A casa sem… jacaré

P
ara nós, padres, que viemos de fora, da Europa, os primeiros tempos de vida aqui no Amazonas são sempre cheios de fatos curiosos e até engraçados. São eles que tanto alegram nossa vida.

Veja o que me aconteceu em uma das primeiras viagens pelo interior. Era o mês de maio, cheia grande, tempo de chuva. Cheguei à comunidade do Marinheiro, da paróquia de Barreirinha, na várzea do Paraná do Limão, diocese de Parintins. Capela bem elevada, em madeira com assoalho novo; tudo limpo. Por isso, na escada para a capela o povo deixava fora os chinelos cheios de lama.

Noite bonita, novena, confissões e até um cineminha para a criançada. No fim, um merecido descanso. Fui convidado para pernoitar na casa do presidente da comunidade. Casa de madeira, telhado de palha. Antes que eu atasse a rede, a dona da casa me preveniu: “Padre, como o senhor vê, aqui não temos o jacaré. Se chover, o senhor tem que se preparar”. Eu, novato no Amazonas e na língua portuguesa, conhecia só o perigoso bicho de água. Pensei: ‘Estou seguro. Aqui, nenhum jacaré vai atrapalhar o meu sono’.

Depois de meia noite, quando o sono tinha tomado conta de todo mundo, lá veio um pé de chuva (“Chuva grande”, diz o caboclo). Acordei como se estivesse debaixo de um chuveiro. Passei a noite amarrando a rede pelos quatros cantos da sala, conforme a mudança e a direção do vento e da chuva. Entre uma trovoada e o barulho da chuva, ouvia a voz da dona de casa, no outro quarto com o marido e os filhos. Ela repetia para o marido: “Pois é! Não temos jacaré em casa. Precisamos mesmo colocar um”. Naquela altura, eu já tinha entendido que o tal jacaré era a cobertura de palha (tipo esteira) da cumeeira do telhado.

A chuva parou lá pela madrugada e o céu se abriu. Apareceram estrelas e um lindo luar, que eu podia contemplar ao vivo pela abertura da cumeeira por falta do tal jacaré. Mal e mal peguei no sono. De manhã fui acordado pelo barulho que toda dona de casa do interior faz quando mistura o açúcar no café do bule. A batida da colher na parede do bule parece o chamado do sino na capela: te tec, te tec, te tec. Depois, silêncio. É o momento em que a cozinheira experimenta na mão se o café está doce ou não. Depois, mais te tec, te tec, te tec. Outro silêncio e assim por três vezes. Dali a pouco, o convite de um menino: “Bom dia padre, tem um cafezinho pronto para espantar o frio da noite”. Respondi. “Bom dia, garoto. Será que hoje vão amarrar o jacaré em cima do telhado?”. “É padre, papai já está preparando o jacaré”. Olhei pela janela e vi o dono da casa tecendo talas de palha branca em forma de esteira. Parecia uma pele de jacaré.

Reflexão

 

A tradição indígena utiliza palha na construção de telhados | (Foto: William Miliken/Survival International)

A nossa oração e o nosso pensamento de hoje vão para todas as pessoas que sofrem o problema da moradia; pelos que não somente não têm o jacaré da casa, mas sofrem pela falta de um teto para morar.

Como cristãos, devemos compartilhar a nossa vida, porque necessitamos uns dos outros: vamos ouvir a palavra de São Paulo: É a reflexão de hoje.

Alegrai-vos com os que se alegram, chorai com os que choram. Tende a mesma estima uns pelos outros, sem pretensão de grandeza, mas sentindo-vos solidários com os mais humildes; não deis ares de sábios” (Rm 12,15-16).

 

 

Publicado no jornal Missão Jovem de dezembro de 2017

 

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