Claudia Andujar: a fotógrafa dos Yanomami

Claudia Andujar

Foto: William Gomes-Revista Trip

Aos 87 anos, uma ousada fotógrafa e incansável ativista pelos direitos dos nativos dá lições de coragem e de amor ao próximo e ao meio ambiente

 

O
termo Yanomami vem de yanõmami thëpë (seres humanos), que os distingue de yaro (animais de caça), yai (espíritos) e napë (brancos, inimigos, alheios). Como acontece a todo povo nativo, esses também têm seus direitos cerceados, uma ironia triste. Mas, tem quem se importa com essa gente e luta por suas causas. Uma dessas pessoas é Claudia Andujar, considerada pelos Yanomami como uma “mãe”.

Claudia nasceu em 1931, em Neuchâtel, na Suíça, e cresceu em Oradea, na fronteira com a Romênia e a Hungria. Sua cidade natal havia sido ocupada pelos nazistas e seu pai, judeu, fora aprisionado e morto em um campo de extermínio. Claudia e sua mãe fugiram para a Áustria, depois para a Suíça e, enfim, para os Estados Unidos, onde ela deu início a estudos humanistas. Em 1956, transferiu-se para o Brasil, onde iniciou uma importante carreira fotográfica.

Para realizar um serviço especial sobre a Amazônia, in loco, Claudia sabia que teria uma longa estrada pela frente, mas não imaginava que esse caminho iria transformar sua vida de modo tão significativo.

Foi orientada, por conta das questões políticas da época, a não focar seu trabalho na questão indígena, mas acabou abrindo suas lentes para a problemática à sua frente: a construção da Perimetral Norte, onde um povo indígena perderia suas terras ancestrais. Foram quatro meses na região e, na bagagem de volta, a fotógrafa trouxe imagens inéditas da tribo Aharaibus, nunca vista antes. “Quando a equipe de Redação viu as imagens, seus membros ficaram encantados e decidiram fazer a matéria de capa. As respostas àquelas imagens superaram as expectativas dos profissionais e dos leitores. As fotos eram realmente belas”. Depois daquele trabalho, Claudia abandonou o fotojornalismo e deu início a um novo caminho.

A paixão de Claudia

Foi aí que a fotógrafa conheceu os Yanomami e decidiu colocar-se ao lado deles, na luta por seus direitos. Claudia sempre fez firme defesa da conservação dessa etnia, que vivia um momento crítico: comunidades inteiras eram dizimadas e suas terras, invadidas e destruídas. Por meio de fotografias registradas na década de 1970, ela denunciava ao mundo tais atrocidades. Seu respeito, amor e admiração pela etnia crescia.

Enquanto se aprofundava na cultura e na história desse povo, tornava-se sua testemunha e porta-voz. Ela, que havia sobrevivido ao extermínio de seu povo, colaborava para que esse grupo sobrevivesse através de sua delicada lente.

Para isso, foi morar com os Yanomami em 1971 e com eles permaneceu até 1978, quando foi expulsa por razões políticas. No entanto, isso não a retirou do caminho. Intensificou campanhas pela demarcação de terras e; desse esforço, resultou, em 1992, a criação do Parque Yanomami, em defesa dos direitos territoriais, culturais e civis desses nativos.

Em 1978, estava entre os fundadores (foi diretora até 2000 e teve um papel fundamental) da Comissão Pró-Yanomami, originalmente denominada Comissão pela Criação do Parque Yanomami. O reconhecimento da Terra Indígena Yanomami chegou em 1991, e foi homologada e registrada no ano seguinte, garantindo, assim, o direito constitucional de usufruto exclusivo das terras ancestrais, localizadas entre os estados de Roraima e Amazonas.

Incansável

Hoje, sem câmera fotográfica nas mãos, Claudia continua a alertar todo mundo para o direito dos Yanomami à terra e à conservação da sua identidade, num espaço em que os seus territórios voltam a ser alvo de garimpeiros, mineradores e agricultores ávidos de alargar atividades comerciais.

Em 2000, a ativista foi premiada pela Lannan Foundation, de Santa Fé (Texas, Estados Unidos), com o Prêmio Lannan para a Liberdade Cultural, como “artista, testemunha e advogada dos direitos humanos”.

Claudia recebeu, no dia 28 de agosto de 2018, em Weimar, na Alemanha, a medalha Goethe-2018, concedida pelo governo alemão. A ativista estava acompanhada por Davi Kopenawa, líder Yanomami reconhecido nacional e internacionalmente.

Foto: Claudia Andujar

Foto: Claudia Andujar

O prêmio é, segundo o Instituto Goethe, a condecoração mais alta daquele país europeu. Ele reconhece o trabalho da fotógrafa com os nativos da Amazônia brasileira, ao longo das últimas décadas, não só como artista, mas pela sua atuação efetiva para garantir a sobrevivência desses povos.

Mas o reconhecimento mais importante para Claudia Andujar é continuar o trabalho e ter a possibilidade de divulgá-lo sempre mais. “Sempre tive um relacionamento forte com as pessoas que fotografei. Meu envolvimento principal foi o de conseguir entender o outro. Assim, também a gente aprende a se conhecer e a crescer. Para mim, esse é o único jeito e a razão de fotografar”.

SAIBA MAIS
Uma exposição gratuita no Instituto Moreira Salles (IMS), em São Paulo, reúne até o dia 7 de abril deste ano mais de 300 fotos de Claudia Andujar sobre os yanomami (clique aqui e confira mais detalhes sobre a mostra). Além disso, os trabalhos de Claudia também podem ser vistos pessoalmente no Instituto Inhotim, o maior centro de arte ao ar livre da América Latina, localizado na cidade de Brumadinho, a 60 quilômetros de Belo Horizonte. Desde 2015 o local abriga uma galeria com um acervo permanente da fotógrafa.
No vídeo a seguir, o curador da exposição na capital paulista, Thyago Nogueira, conversa com o líder e ativista Davi Kopenawa Yanomami e dá mais detalhes sobre o que os visitantes poderão encontrar sobre o trabalho desenvolvido por Claudia Andujar.

 

 

 

 

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