Bangladesh: padre Almir (PIME) “A Igreja aqui, mesmo na sua pequenez, está fazendo muito para ajudar a população”

padre Almir Azevedo, originário de Maranhão, missionário do PIME no Bangladesh conta a recente situação do país: “Existe muita preocupação, mas existem também muitas outras prioridades que os bengaleses precisam enfrentar cotidianamente, juntamente com a ameaça do coronavírus”

foto arquivo

por padre Almir Azevedo


Caríssimos familiares e amigos, paz e bem! Aqui em Moheshpur, norte do Bangladesh, diocese de Dinajpur está chovendo sem parar há mais de uma semana, alagando plantações de arroz e de milho, dificultando o corte e o recolhimento dos grãos. As pessoas estão cortando o arroz com a água acima dos joelhos, lutando com peixes e o exército de sanguessugas que criam muitas dificuldades aos pobres trabalhadores rurais. Em muitas localidades, onde o terreno é mais baixo, o arroz está apodrecendo ou já apodreceu, por conta da água que continua aumentando dia após dia. Quando encontro as pessoas que voltam das suas roças lá pelas 17h, banhadas, cansadas, e marcadas pelas sanguessugas, com um saco de arroz na cabeça, e com alguns quilos de peixes nas mãos pescados durante o corte do arroz… pergunto-lhes: Como foi o dia de trabalho hoje? Algumas pessoas sorrindo me respondem:

“padre, padre, estou cansado, morto (a)… minha roça de arroz foi alagada por essa chuva fora de época… eu não volto mais na minha roça porque tem muitas sanguessugas que querem sugar todo o meu sangue, que já é pouco. É melhor pescar os peixes que vivem e comem o meu arroz que está todo dentro da água apodrecendo. Isso sem contar que quando volto pra casa, me encontro rodeado das notícias sobre esse tal de coronavírus. Essa peste de vírus está fazendo com que a nossa vida se torne ainda mais sofrida. O que foi que fizemos de mal para merecer tanto sofrimento? Esse tal de vírus, que tem medo de se mostrar, fazendo que vivamos a vida longe uns dos outros… onde tudo isso vai parar? A nossa vida já era sofrida antes, sem coronavírus, imagina agora e daqui pra frente? Nem ir para a escolas os nossos filhos podem. Que droga de mundo, que droga de vida que estamos vivendo… padre, me desculpe, mas a minha situação atual não me permite me expressar em outro modo neste momento…”

Eu, simplesmente escuto aquilo que me dizem e procuro compreender e assimilar o modo como essas pessoas levam pra frente a vida de todos os dias, com tudo aquilo que essa comporta. “Senhor Jesus, fortaleça os desanimados.”

É sempre muito gratificante para mim vindo de outro continente, poder me confrontar com as pessoas locais sobre aquilo que elas pensam e manifestam, em relação à realidade que estamos vivendo neste momento histórico e sofrido para toda a humanidade. Por isso compreendo e aceito as respostas que me deram os meus paroquianos depois de um dia cansativo de trabalho, como avaliação sobre o modo como analisam a situação do momento presente. Compreendo perfeitamente a vida sofrida de um trabalhador rural que planta, mas muitas vezes não colhe; capina a colheita, mas esta não cresce; espera com fé, mas nada recebe. E assim, posso somente confirmar o sofrimento de quem trabalha tanto, mas nas maiorias das vezes não consegue ter o suficiente para sustentar a própria família, gerando-se as vezes desespero, frustração, violência, desânimo e crises. É esta a situação de um bom número dos moradores da paróquia São José, em Moheshpur, onde vivo como missionário. Às vezes, a sensação de impotência, de desânimo, de fraqueza, de desistência… que é presente na vida dos lavradores pobres, se manifesta também na vida do missionário, que mesmo fazendo tanto, quer fazer sempre mais e melhor na tentativa permanente de ajudar as pessoas que serve sempre mais e melhor, como representante de Cristo e da Igreja. “Jesus, amigo e sustento dos pobres, não permita que fiquemos sem o necessário para viver e que não perdamos mais a esperança em ti.”

