Costanzo Donegana 1940-2017

“O missionário é uma criatura feita para tornar felizes os infelizes.
Que eles sejam ou não gratos, pouco me importa: se eles estão bem, eu também estou”.

padre Costanzo Donegana

C
om a citação de Clemente Vismara (1897-1988), missionário do Pime em Mianmar, Costanzo Donegana concluiu o livro “Pime – traços de uma bela história”. A expressão, porém, cabe perfeitamente na sua biografia. Sem tirar, nem por.

Natural da província lombarda de Como, Costanzo foi ordenado missionário do Pime em março de 1964. Diplomou-se em História da Igreja pela Universidade Gregoriana, em Roma. Lecionou em Monza e Milão. Depois, frequentou cursos de etnologia e antropologia no Institute Catholique, de Paris, em vista da destinação à República dos Camarões (1979). Problemas de saúde fizeram-no retornar à Itália, após um breve período na missão camaronesa de Ambam.

Restabelecido, desembarcou no Brasil. Apaixonou-se pela teologia latino-americana nascida em Medellin e, em consequência, da vida sofrida dos migrantes nordestinos em São Paulo. Ao mesmo tempo, ajudava a alavancar a revista Mundo e Missão, na qual, por longos anos escreveu sobre o carisma missionário. Com maestria deixou inúmeros testemunhos sobre a África e a América Latina em Mondo e Missione, da Itália. Próximo do Movimento dos Focolares, Donegana registrou sua esperança na unidade através das páginas de Cidade Nova.

A grande capacidade de comunicação, o constante bom humor, a enorme aptidão em estabelecer relações de amizade com todos, especialmente com os empobrecidos, além do entusiasmo pelas missões, sobressaiam em sua personalidade.

Dentre seus livros destacam-se Eucaristia é Missão; O que tu queres, Pai; o já citado Pime – traços de uma bela história; Um Deus na contramão.

Deste, eu destaco: “Se Deus não estivesse na contramão, não seria mais Deus; seria como os deuses do Olimpo grego e romano, que tinham todos os defeitos e vícios dos homens, … como o deus que abençoa guerras ou deve nos dar a graça que exigimos, ou ainda é obrigado a nos escutar por horas a fio, sem conseguir encontrar uma fresta para dar seu parecer. O Deus de Jesus é livre e pensa com a própria cabeça. Graças a Deus… Cuidado, que podemos encontrá-lo na contramão do nosso caminho”. Escrevia sempre com este estilo elegante, claro e convincente.

Donegana viveu os últimos anos na Itália. Em Roma, levou à frente o Departamento Histórico do Instituto, onde publicou muitos artigos e reeditou a biografia de dom Angelo Ramazzotti, o fundador do Pime (1850).

Em seguida, após breve período de animação missionária em Mascalucia, na Sicília, a saúde abalada levou-o à casa de repouso do Pime, no norte da Itália. Faleceu no hospital de Lecco na noite do dia 8 de julho último.

Separei dois depoimentos entre os tantos sobre ele:

Pedro Facci

Para os amigos, padre Costanzo Donegana é simplesmente “Costanzo”. Conheci-o quando eu era seminarista; ele, professor de História da Igreja, amante dos Padres da Igreja, apaixonado pela fraternidade universal, através de um diálogo de 360 graus e entrelaçado de relações com as pessoas. Ele me fascinava. Nos domingos, nós, os seminaristas, íamos ao seu escritório no Centro Missionário de Milão simplesmente para escutá-lo. Dentro dele, um louco desejo de deixar as paredes do local onde escrevia para Mondo e Missione, e partir para a América Latina, que amava com paixão. O sonho se realizou em 1992 quando desembarcou no Brasil e, com os padres Arosio e Garuti, abriu o Centro de Animação e Atividade Missionária em São Paulo, e a nova revista Mundo e Missão, à qual se dedicou até 2008. Não se prendia à escrivaninha. Logo que podia, saia para a favela, onde vivia a teologia da libertação, que o fascinava e sobre a qual escrevia. Amava os pobres concretamente. Com eles construiu um centro social e a ele se dedicava. Queria viver com os pobres. Uma vida “burguesa” deixava-o em crise.
O seu calhambeque identificava-o com todos os que lutam para sobreviver. A sua luta, porém, não era uma opção social em si mesma, mas evangélica. Quantas vezes o vi, no coração da noite, recolhido na capela, em silêncio diante da Eucaristia, após tê-la contemplado, durante o dia, entre os desprezíveis. Também isto me fascinava nele.
Jamais vou esquecer o adeus ao seu Brasil. No aeroporto de São Paulo eram somente os pobres que o acompanharam. Causava certa impressão ver este grupo de pessoas no elegante átrio do aeroporto, sem se importar com os olhares atônitos dos passageiros. Costanzo tinha lágrimas nos olhos, parecia absorto em outro mundo. Soou a última chamada. Precisei acordá-lo do seu mundo e dizer-lhe: “Costanzo, você precisa entrar, o avião parte”. Creio que este tenha sido um dos momentos mais penosos de sua vida.
Uma prova que se repetiu neste último ano, através de uma depressão que o levou a se identificar ainda mais com aquela gente que vive na noite escura da não consciência, do não entender mais nada, do mutismo, do silêncio de Deus.
Escritor convincente, havia publicado um livreto, o último, chamado: “Deus na contramão”. Uma profecia. Foi mesmo colocado na contramão, e humildemente disse o seu sim. A purificação. Também isto é ser missionário, tecelão incansável da unidade, à qual pagou com a própria vida.

Michele Zanzucchi

Donegana, um amante da vida. Não conformista. Livre na consciência. Demasiado sensível para ficar em repouso. Apaixonado pela justiça. Cristão. Por muitos anos morou em São Paulo, no “seu” Brasil; em meio às favelas, aos marginalizados, para resgatar a vida esquecida e menosprezada social e economicamente. Exímio jornalista. Em seus textos mostrava a dura realidade dos mais necessitados. Era voz para os que não tinham vez, alertando para os grandes sofrimentos sociais e econômicos em que milhões de pessoas estão imersas e, apesar de tudo isso, valorizava a vida, as vidas de tantos que sofrem.

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