Como lidar de forma construtiva com o pluralismo cultural nas escolas?

pluralismo

Diferentes abordagens apontam como o pluralismo cultural presente na sociedade pode ser trabalhado de maneira construtiva pelos educadores

 

N
este terceiro milênio, a educação como um todo encontra-se perante desafios criados pelo novo contexto social, político e cultural. As profundas inovações tecnológicas da comunicação, mescladas às rápidas mudanças estruturais e à globalização, incidem cada vez mais sobre a vida e o comportamento humano. Dessa forma, fomos arremessados a uma crise de valores profundamente marcada pelo individualismo, o subjetivismo, o hiperconsumismo e o relativismo.

Assim, o pluralismo presente na sociedade dá origem a diferentes comportamentos. Surge, portanto, a necessidade de a escola ser um local que permita aos jovens valorizar e fortalecer essa diversidade, considerada um “patrimônio da humanidade” pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

É importante que os educadores estejam atentos às diversas formas de abordagem ao pluralismo cultural e, por conseguinte, aos seus resultados, que são totalmente diferentes e podem favorecer ou limitar o desenvolvimento e a convivência pacífica na escola.

A seguir, aponto três abordagens:

 

A primeira é a RELATIVISTA, que se fundamenta sobre o valor da tolerância, limitando-se a aceitar o outro, mas sem interação que vise uma recíproca transformação. Essa visão respeita as diferenças culturais, mas, ao mesmo tempo, separa-as em seu próprio mundo, impedindo a possibilidade de um diálogo mútuo e construtivo. É uma abordagem passiva, não se preocupa com as necessidades do outro, com seus sofrimentos e menos ainda com seus anseios.

Já a abordagem ASSIMILACIONISTA se estrutura no princípio etnocêntrico; isto é, da necessidade de que todos se integrem à sociedade e se incorporem à cultura hegemônica. Encontra-se nos países de grandes fluxos migratórios, onde se aceita a presença do estrangeiro com a condição de que renuncie à própria identidade, às suas raízes culturais, para abraçar as do país acolhedor. O perigo dessa abordagem é o “achatamento” cultural das minorias.

A abordagem ideal, portanto, é a INTERCULTURAL, pois se baseia numa visão dinâmica da cultura e procura evitar o fechamento e a manifestação da diversidade em representações estereotipadas. Ela facilita o confronto dialógico, a recíproca transformação, além de favorecer a convivência e a superação de eventuais conflitos. Enfim, é um novo caminho – uma abordagem do futuro – que tem como objetivo a integração das culturas e seu recíproco reconhecimento.

Multiculturalidade

 

Perante tal realidade, o projeto pedagógico das escolas deve incluir essa preocupação como itinerário educativo. A primeira etapa consiste em “descobrir” a multiculturalidade presente na escola, reconhecendo esse pluralismo como riqueza e não como ameaça. Em seguida, desenvolver um projeto que vise superar os preconceitos culturais, étnicos, raciais, religiosos e de gênero, por meio da convivência e do trabalho comunitário. Por fim, é necessário despertar a consciência para uma cidadania planetária, feita de responsabilidades locais e globais. Isso porque as consequências de cada ação pessoal e de grupo se estendem até os confins: todo agir pessoal tem repercussão mundial.

Conforme os Parâmetros Curriculares Nacionais, com uma parte especificamente sobre pluralismo cultural, o Ministério da Educação descreve que uma proposta curricular voltada para a cidadania deve preocupar-se necessariamente com as diversidades existentes na sociedade, uma das bases concretas em que se praticam os preceitos éticos.

Diz o documento: “É a ética que norteia e exige de todos — da escola e dos educadores em particular —, propostas e iniciativas que visem à superação do preconceito e da discriminação. A contribuição da escola na construção da democracia é a de promover os princípios éticos de liberdade, dignidade, respeito mútuo, justiça e equidade, solidariedade, diálogo no cotidiano; é a de encontrar formas de cumprir o princípio constitucional de igualdade, o que exige sensibilidade para a questão da diversidade cultural e ações decididas em relação aos problemas gerados pela injustiça social”.

Atento a esse cenário, e trilhando o caminho da interculturalidade, o sujeito se abre ao outro, aos seus sofrimentos e anseios, saindo de si para se tornar disponível a um diálogo construtivo. De fato, será a partir do verdadeiro encontro com o outro, ou melhor, com os outros, que criaremos as condições de um novo futuro para a humanidade.

 

Reflexão publicada no encarte pedagógico do jornal Transcender – edição nº 47

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