Consequências devastadoras em nome do progresso

Massacrados, silenciados, subjulgados, explorados e mortos… Até quando os povos  indígenas irão aguentar?

 

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ovos que têm suas vidas e culturas ligadas ancestralmente às terras de nascimento. Sim, estamos falando dos povos indígenas, povos originários, autóctones… Já foram numerosas, grandes e bem sucedidas nações, espalhadas por todo o planeta, mas foram exterminadas, dizimadas, exploradas. No ano de 2010, eram cerca de 370 milhões de pessoas no total, ou 5% da população mundial, e sobrevivem em mais de 70 países.

“Éramos um povo livre, rodeado de abundância. Hoje dependemos da ajuda do governo”, afirma um líder Guarani-Kaiowá.

Em nome do progresso
Muita gente acredita que o desenvolvimento e o progresso tornam todos felizes, mas deveria ser considerado um crime impor aos povos nativos esta ‘felicidade’ que, como no passado, trouxe e traz consequências devastadoras a tais grupos. E, “em nome da conservação do meio ambiente e pela defesa da natureza”, os povos originários passaram a ser expulsos de suas terras ancestrais. “Defesa da natureza”, um critério absurdamente falso.

Hoje, os nativos são acusados de ‘predadores’ por caçarem para alimentar suas famílias. Ora, as indústrias da ‘conservação’, o turismo desenfreado e as grandes empresas de agronegócio é que estão destruindo as terras indígenas e as vidas dos povos que nelas tentam habitar em paz.

“Quando vivíamos em nossas terras, nenhum hadzabe jamais morreu de fome. Mas agora que tomaram grande parte, muitos de nós sofrem com a fome”, lamenta um hadzabe idoso da Tanzânia.

Os verdadeiros protetores da natureza
São expulsos de suas terras ancestrais, subjulgados e massacrados e, mesmo assim, continuam a proteger as terras de onde retiram sustento e onde respeitam “seus espíritos”. Estas terras, que perfazem aproximadamente 200 áreas diferentes onde a concentração da biodiversidade é ainda alta, correspondem a 80% de toda biodiversidade terrestre.

Muito antes que o termo “conservação ambiental” fosse cunhado, os povos nativos já haviam desenvolvido medidas eficazes para preservar a riqueza de seus ambientes. Ainda hoje usam sofisticados códigos de conservação para evitar excessos na caça, na pesca e na coleta de frutos, mantendo a biodiversidade viva e em constante transformação.

“Quando vemos a floresta, pensamos: esta é nossa floresta. Mas agora o governo e os exploradores dizem que ela não é nossa”, disse Lambombo, um nativo da etnia baka, dos Camarões.

Direitos ignorados
Em 2017, a Declaração da Organização das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas completou 10 anos. Este marco relembra a importância dos povos na formação e riqueza das sociedades e, com elas, as ameaças que eles sofrem. O artigo 10 da Declaração diz que nenhum povo indígena será removido à força de suas terras. Este direito ainda hoje é ignorado em diferentes partes do mundo.

Os bosquímanos que foram expulsos da região do Kalahari Central, na África, “em nome da conservação”, sabem muito bem qual é o modo melhor para proteger seu ambiente e os animais na região em que habitam.

“Se vierem à nossa área, irão encontrar animais e isto mostra que sabemos tomar conta deles. (…) Nós não somos separados de nosso ambiente; estamos dentro dele e ele vive dentro de nós”, argumentou um bosquímano.

No Brasil, muitos massacres de indígenas continuam acontecendo e, no passado não muito distante, já era longa a lista de matanças de indígenas que tentavam sobreviver isolados na Amazônia. Em 1993, 16 nativos do grupo haximu foram massacrados por garimpeiros. Esta tragédia permanece em aberto pela justiça. Em 2014, os indígenas sapanawa fizeram contato e relataram que sua comunidade havia sido atacada e dizimada. E, neste ano de 2017, no Vale do Javari, garimpeiros massacraram mais de dez indígenas membros de uma tribo isolada.

O Conselho Indigenista Missionário (CIMI) sempre levanta a voz para denunciar massacres que a “grande imprensa” teima em menosprezar, e que, consequentemente, não chegam ao conhecimento dos “civilizados”.

De acordo com Stephen Corry, diretor da Survival International, a decisão do governo brasileiro de cortar o orçamento das equipes que protegem os territórios indígenas isolados não foi um lapso inocente. “Foi feito para satisfazer os interesses daqueles que querem abrir as terras indígenas para explorar – mineração, madeiras e agropecuária. (…) Somente uma mobilização global pode igualar as chances em favor dos indígenas, e prevenir mais atrocidades”, disse.

 

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