Crianças evangelizam crianças

A fé e o amor dos pequenos no mutirão de fé e esperança em dias melhores

Por Pe. Gianfranco Vianello, PIME


Em um mundo de alta concentração tecnológica, os meios de comunicação se destacam como gigantes, certos e destemidos (como o Golias bíblico), para, em proveito próprio, sensibilizar, padronizar e estimular desejos e necessidades ou expectativas das pessoas. Entretanto, nesse universo, pequenas iniciativas podem nascer (como o jovem Davi) e, com absoluta simplicidade, produzir espaços e relações que o Senhor usa para dar alegria e dignidade onde menos se espera.

Um pequeno grupo de crianças (cerca de dez), nascido recentemente sob os auspícios da Infância Missionária na paróquia de Nossa Senhora dos Anjos, diocese de Santo Amaro (periferia sul da capital paulista), visitou o Assentamento José Anchieta, onde residem cerca de 5 mil pessoas, incluindo mil crianças, para partilhar bons momentos de alegria.

Caminhos inesperados

Não foi iniciativa improvisada, nem fruto do acaso. A Providência havia preparado o caminho em 2016, quando o pároco de Nossa Senhora dos Anjos, padre Daniel, esteve no local por necessidade pastoral e aproveitou para visitar uma família. Maravilhadas ficaram as pessoas ao receber o primeiro padre católico naquele lugar. “Um padre aqui!”, exclamou uma garota de 17 anos. E acrescentou: “Nunca vi isso antes!” Uma xícara de café foi logo oferecida ao visitante. Assim, o padre, sentado na única cadeira da casa, recebeu as primeiras boas-vindas. Era 14 de setembro, festa da Exaltação da Cruz. Estranha e misteriosa coincidência, porque aquele cafezinho abriria espaço para um interessante caminho de recíprocas acolhidas.

De fato, na paróquia, alguns adultos arregaçaram as mangas. Particularmente a senhora Débora, nossa dedicada e fiel colaboradora. não menos honrada do que as mulheres que, nas primeiras comunidades cristãs, ofereceram sua fé traduzida em um amor ativo e também sofrido. O amor de Débora se tornou a pedra fundamental para as relações com a comunidade e os líderes da associação que congrega as famílias daquele assentamento.

Hoje, a presença de alguns seminaristas do Verbo Encarnado e das Irmãs, juntamente com um pequeno grupo de jovens de nossa paróquia, garante uma presença delicada e útil àquelas pessoas. Uma iniciativa muito significativa foi o mutirão para construir uma pequena capela ao lado de um galpão, um local de caráter social utilizado pelos assentados.

Evangelho em rosto infantil

O mais recente sinal, o mais belo e agradável, foi precisamente o “batismo da missão” feito por crianças da paróquia que, durante uma manhã inteira partilharam momentos de alegria e conhecimento com seus “irmãos e irmãs” assentadas.

Foi assim: cada uma delas recebeu a pequena mochila das Pontifícias Obras Missionárias recheada de pequenos jogos e doces, brincadeiras, orações e conhecimento. Ajudadas por algumas meninas e acompanhadas por Cida, a chefe do grupo e artesã criadora da animação missionária das crianças, elas rumaram para o Assentamento José de Anchieta, abrindo um espaço de luz e felicidade em nome do Senhor e da amizade inocente e gratuita.

Chegando ao local, as visitantes nos encontraram na quadra da comunidade, perto da capela, ainda em construção, tendo apenas pequenos muros laterais e o telhado. Juntos, iniciamos a jornada com uma oração na capela. Foi uma surpresa ouvir delas a expressão: “Fiquemos em silêncio porque é a Casa de Deus!”  O grupinho da paróquia, recebido com muito calor e amizade pelas crianças da comunidade, percebeu nesses sinais o começo de uma integração, por simples gestos e palavras, fruto da presença iniciada anteriormente. É que, em visita anterior, uma criança havia pedido ao acompanhante um sorvete. Ele respondeu que o traria na semana seguinte, se a pequena pedinte não esquecesse de rezar. Nessa ocasião, foi-lhe entregue o sorvete prometido; e logo veio a resposta: ”Rezei a semana inteira por isso!”

Também surpreendeu a resposta de uma criança do assentamento ao grupinho da Infância Missionária:

“Eu também gostaria de fazer parte do vosso grupo!”. Veja, amigo leitor, como a semente desce ao coração, movimenta sentimentos e desejos e “dará, a seu tempo, frutos abundantes”.

Da semente aos frutos

É bom, então, ver o florescimento da vida cristã que nasce em algumas pessoas e famílias: o desejo do Batismo, da Eucaristia, do Matrimônio religioso: pequenos sinais que o Espírito, à sua maneira, vai semeando.

Nosso bispo, dom José Negri, também ele do PIME, nos encorajou a prosseguir com essa iniciativa que começou do nada, no sinal de um anúncio do Evangelho, graças a um sorriso, uma disponibilidade, uma ajuda. A missão sempre começa assim.

 A paróquia Nossa Senhora dos Anjos é o berço onde a Virgem olha para nós com particular amor e interesse, faz as coisas …. do outro mundo acontecerem pela alegria e serenidade de vida das pessoas que nunca tinham sido encontradas, nem imaginadas no censo da paróquia (o Assentamento não pertence à jurisdição dessa paróquia, mas está próxima dela).

Assim, os padres do PIME tiveram a graça de iniciar uma “nova” evangelização, “fora dos muros” paroquiais, mas conduzida pela fé e pelo amor dos pequenos, que procuram viver o Evangelho na ajuda espiritual e material de seus irmãos da mesma idade.

Artigo publicado na Revista Mundo e Missão, Ediçaõ 235 – setembro – 2019 na secção Horizontes, página 36-37 (Gostou da matéria? Assine a revista)

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