Corrida contra o tempo

O presidente do Banco Mundial lança um apelo com a finalidade de se evitar a insegurança,
a violência, os conflitos e os consequentes deslocamentos massivos das populações

Presidente do Banco Mundial

 

“É ilusão pensar em resolver a emergência das migrações apenas nos locais de desembarque ou em alto mar, e tratar o terrorismo apenas como um problema de segurança. A solução está no desenvolvimento dos países de origem dos migrantes, que não podem mais ser financiados com empréstimos ou pela caridade, mas é preciso atrair capital privado para investir de maneira rentável”, declarou o presidente do Banco Mundial Jim Yong Kim em entrevista ao jornal italiano ‘La Stampa’.

Que impressão lhe causou sua recente visita ao ‘Centro de Acolhida de Cara’, em Bari (região da Apúlia, na Itália)?

“Muito positiva. O Centro é administrado por pessoas sérias, preparadas. Vi que os pacientes são muito bem tratados. Os italianos fazem um trabalho extraordinário junto aos migrantes. Oferecem um tratamento humano em condições extremamente difíceis. (…) Se não nos esforçarmos seriamente para criar trabalho nos países de origem dos migrantes, esta será somente a ponta do iceberg”.

A Itália geralmente se sente sozinha. A Europa deveria fazer mais?

A Itália acolhe muitos migrantes devido à sua geografia. Ela faz um grande serviço à União Europeia (UE) e ao mundo. Mas todos os países que assinaram os Acordos da ONU sobre a migração deveriam fazer mais. A solução não é enfrentar o problema quando os barcos aportam, mas é intervir de modo contundente nos países de origem dos migrantes. Estes deveriam ficar em suas casas e lá ter um futuro. Os migrantes com quem conversei confessaram que fugiram para dar um futuro aos filhos. Não foram escolhas irrefletidas, mas levadas pelo desespero.

A Itália iniciou projetos também nos países de origem…

Correto! Não há dúvidas que é urgente acelerar o desenvolvimento nos países de origem, e é muito encorajador que o G7 e o G20 tenham aceitado nossa proposta, que visa favorecer o trabalho conjunto de todas as instituições dedicadas ao desenvolvimento, para despertar mais interesses e financiamentos do setor privado.

O que se pode fazer?

A maior oportunidade que temos está nos enormes capitais truncados pela recente crise econômica, que lucram pouco ou nada. Há 8,5 trilhões de dólares investidos em títulos negativados, emitidos pelo Banco Central Europeu e pelo Banco Central Japonês; 24,5 trilhões em títulos estatais que rendem 1% ou até menos; oito trilhões em contas inertes. Devemos trabalhar nos programas de risco de países como a Líbia ou a Nigéria, utilizar esse capital como investimento no desenvolvimento rentável.

Pode dar um exemplo?

A Suécia ofereceu-nos 60 milhões de dólares em garantia. Em base a esta oferta criamos um fundo de desenvolvimento passível de cobrir a parte inicial de perdas eventuais. O montante se tornou um veículo de investimentos privados que, pela primeira vez na história conseguiu atrair grandes companhias de seguro. Em outras palavras, somos capazes de oferecer oportunidades de investimento que dão retorno de 5% ou 6%, em dez ou quinze anos, para financiar o desenvolvimento através de capital privado. É uma corrida desesperada para criar trabalho e para dar aos jovens um sentido de esperança no futuro de seus países.

O senhor citou a Líbia: o que pode fazer o banco para ajudá-la?

O primeiro desafio é obviamente conseguir a estabilidade do governo. Depois, é necessário mudar a política para tornar a Líbia um ambiente mais favorável a negócios. E isto se estende a todo o Oriente Médio, onde o setor privado ainda é visto de modo suspeito, devido à corrupção que ele traz consigo. Isto vale também em partes da África. Mas a China e o Vietnã, os dois maiores países comunistas do mundo, demonstraram, por exemplo, que não se sai da pobreza, não se cria trabalho e não se cresce sem envolver de modo sério o mercado global e o setor privado.

O senhor denunciou que aproximadamente dois bilhões de pessoas vivem em países frágeis, abalados por terrorismo, violência e conflitos. Como enfrentar o tema da insegurança, pois é ela que favorece as migrações?

Alguns países entenderam que devem aumentar os recursos para segurança, mas é ilusório pensar que isto baste para ir contra o extremismo, o terrorismo, a violência e os conflitos. Se a economia não cresce e não cria trabalho, a fragilidade aumenta. De onde virá o trabalho? Do capital humano. É preciso atrair capital privado, investir na instrução já nos primeiros anos de vida e usar a tecnologia de maneira inovadora para criar empregos. É uma tarefa extremamente urgente. É uma luta contra o tempo. Se quisermos evitar que os países de baixa renda desemboquem na estrada do extremismo, da violência e, infelizmente da migração em massa, devemos mudar urgentemente o modo como financiamos o desenvolvimento.

Como proceder para o empoderamento feminino?

De duas maneiras. A primeira é fazer chegar o capital às mulheres; a segunda é oferecer-lhes formação e consultoria, afim de que consigam utilizar os recursos da melhor forma. Muitos casos práticos demonstram que quando se colocam juntos estes elementos, os resultados são extraordinários. Porém, é necessário também trabalhar o lado político, pois existem países onde as mulheres ainda não podem herdar a terra, ter conta bancária ou decidir o que fazer de seu dinheiro sem o consentimento do marido.

A administração Trump começa a aderir ao Acordo de Paris sobre mudanças climáticas…
O que dizer sobre isso?

É a coisa certa a ser feita, tanto para a preservação do planeta, quanto para gerar renda. Hoje, nos Estados Unidos há mais postos de trabalho nas fronteiras renováveis que no carvão. Com a melhoria no armazenamento de energia limpa, logo ela poderá ser utilizada pelas indústrias. É preciso impor um custo sobre as emissões de gases, para que as indústrias se preparem para o futuro. A competição para fornecer a melhor energia a baixo custo e baixo impacto ambiental há de se tornar um fenômeno estratégico global.

instrução infantil

Investir na instrução infantil é uma luta contra o tempo.

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