades ganharam força e nos anos 1980 eram a principal referência de luta por moradia, com apoio do cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo na época.

A ideia era que as CEBs não fossem uma contribuição exclusiva para cristãos, mas uma expressão de vida a serviço da sociedade.

E assim se fez. Nabil Bonduki, arquiteto e redator do Plano Diretor de São Paulo, lembra que seus primeiros estudos sobre moradia e periferia foram feitos em parceria com a CEB: “Com a crise de habitação dos anos 80, a luta por moradia era incentivada fundamentalmente pela Igreja”.

A espiritualidade do movimento remonta aos primeiros cristãos: “Viver em comunidade é essencialmente cristão, estar junto, partilhar as esperanças e as angústias”, explica Eraclides. A ideia de uma vizinhança colaborativa se torna institucionalizada a partir dos moldes da Igreja Católica, que, ao organizar círculos bíblicos nessas comunidades, também avançava com sua evangelização.

Os líderes da luta pela moradia, que eram em sua maioria originários das CEBs, hoje foram substituídos por uma geração que se organiza de formas diferentes. Já não mais migrantes primários, a juventude que hoje se estrutura em coletivos e frentes passou por um processo de educação formal visando a universidade. Em conjunto, Nabil Bonduki afirma que a Igreja Católica, depois do Papa Paulo VI, teve um histórico papável conservador, que lutava contra a Teologia da Libertação. Para Eraclides, todas essas contribuições diminuíram a expressão das Comunidades Eclesiais de Base na luta habitacional, assim como a ascensão econômica de uma parcela da sociedade também colaborou com seu enfraquecimento.

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