Bonifácio: o apóstolo da Alemanha

Conheça o missionário que deixou a sua cidade, na Grã-Bretanha, para anunciar o Evangelho aos povos do continente europeu

M
arço de 744. Do alto de uma colina que domina o vale de Fulda, no coração ainda inacessível do território alemão, Bonifácio observa em silêncio os homens que, a golpes de machado, abrem uma brecha no denso bosque. O frio é congelante. O vento impetuoso surra seu rosto e penetra através de suas roupas pesadas, mas o velho sacerdote não parece perceber. Diante de seus olhos se realiza um dos maiores sonhos de sua vida.

Roberto-Ruggerone

Sturmi, seu discípulo, lhe havia descrito perfeitamente o local e a paisagem ao redor, mas aquilo que Bonifácio contempla neste momento vai além de toda sua imaginação. O desejo de uma vida, a realização das fadigas passadas, uma nova base de partida para o futuro… Tudo isso está tomando forma ali diante de seus olhos, no ritmo cadenciado dos machados que, com discrição e firmeza, pedem espaço à imponente floresta de faias e abetos que, até agora, ninguém jamais havia ousado adentrar.

Bonifácio franze a testa, pensa no passado e cai de joelhos, como se o peso de uma vida inteira, gasta com pregações, viagens, conversas e encontros desabassem sobre si. Repensa sua partida da cidade de Exeter, ao sul da Grã-Bretanha, que deixou há mais de 30 anos. Lembra ainda as palavras de seu mestre, o velho abade de Exeter, Winbrecht, depois de falar a ele sobre a sua intenção de partir para anunciar o Evangelho aos povos do continente: “Winfrid, não vá” – lhe havia dito. “Sua missão pode ser desenvolvida aqui, onde é conhecido e respeitado. Eu mesmo projetei para você coisas grandes.”

Mas depois, diante da decisão do jovem, o sábio Winbrecht não mais se opôs. Sabia que desde sempre, desde que havia escolhido a vida religiosa, entrando muito jovem na abadia de Exeter, o sonho do jovem Winfrid era de pregar o Evangelho às tribos saxônicas que habitavam para além do mar, no continente europeu.

Então o deixou partir. Era o ano de 716 e com outros quatro companheiros de viagem, depois de ter atravessado Londres, Winfrid embarcou rumo à Frísia, nas costas germânicas opostas à ilha britânica.

Winfrid, o anglo-saxão

Os golpes de machado são sentidos cada vez mais, as vozes dos homens guiam os trabalhadores que arrastam e empilham os troncos já caídos. O velho no topo da colina, ainda imóvel e de joelhos, deixa-se transportar sempre mais pelos pensamentos.

Winfrid… A quanto tempo ninguém o chama assim? É seu antigo nome, aquele que seus pais haviam escolhido para ele e que tanto lhe recorda suas origens saxônicas.

A este pensamento, porém, Bonifácio franze a testa e seu olhar preocupado se volta rapidamente ao vale abaixo do território que se estende ao norte, para além do bosque. É lá o reino dos Saxões, gente orgulhosa e indomável, habituada a combater, a impor-se com as armas e a violência sobre os habitantes de outras terras.

Séculos antes, uma grande massa daquela gente havia desembarcado nas costas da Grã-Bretanha para conquistar os territórios para além dos mares. Se estabeleceram depois de terem submetido os habitantes locais em diversas batalhas, e deram origem à civilização anglo-saxônica, da qual descendia a família de Winfrid.

Essa ligação com seus antepassados saxões, que Winfrid havia desde sempre sentido muito forte e que desejava fortalecer, era o impulso para levar às tribos remanescentes do continente a fé em Cristo, que sua família havia conhecido.

Era isto que o tinha motivado a pedir, com tanta insistência aos seus superiores da abadia de Exeter, a permissão de partir em missão às terras germânicas, permissão que o abade Winbrecht lhe havia concedido, somente depois de tê-lo enviado a Roma para receber a aprovação e a guia espiritual do papa.

Em Roma, Winfrid e seus companheiros chegaram no inverno de 718. Recebeu-os o papa Gregório II, que não hesitou em confiar oficialmente ao jovem monge anglo-saxão a missão de converter a população pagã. Naquela ocasião, o papa havia mudado o nome de Winfrid para Bonifácio, antigo mártir romano.

No silêncio do vale

Muitos anos se passaram desde o primeiro contato com o pontífice. Bonifácio trabalhou muito pela sua missão: converteu as populações de Assia, de Turinga, da Baviera, as terras que se estendem a leste e ao sul do rio Reno. Reformou o clero corrupto dos francos e participou de diversos concílios. O papa consagrou-o bispo e depois arcebispo da Alemanha, e o recomendou ao poderoso rei dos Francos, Carlos Martello, de modo que seu serviço apostólico fosse protegido e respeitado.

Agora, graças ao empenho do fiel Sturmi, diante de seus olhos está tomando forma outro de seus mais ambiciosos projetos: a construção da abadia de Fulda, que acolherá, educará e sustentará na fé os monges daquelas terras. Um lugar de paz, onde ele mesmo poderá se retirar para orar e meditar na velhice…

Ainda assim, há um pesar no coração de Bonifácio, um pensamento fixo que o deixa amargurado até mesmo neste momento de alegria. Os Saxões, a primeira motivação de sua viagem missionária, ainda não foram convertidos: o território permanece fechado, quase impossível de percorrer por conta da ferocidade de seus habitantes. Bonifácio sente que é ali que sua obra deve ser levada adiante.

“Pare, Bonifácio – lhe repetem Sturmi e os outros discípulos – repousa neste lugar que está nascendo por seu desejo, sustenta com seus ensinamentos tantos jovens entusiastas prontos a seguir seu exemplo… Pare!”.

São passadas horas desde que o velho monge se retirou em oração sobre a colina. Os homens no vale pararam de trabalhar porque a sombra da noite começou a se espalhar ao redor. Até mesmo o vento se calou, a névoa envolveu e ofuscou os arredores das árvores…

“Pare, Bonifácio”. Parece quase um eco que ressoa no profundo silêncio do vale. Mas, Bonifácio não pode parar. Amanhã partirá novamente. Sua missão ainda não terminou: outras estradas, outros homens o esperam.

O MOSTEIRO DE FULDA

Foi desejado e construído por São Bonifácio e tornouse um importante centro de cultura e instrução para toda a Alemanha. A catedral hospeda ainda hoje os restos mortais do santo, morto com mais de oitenta anos, no dia 5 de junho de 755, sob golpes de uma quadrilha de pagãos de Frísia, enfurecidos por causa de suas pregações.

Publicado no Jornal Missão Jovem de Março de 2018

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