Como reverter os retrocessos ambientais?

A mais recente Conferência do Clima das Nações Unidas colocou em cheque o que os países estão fazendo para barrar o aquecimento global e exigiu uma postura mais eficiente de seus representantes

 

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iscutir como minimizar os efeitos das mudanças climáticas, bem como propor medidas para que, no futuro, suas consequências não sejam ainda mais desoladoras. Falando de maneira mais ampla, é sempre com esse objetivo que representantes de diversos países se reúnem anualmente para a Conferência do Clima das Nações Unidas.

A mais recente, COP 23, ocorreu em Bonn, na Alemanha, no final de 2017, e buscou avançar na construção do livro de regras para tirar do papel o Acordo de Paris – pacto mundial concluído em 2015 para limitar o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais e garantir esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C.

Concluído em 2015, o acordo prevê que cada país reduza suas emissões de gases de efeito estufa para fazer sua parte frente ao aquecimento global. A meta do Brasil é considerada uma das mais ambiciosas e propõe a redução de 37% das emissões até 2025, com indicativo de cortar 43% até 2030. O problema, no entanto, é que, além dos países estarem longe da meta, até hoje não está muito claro como chegar até lá. Outro desafio é estabelecer como será a fiscalização das emissões, visto que é necessário cumprir à risca os limites propostos. Essas regras precisam ser definidas até o final deste ano, durante a próxima COP, que acontecerá na Polônia. Na ocasião, entrarão em discussão alguns pontos-chave, como transparência e avaliação das metas de cada país dentro do Acordo de Paris.

Estratégias incoerentes

Para Márcio Astrini, coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil, as negociações ainda estão muito aquém do necessário para enfrentar o desafio climático. “O Brasil, por exemplo, é muito importante para as negociações, mas nossas atuais políticas internas, que ameaçam as florestas e seus povos e dão grandes subsídios para energias poluentes, são tudo que o mundo não precisa neste momento. Assim, saímos desta conferência como o país do ‘faça o que eu digo, mas não o que eu faço’. Há algum tempo deixamos de ser um bom exemplo na questão climática e agora caminhamos para o lado negativo da história”, declarou em nota divulgada à imprensa.

A visão pessimista de Astrini está relacionada a uma série de propostas do governo federal que, a longo prazo, podem piorar a situação do aquecimento global. Uma delas é a Medida Provisória (MP 795/2017) que visa reduzir os tributos das empresas envolvidas nas atividades de exploração, desenvolvimento e produção de petróleo, fonte de energia que colabora substancialmente para
aumentar a emissão de gases de efeito estufa.

Outro ponto preocupante no território brasileiro é o avanço acelerado do desmatamento. Em apenas 16 anos, o Brasil perdeu aproximadamente 190 mil km² de florestas, o equivalente a quatro vezes o estado do Rio de Janeiro. Segundo dados da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento na região cresceu 57,7% no período entre 2015 e 2016. Ao todo, o bioma perdeu mais de 29 mil hectares, o equivalente a mais de 29 mil campos de futebol. De acordo com ambientalistas, retrocessos como esses acabam por deixar a população em alerta: o que esperar do futuro?

Nem tudo está perdido

Durante a COP 23, a Alemanha e o Reino Unido prometeram um investimento de 153 milhões de dólares para expandir programas de combate às mudanças climáticas e o desmatamento na floresta amazônica. Aproximadamente 88 milhões de dólares irão para um programa que faz pagamentos a povos indígenas e a agricultores em troca da manutenção da cobertura vegetal e que também fornece financiamento para projetos de desenvolvimento econômico sustentável.

Além da atenção dada às florestas, muitos grupos na COP 23 trabalharam arduamente para persuadir os países de que os oceanos devem ser tratados de forma prioritária nos esforços globais de combate às mudanças climáticas. Isso porque eles são verdadeiros “heróis” do clima: absorvem cerca de 30% das emissões de dióxido de carbono, poderoso gás de efeito estufa, funcionando como um regulador climático.

Outra surpresa resultante da COP 23 é que, mesmo com o anúncio feito por Donald Trump de que os Estados Unidos vão se retirar do Acordo de Paris (o prazo para que isso aconteça de maneira oficial é 2020), surgiu um movimento chamado “We Still In”, composto por políticos, prefeitos, governadores, empresários e também por representantes da sociedade civil. Com uma bancada durante a conferência, eles fizeram questão de dizer que, independentemente do presidente norte-americano, eles continuam no acordo.

SAIBA MAIS

Confira no vídeo a seguir o que alguns especialistas dizem a respeito das mudanças climáticas, especialmente sobre o retrocesso no território brasileiro:

 

Publicado no jornal Transcender de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. nº 44

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