Como vive uma das últimas sociedades matriarcais

Em Kihnu, na Estônia, as mulheres se tornaram guardiãs das tradições culturais

A chamada “Ilha das Mulheres” é um lugar onde o tempo parece não ter passado: lá sobrevive uma das últimas sociedades matriarcais do mundo, onde as gestões social e administrativa são femininas

 

K
ihnu é uma ilha do mar Báltico, com área de 16,4 km². É a maior ilha do golfo de Riga e a sétima maior da Estônia. A ilha foi mencionada pela primeira vez em 1386 e, em 1518, passou a ser considerada um local inóspito à ocupação humana. Mas, evidências históricas indicam que pescadores visitaram a ilha há mais de 3.000 anos.

Kihnu tem sido uma ilha de marinheiros, pescadores e caçadores de focas desde a antiguidade. Ao longo dos anos, os homens de Kihnu passaram a maior parte do tempo no mar, deixando suas mulheres responsáveis pelos assuntos da ilha. Como resultado, as mulheres tornaram-se guardiãs das tradições culturais (artesanato, danças, jogos e música) e do dialeto, que é exclusivo da região, desde o início do século 18.

Entre as casas em tom pastel, elas estão diariamente com suas saias populares (“kört”, no dialeto local), tecidas em cores alegres e compridas até abaixo dos joelhos. As senhoras idosas mantêm sempre um lenço na cabeça, como antigamente.

A chamada “Ilha das Mulheres” é um lugar onde o tempo parece não ter passado. Aí sobrevive uma das últimas sociedades matriarcais do mundo, onde as gestões social e administrativa são femininas. Assim, enquanto os homens passam a maior parte do tempo no mar – a pesca é a maior fonte de renda da ilha –, as mulheres cuidam dos filhos e da família, trabalham nos campos e enfrentam todas as questões de governança.

Defensoras do patrimônio cultural

A líder da comunidade insular é Mare Mätas, que é também a presidente da Kihnu Cultural Space Foundation (Fundação Espaço Cultural Kihnu).

“Os homens estão sempre longe da ilha e esta é a razão histórica pela qual nós, as mulheres, com o tempo, nos tornamos fortes e independentes. O nosso objetivo é o de conservar as nossas tradições e o patrimônio Kihnu”, diz Mare.

Ao anoitecer, quando a rotina cotidiana já foi concluída, as mulheres se reúnem e partilham momentos de dança e canções populares que foram transmitidas pelos antepassados.
As tradições mais antigas permanecem inalteradas e incluem cerimônias relacionadas ao casamento, além de rituais que são mantidos nas festas e em feriados importantes no calendário popular. Assim como os demais estonianos são o grupo humano menos religioso de toda a Europa, também os habitantes de Kihnu são pouco afeitos a práticas religiosas. Entretanto, a maioria se considera de tradição cristã.

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O emblema mais visível da cultura Kihnu é o artesanato em lã mantido pelas mulheres da comunidade. Trabalhando em teares tradicionais e lã local, elas tecem e tricotam luvas, meias, saias, blusas em cores e listras vívidas, além de confeccionarem bordados intrincados. Muitas formas e cores simbólicas que adornam essas roupas se atêm a raízes lendárias. “Preocupa-nos o fato de que nossa cultura possa desaparecer”, diz Mare Mätas. Mas talvez isso nunca aconteça, pois a cultura Kihnu foi incluída na lista do patrimônio imaterial da Unesco em 2003.

O artesanato em lã é o emblema mais visível da cultura Kihnu

Patrimônios imbricados

O espaço Kihnu também se distingue pela interação de seu rico patrimônio cultural e natural. A paisagem característica das pastagens, das areias costeiras e dos pinheirais pontiagudos permanece relativamente intacta. O isolamento geográfico, o forte senso de espírito comunitário e o firme apego aos costumes dos antepassados permitiram ao povo Kihnu preservar sua rica herança cultural.

A ameaça permanente

Infelizmente, devido à carência de recursos próprios, muitos jovens da ilha a abandonam para estudar, procurar trabalho ou viver fora. Durante o verão, os turistas dão certo ânimo ao lugar, mas, no longo período invernal, a comunidade se reduz a poucos idosos. Consequentemente, as regras que governam as vidas dos habitantes estão mudando, se bem que eles teimam em seguir a sabedoria transmitida pelos ancestrais, apesar da intrusão de turistas, insensíveis às tradições e ao ambiente natural da ilha.

Um passeio dançante

Assista ao vídeo a seguir e “viaje” pela cultura das mulheres de Kihnu:

 

Publicado na revista Mundo e Missão de abril de 2018 – Ed. 221
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