Aqui no Bangladesh, assim como no Brasil, estamos enfrentando e lutando contra o coronavírus. Aqui o número das pessoas infectadas está aumentando cotidianamente, obrigando assim, o governo federal a tomar medidas que possam tranquilizar e ajudar as pessoas a superarem tal emergência. Tem um clima de medo e de desorientação geral na população. Muitas vezes, ou melhor, nas maiorias dos casos, as pessoas não sabem bem o que fazer. E se perguntam, “o que é preciso fazer para se prevenir e como se recuperar se for infectado? Como seguir as regras, às vezes inconciliáveis com a realidade de fome, porque o estômago não consegue assimilar as regras externas. O estômago quer comida e pronto, o resto que se dane… Onde ser internado se for infectado? porque os hospitais estão se recusando a internarem pessoas com sintomas de Covid-19? Se morrer, irei ser enterrado com ou sem a presença dos meus familiares e amigos?” São essas e muitas outras interrogações que permeiam as mentes dos bengaleses, quando se fala de coronavírus. Existe muita preocupação, mas existem também muitas outras prioridades que os bengaleses precisam enfrentar cotidianamente, juntamente com a ameaça do coronavírus e sua realidade de morte que este representa. “Senhor Jesus, amigos dos doentes, protegei o Bangladesh desta pandemia.”

A igreja aqui no Bangladesh, mesmo na sua pequenez, está fazendo muito para ajudar a população em geral, e principalmente aos fiéis católicos a se prevenirem neste período de crise que o mundo vive. Aqui no Bangladesh, desde o dia 17 de Março que não podemos celebrar a missa com os fiéis. Essa atitude dos bispos do Bangladesh de suspender as missas, foi e continua sendo de grande ajuda para conter o avanço do vírus entre os católicos, e também para conscientizar os fiéis quanto aos riscos reais do novo coronavírus. A “Caritas” do Bangladesh tem desenvolvido um trabalho muito grande e intenso de ajuda às famílias: conscientizando e ajudando economicamente quem mais precisa. Alguns dias atrás a Caritas ajudou 80 famílias da nossa paróquia com uma quantia em dinheiro, pouco, mas de grande ajuda para quem tem tantas necessidades. Com a situação que estamos vivendo, fomos obrigados a fechar as duas casas que acolhem 130 crianças e jovens estudantes desde o dia 18 de março. Isso sem contar que não posso visitar os povoados e seguir os católicos e catecúmenos da missão.

É muito difícil para um padre aceitar essa realidade quando os paroquianos tanto precisam do seu pastor. Não é fácil ficar longe, quando se quer ficar perto; não é fácil não poder acompanhar, quando o certo e necessário seria estar perto de quem mais precisa. “Senhor Jesus, tu que fostes uma presença amiga nos momentos de prova da primeira comunidade cristã, sustenta as fadigas dos missionários e de todo o povo de Deus neste momento de extrema necessidade.”

Nos últimos dias estou recebendo notícias contínuas dos meus parentes e amigos, que me informam da situação deles e querem saber como vai a minha situação. É sempre bom saber que as pessoas se preocupam com você. Através dos sites e dos portais de notícias tento me informar da situação geral do Brasil. Aqui as pessoas me dizem que no Brasil a situação é muito grave. Eu só confirmo aquilo que eles me dizem, porque sei que é uma verdade. Eu procuro manter a calma, mas não é fácil ficar tranquilo sabendo que familiares e amigos foram infectados, morreram ou correm risco de vida. Quando se vive longe dos parentes e amigos, situações como essas nos atormentam tanto. “Senhor Jesus, tu que fostes membro de uma família, proteja os meus familiares e amigos desse maldito vírus.
Com amizade, gratidão e espírito missionário.


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