Cirilo e Metódio: os apóstolos dos eslavos

Além de estudiosos, os irmãos missionários possuíam uma fé enorme. Foram convocados para ajudar os povos eslavos, recém-convertidos ao Evangelho.

Constantinopla, ano 862.
Um mensageiro do imperador Miguel chegou. Disse que estamos sendo aguardados na corte para uma questão importante”. A porta se abre lentamente, girando sobre suas dobradiças enferrujadas, e a voz suave e pacata de Metódio ecoa, com discrição e humilde respeito, no silêncio e na serenidade da sala. Em outro ângulo, a luz fraca de uma vela ilumina um grande livro que Cirilo, o filósofo, tem a intenção de ler e meditar…

E
stá sentado à sua mesa de estudos há várias horas, mas Cirilo parece não se dar conta. Levanta a cabeça e olha a figura alta e robusta de seu irmão Metódio, que caminha a passos lentos em sua direção. Um convite à corte de Miguel III, o poderoso imperador de Bizâncio… O pensamento de Cirilo volta anos atrás quando, com apenas 15 anos, chegou na esplêndida cidade de Constantinopla, para ser educado junto ao pequeno Miguel, destinado a se tornar o chefe do Sacro Império Romano do Oriente.

Uma grande honra concedida ao jovem Cirilo, 7º e último filho do nobre Leão de Tessalônica (ou Salônica), na Grécia. Quase 20 anos se passaram desde sua chegada à corte. Cirilo é agora um filósofo conhecido e estimado. Leciona na escola imperial, onde ele mesmo estudou. Mas, a honra, a pompa e a glória não eram para ele. Com tristeza teve que renunciar à vida silenciosa e reservada do mosteiro sobre o monte Olimpo em Bitínia (na atual Turquia), onde tinha se refugiado com seu irmão mais velho, Metódio, para receber os hábitos monásticos.

A inteligência e a cultura, mas principalmente a fé profunda, fizeram dos dois irmãos personagens muito cobiçados na corte para serem deixados àquela vida de oração e reflexão que tanto desejavam. Com pouco mais de 40 anos, Cirilo era 12 anos mais novo que o seu irmão Metódio, ex-governador e administrador de uma região oriental do império. Juntos, os irmãos já haviam cumprido diversas missões entre povos estrangeiros: foram enviados pelo imperador a reforçar contatos diplomáticos e anunciar a fé cristã.

Nestes dias retornaram de sua missão entre os cazares (também chamados cázaros ou khazari), um poderoso povo turco-tártaro que habitava terras vizinhas. Uma missão terminada com sucesso, pois o sábio Cirilo, depois de uma longa conversa com o khan, o chefe cázaro, convenceu-o a permitir que se tornassem cristãos os súditos que assim o desejassem.

Mas, mesmo com a feliz aventura, a saúde fragilizada do jovem filósofo sente as fadigas da longa viagem. Coberto pelo pesado hábito escuro e com as costas ainda inclinadas sobre a mesa de estudos, interroga com o olhar seu irmão Metódio: quais serão os projetos do Imperador desta vez? Em direção a quais terras seremos destinados? Metódio inclina a cabeça, em uma atitude de disponibilidade. Sim, ele também está convencido de que Miguel III já tem em mente uma nova missão para eles. Mas não diz nada, deixa que seu irmão decida: qualquer coisa que ele quiser fazer, estará pronto a segui-lo. Mesmo sendo mais velho do que Cirilo, Metódio sempre nutriu um sentimento de profundo respeito por aquele irmão tão jovem e sábio. E mesmo ele, o brilhante homem do mundo, hábil administrador imperial, tinha surpreendido a todos, um dia, com a decisão de abandonar para sempre seu cargo na corte e renunciar as perspectivas de uma longa carreira para se dedicar inteiramente à oração, no silêncio do mosteiro.

