As eleições na Rússia e a popularidade de Putin

Vladimir Putin - presidente da Rússia

Vladimir Putin tem governado a Rússia desde a renúncia de Boris Iéltsin, em 1999

As últimas eleições russas deram vitória ao czar Putin com 76,6% dos votos e a bênção do patriarca Kirill. O “efeito Crimeia” e a divisão entre os liberais contribuíram para o resultado

 

A
comparação entre Vladimir Putin e o czar do século XVI, Ivan IV, “o Terrível”, parece acertada, uma vez que, ao assumir o cargo de primeiro-ministro em 1998, o czar contemporâneo aterrorizou os insurgentes chechenos. A ameaça, em russo groza, está na origem do apelido Groznyj, “o terrível”, isto é, capaz de aterrorizar todos os inimigos. Hoje, como nos tempos de Ivan IV, o Ocidente é o verdadeiro e grande “inimigo” da Rússia, mais ainda do que os islamitas, domados na pátria como no exterior (Síria); e a vitória atual de Putin enfatiza a semelhança com o Ivan da Santa Rússia medieval.

De imediato, ficou evidente a grande confirmação do “presidente do povo”, que se apresentou, pela primeira vez, como independente. Putin venceu com 76,6% dos votos (56,2 milhões, dez milhões a mais do que em 2012), frente ao candidato comunista, Pavel Grudinin, com 11% dos votos (Zjuganov, o predecessor, recebera 17%), enquanto o eterno nacionalista Zhirinovskij manteve 6% e, depois, os demais candidatos, entre os quais se destaca a “opositora liberal” Ksenja Sobčak, com 1,7%.

Efeito Crimeia

Putin desfrutou inteligentemente do “efeito Crimeia”, pois estas eleições foram as primeiras depois da reconquista (2014) da península que, até então, pertencia à Ucrânia. Um território simbólico durante toda a história russa: é na Crimeia, de fato, que, no ano 987, foi batizado o príncipe Vladimir, o mesmo que, um ano depois, conduziria o povo russo ao cristianismo, batizando-o nas águas do rio Dniepr, que passa por Kiev.

A Crimeia foi, ao longo dos séculos, colônia grega, genovesa, tártara e turca, sempre reconquistada pelos cossacos russos para reafirmar a vitória da verdadeira fé; Pedro, o Grande, transformou-a em um trampolim do império, e Stalin nela convocou os chefes aliados para definir as esferas de influência dos vencedores da Segunda Guerra Mundial. Hoje, Putin proclama da Crimeia que a Rússia quer de novo pontuar os equilíbrios mundiais.

Na verdade, a vitória deu mais trabalho do que o previsto. A popularidade do presidente, quatro anos atrás, estava acima de 80%, para depois cair progressivamente em decorrência da crise econômica, exacerbada pelas sanções ocidentais que se seguiram à anexação da Crimeia. Prometendo superar todas as dificuldades em plena autocracia, Putin teve que alavancar principalmente o orgulho nacional, jogando em cima do odiado Ocidente toda a culpa dos sacrifícios que os cidadãos russos deviam enfrentar.

Um impulso notável veio também da “guerra de espiões”, após a execução do ex-espião Sergey Skripal e a expulsão mútua de diplomatas entre a Rússia e a Grã-Bretanha. O episódio, um clássico da Guerra Fria, exaltou o groza, isto é, a capacidade de Putin para devolver ao remetente as agressões e punir os traidores, assim como faziam o czar Ivan e o georgiano Stalin, cujos perfis se harmonizam cada vez mais com o líder atual. A popularidade de Putin, de fato, caminha em paralelo com a reabilitação do ditador georgiano. Se grande parte da população perdoou Stalin pelas vítimas dos gulags (campos de concentração russos), perdoará mais ainda a eliminação de espiões que fogem para a Grã-Bretanha.

Trapalhadas dos concorrentes

Apesar de todas essas circunstâncias favoráveis, a campanha presidencial viu um grande empenho da administração estatal e da Igreja ortodoxa em convencer os russos a votarem, atingindo uma afluência de 67% do eleitorado, e ultrapassando os 65% de 2012. Se tivesse diminuído, teria deixado um gosto amargo na boca da triunfal confirmação do atual líder. Há quem lance dúvidas sobre a confiabilidade desses dados, considerando a grande diferença na porcentagem de eleitores entre lugares sem observadores (quase 80%, em média) e lugares assistidos (perto de 50%, em média), mas também este é um dado recorrente nas eleições russas.

Os eleitores mostraram, enfim, que não gostam da substituição do histórico secretário do Partido Comunista por um empresário agrícola, proveniente do partido de Putin; os comunistas são apoiados, em geral, pela parte mais idosa e conservadora da população. Por sua vez, os liberais também ajudaram o triunfo de Putin, ao discordarem com frequência entre eles: nos dias que precederam o pleito, a controvérsia mais prejudicial ocorreu entre Sobčak e o “não candidato” Aleksej Navalnyj, líder da oposição nas ruas, que convidava a população a não votar.

A incapacidade total dos oponentes de Putin para mobilizar os russos leva quase a pensar em uma direção do Kremlin que, em cada eleição, mostra a sua esperteza em criar um cenário de “concorrência democrática”, que na realidade se assemelha cada vez mais à consagração do czar.

A contribuição da Igreja ortodoxa

A guerra na Síria foi a grande “arma de distração de massa”: com a bênção da Igreja ortodoxa, a Rússia recuperou o controle desse território crucial do Oriente Médio, que sempre esteve sob seu protetorado, justificando inclusive a corrida para o rearmamento, utilizando tecnologias mais avançadas e aterrorizantes, agitadas pelo presidente no discurso conclusivo do seu mandato anterior.

O patriarca de Moscou, Kirill (Gundjaev), imediatamente deu sua bênção ao vencedor, resumindo os motivos do triunfo: “Sua vitória convincente nas eleições, nas condições de um processo eleitoral aberto e honesto, com alta participação dos eleitores, testemunha a vontade dos russos para se unir em torno de você; todos aqueles que pertencem a diferentes nacionalidades, religiões e confissões, a diferentes grupos sociais e faixas etárias, e mesmo aqueles que têm diferentes ideias políticas”. Putin IV, agora você é o czar de todas as Rússias.

 

Reportagem publicada na revista Mundo e Missão de maio de 2018 – Ed. 222
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