Fundamentalismo: como explicar as “guerras em nome de Deus”?

(Foto: Warren Wong/Unsplash)

As religiões, embora carreguem tradições e dogmas distintos, têm algo em comum: aproximar o humano do sagrado. O fundamentalismo religioso, por outro lado, exclui essa possibilidade e abre espaço para falta de diálogo, intolerância e violência

 

E
screvo este texto ainda sob o impacto de dois recentes acontecimentos que o leitor, ao lê-lo, certamente deles se lembrarão: o primeiro aconteceu no dia 24 de novembro de 2017, no Egito (cidade de Arish): 305 mortos. O ataque foi a uma mesquita de sufistas, muçulmanos que pregam a paz e usam a dança e a música para se aproximar de Alá, ou seja, de Deus. O segundo diz respeito à visita do Papa Francisco a Mianmar, antiga Birmânia, nos dias 28 a 30 de novembro, com a missão de promover a paz numa região de maioria budista, que vem sendo acusada de promover uma “limpeza étnica” ao reprimir a minoria muçulmana rohingya, que vive na região oeste do país.

Quais as causas de tamanha violência, agressão, guerras e mortes? Questões políticas, econômicas e culturais certamente fazem parte das explicações. Mas há, entre elas, uma explicação que se sobrepõe às demais: questões religiosas. E aqui nos perguntamos:

Mas não é justamente na religião que as pessoas procuram abrigo, buscam a paz, constroem comunidades fraternas e nelas encontram um código de conduta ética universal capaz de orientar todos a viverem uma vida justa e pacífica? Como explicar e, mais ainda, entender que se façam guerras em nome da religião e de Deus?

Fundamentalismo religioso

Esse paradoxo pode ser explicado a partir do fundamentalismo religioso, conceito geralmente associado a ideias sectárias e inflexíveis sobre determinado tema, sobretudo relacionadas à religião. Em sentido amplo, aplica-se o termo à economia e à política (fundamentalismo político, fundamentalismo econômico), mas foi no campo da religião que tal conceito assumiu sua significação mais restrita e usual e é a essa área que ele é comumente associado.

A expressão “fundamentalismo” foi formalmente definida e aplicada pela primeira vez nos Estados Unidos (1920) pelo pastor americano Curtis Lee Laws, da Igreja Batista. Reagindo ao movimento liberal protestante que se abria ao mundo da cultura e da ciência naquela época (inclusive propondo um diálogo com a teoria da evolução de Darwin), Laws convocou seus seguidores a conservarem seus dogmas e a se aterem fielmente ao que estava escrito nas Sagradas Escrituras. Neste contexto, o fundamentalismo era eminentemente de natureza doutrinal e exegética.

A princípio, não há nenhum problema no movimento que procura rever e resgatar os fundamentos de uma determinada religião. Todas elas são baseadas em estruturas sólidas, leis reveladas, livros sagrados e prescrições éticas que as identificam e as tornam essenciais para os seres humanos. O problema aparece em duas situações: a leitura radical dos fundamentos religiosos, sem a devida adaptação e interpretação aos tempos e lugares, e a apropriação do discurso e da experiência religiosa para justificar e fundamentar o universo da política e para legitimar um determinado Estado ou ideologia. A primeira situação impede o diálogo inter-religioso à medida que a defesa de uma determinada religião exclui a possibilidade da outra. A segunda, além de não aceitar outra alternativa, lança mão do poder, da violência e das armas para eliminar os divergentes.

Na minha visão, estas são as principais causas e explicações para a existência de guerras, terrorismo e mortes em nome da religião e de Deus. E nenhuma religião, por mais antiga e grande que seja, esteve ou está isenta disso.

Grupos extremistas

Entre os exemplos da mistura de religião, política e ideologia citamos o caso do grupo terrorista IRA, na Irlanda, composto por paramilitares católicos que propunham uma agenda política para separar do Reino Unido a Irlanda do Norte. Em seu discurso convergia temas políticos associados a temas da doutrina católica.

Outro exemplo é o da Klux Klux Klan, que associava questões raciais e eugenistas com as doutrinas do protestantismo puritano nos Estados Unidos. Finalmente, citemos o Wahhabismo islâmico, que deu origem à Irmandade Muçulmana, no Oriente Médio, berço de muitos terroristas, entre eles Osama Bin Laden.

No Conselho Mundial das Religiões, realizado em Chicago, em 1993, chegou-se ao consenso que as religiões têm muito mais pontos em comum do que divergências, e que mesmo estas são decorrentes de fatores culturais, temporais e históricos, sendo, portanto, necessário que sejam vistas com relatividade.

A experiência da transcendência e do transcendente, a certeza que a vida é um dom e não se esgota no limite da nossa materialidade, o valor e dignidade do ser humano, o sentido da vida, a necessidade de cuidarmos do planeta como casa comum e a busca de uma vida fraterna são alguns dos temas derivados dessa confluência.

A religião (com seus templos, ritos, signos, rituais, linguagens, textos sagrados) é fonte de amor, de fraternidade e paz. As guerras são feitas por outros motivos, muitos deles endeusados: poder, ambição, egocentrismo, etnocentrismo, fundamentalismos.

 

Publicado no jornal Transcender de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 44

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