Sob as ordens do imperador

Já é noite, mas a grande sala de reuniões do palácio imperial está bem iluminada por conta da luz difusa dos enormes candelabros, pendurados no teto e nas tochas das paredes. Os conselheiros falam em voz baixa entre eles, à espera de que o imperador Miguel, sentado no trono, comunique o motivo da reunião repentina. Cirilo e Metódio, que o imperador chamou para perto, permanecem em silêncio, com a cabeça inclinada.

“Rostislav, príncipe da Grande Morávia (região da Europa Central que constitui atualmente a parte oriental da República Checa), enviou-nos uma delegação”. A voz do imperador ecoa potente na sala e imediatamente se faz silêncio entre os conselheiros. “O povo morávio deixou o paganismo para abraçar a fé cristã, mas não têm ninguém que seja capaz de explicar-lhes a nova religião na língua deles, o eslavo. O príncipe pede então que enviemos a eles um bispo e um mestre, de modo tal que fortaleça as pessoas na fé e faça com que outros povos, vendo o exemplo dos moravos, se convertam.”

Assim fala Miguel à assembleia. Depois se volta para Cirilo: “Sei que estás cansado, filósofo, que ainda não descansastes da última missão, mas é urgente que tu assumas esta outra. E tu, Metódio, o acompanharás. Vocês nasceram em Tessalônica e conhecem bem a língua eslava: ninguém, além de vocês, pode cumprir esta missão”.

“Tu criarás o alfabeto”

Cirilo levanta o olhar e responde: “Sim, estou cansado, meu senhor, mas respeitarei a tua vontade e irei àquele país. Levarei comigo os livros sagrados para fazê-los conhecer a Palavra de Cristo. Dizem, porém, que os moravios não possuem uma língua escrita…”

“Não, filósofo. Os eslavos daquelas terras não possuem um alfabeto. Mas isto não deve parar tua missão”, explica o imperador, que fixa o olhar em Cirilo. O tom de sua voz se faz mais duro. “Em outras ocasiões já deu prova de seus dons e de suas capacidades de aprender e decifar línguas desconhecidas. Se quiser, sei que é capaz de inventar uma escrita para aquela língua. Tudo isso com a ajuda de Deus, que dá àqueles que pedem com confiança e abre a porta àqueles que batem.”

Enquanto voltam para casa, os dois irmãos se calam. Oram silenciosamente, pensando no difícil trabalho que os espera: compilar um alfabeto e traduzir para o eslavo os mais importantes livros litúrgicos. Levará tempo, muito tempo. Finalmente, um dia, no verão de 863, depois de uma longa viagem para além das terras do império, Cirilo, Metódio e outros enviados do imperador de Constantinopla cumprimentam finalmente Rostslav, grande príncipe de Morávia: a Missão entre os eslavos se inicia.

BIOGRAFIA

Algum tempo depois, completado um frutífero trabalho apostólico entre os eslavos de Morávia, Cirilo e Metódio foram à Roma para obter do papa Adriano II a aprovação de suas obras. Graças ao alfabeto de 38 letras por eles inventado (que é a base da atual escrita cirílica russa), traduziram para o eslavo os textos sagrados usados na liturgia. Mas, por causa desta iniciativa, foram acusados de heresia, visto que, até aquele momento, ninguém jamais havia utilizado na liturgia uma língua diferente do latim, do grego ou do siríaco. Foi necessário um esclarecimento junto ao pontífice, que acolheu solenemente os dois missionários e concedeu-lhes a aprovação solicitada. Durante a permanência em Roma, Cirilo ficou doente e morreu no dia 14 de fevereiro de 869. Após o ocorrido, Metódio foi enviado pessolmente pelo papa à Morávia e levou adiante a obra de evangelização, até a sua morte em 885.

Publicado no Jornal Missão Jovem de Abril de 2018

Adicionar Comentário

Seu endereço de e-mail está seguro conosco. Campos obrigatórios são marcados com *

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP