Consumo compartilhado amplia o senso de comunidade

Consumo compartilhado

Possibilidade de comprar algo usado, ou até mesmo emprestá-lo, permite uma conveniência muito interessante: a proximidade entre as pessoas e o senso de comunidade

Com o Planeta Terra pedindo arrego, uma nova consciência de consumo nasce no mundo moderno. A pedida agora é a troca de produtos e serviços, num relacionamento onde o que prevalece são a empatia, o senso de comunidade e o cuidado com o planeta

 

O
atual modelo de economia já não é mais capaz de oferecer uma opção viável para a saúde do planeta. Por esse motivo, a sociedade precisa pensar constantemente em novas opções de negócios capazes de inovar, focando a sustentabilidade, da produção ao consumo. É chegada uma nova era de reflexão: o que é necessário X o que é desejado. Além desse ponto, não se pode descartar a valorização do ser humano, algo que, mesmo que ainda pouco, já está acontecendo.

O desafio maior é fortalecer o senso crítico dos consumidores, educando-os sobre o futuro do planeta e as limitações que possam surgir por causa do consumo desenfreado. Nunca as grandes corporações ganharam tanto dinheiro explorando os recursos do meio ambiente – naturais e humanos – como hoje. Dentro desse cenário, algumas alternativas surgem como tentativas de discutir e, principalmente, reverter a atual situação.

Consumo compartilhado
Nos últimos anos o Brasil viu o nascimento de diversas iniciativas de compartilhamento, troca, empréstimos de produtos e até mesmo de espaços físicos. São opções muito interessantes do ponto de vista da economia financeira individual, já que a pessoa não precisa investir dinheiro em um bem durável novo. Com a possibilidade de comprar algo usado, ou até mesmo emprestá-lo, surge uma conveniência muito interessante: a proximidade entre as pessoas e o senso de comunidade. Um bom primeiro passo para estimular uma “atitude verde” e começar a resgatar os valores humanos.

Uma das iniciativas que ganhou fama no país é o Projeto Na Gaveta. Segundo o site do projeto, o propósito fundamental é difundir um conceito clothing swap (troca de roupas) e criar uma rede onde os participantes pudessem trocar, entre si, roupas que não usam mais. “Com o passar do tempo, percebemos a necessidade de um espaço maior para incentivar uma moda mais humana, real e sustentável e decidimos ampliar a ideia: o que era apenas um projeto tornou-se, então, um movimento”, afirma Giovanna Nader, uma das suas organizadoras. O objetivo é a conscientização das pessoas e o apoio à moda como reflexo de uma expressão individual. O foco é estimular a diversidade de estilos, a originalidade, espontaneidade e autenticidade.

Outra iniciativa, criada em 2014, também promove a proximidade entre as pessoas por meio do compartilhamento. É o site “Tem Açúcar?“, que tem a proposta de fazer com que pessoas da vizinhança compartilhem seus produtos. A plataforma pode ser utilizada para requisitar empréstimo ou doação de itens diversos, tais como: ingredientes, roupas, utensílios domésticos e até mesmo pedidos não materiais, como orientações e auxílios. “O nome ‘Tem Açúcar?’ surgiu porque eu queria mostrar que esse tipo de coisa não é algo novo, é algo que sempre fizemos. Quem nunca pediu algo emprestado? Além de tudo, é uma forma de conhecer um vizinho que antes era desconhecido”, explica Camila Carvalho, criadora da plataforma, ao jornal O Globo.

De acordo com o Fórum Novas Fronteiras, esse comportamento é ainda mais comum em classes sociais mais baixas, em que as pessoas dividem a utilização de um cartão de crédito, internet wi-fi e, até mesmo, compram produtos de alimentação e limpeza no atacado para que o custo unitário seja menor e os tornem acessíveis.

Um exemplo que inspira
A partir de uma crise financeira em 2008, a capixaba Regina Oliveira decidiu produzir sabão utilizando óleo de cozinha usado. A experiência começou com a distribuição do produto para amigos e vizinhos, mas depois de algum tempo, devido à qualidade do sabão produzido, a nova empreendedora passou a receber encomendas. “Eu coleto resíduos na rua, armazeno e reciclo o óleo e reaproveito na produção do sabão”, diz Regina Oliveira.

A partir daí, nasceu o Sabão Lelê. Apesar de ter sido uma iniciativa própria, a produção do sabão não teria sucesso sem auxílio dos moradores do bairro. Diversos vizinhos armazenam o óleo de cozinha usado e entregam à Regina para que ela produza mais sabão. Além disso, o produto também é utilizado como moeda de troca por outros serviços em sua comunidade. O Lelê é concebido a partir de uma consciência ecológica e sustentável.

Para que iniciativas como essas deem certo, é necessária a participação da sociedade. A credibilidade e reputação do ser humano passa a ser fator decisivo para o sucesso do negócio. E aqui retomamos os valores essenciais para um relacionamento, para uma troca, para uma transação acontecer, que vai além de marca, preço e status, mas que é baseada na confiança.

Ao nos colocarmos no lugar do próximo e trabalhar a empatia, o senso de comunidade fica mais forte, pois percebemos que dependemos das pessoas e que podemos ganhar muito na troca, uma opção que impulsiona a criatividade para modelos de negócios alternativos.

 

 

Pedir emprestado, trocar e consertar: métodos para economizar

(Fonte: Agência Deutsche Welle)


Trocar
Livros, brinquedos, utensílios de cozinha e até mesmo roupas para ocasiões especiais podem ser trocadas entre conhecidos e/ou por meio de sites ou grupos de trocas em redes sociais.
O mesmo vale para serviços. Ao invés de pagar em dinheiro, você pode trocar por outro serviço – como aulas particulares, reparos domésticos, passeios com animais de estimação, fotografias profissionais, manicure etc.

Pedir emprestado
Precisou de uma furadeira? Ao invés de comprar, por que não pedir emprestado para um vizinho, amigo ou colega de trabalho? O mesmo vale para itens como livros, DVDs, roupas para ocasiões especiais, utensílios domésticos, etc.
A regra vale para qualquer item necessário esporadicamente. Do contrário, comprará algo que usará apenas uma vez – sintoma de dinheiro mal utilizado.

Comprar em grupo
Você e outras pessoas estão interessadas em um mesmo produto? Considerem comprar juntos, assim a despesa é dividida e o uso é compartilhado. Além da economia, isso estimula a interação social.

Consertar
Muitas vezes, reformar ou consertar algo sai mais barato do que comprar um novo. Além disso, a atitude contribui com o meio ambiente, reduzindo a produção de lixo.
Procure aprender coisas novas, como fazer pequenos reparos, costurar um pouco e até mesmo redecorar ambientes com dicas da internet, o famoso “faça você mesmo”.
Experimentar coisas novas
Pense em alternativas para seus gastos cotidianos. Por exemplo: fazer um passeio no parque, praça ou praia tende a ser mais barato do que ir ao shopping – e provavelmente mais gratificante e saudável também. O mesmo vale para gastos no mercado. É válido experimentar o mesmo produto de marcas diferentes, buscando sempre o melhor custo x benefício.

Ter uma reserva para imprevistos
Compras de última hora, não previstas no orçamento, podem levar ao endividamento. Portanto, tenha sempre uma reserva financeira estratégica. Ela será valiosa caso precise, com urgência, repor algo quebrado em casa.

Publicado no Jornal Transcender de outubro/novembro de 2017 – Ed. 43

PARA SABER MAIS SOBRE CONSUMO COMPARTILHADO

O assunto foi tema de uma das palestras do TED Talks, série de conferências realizadas em diversos países com foco na disseminação de ideias inovadoras. Confira o que Rachel Botsman disse a respeito durante evento em Sydney, na Austrália (áudio em inglês, mas com opção de legenda em português):

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