Crise na Nicarágua: governo expulsa missão da ONU

Manifestantes tem sofrido perseguição do governo mesmo em protestos pacíficos

Manifestantes têm sofrido perseguição do governo mesmo em protestos pacíficos | Foto: Diana Ulloa

Retirada aconteceu depois da publicação de um relatório no qual o governo de Daniel Ortega é apontado como principal responsável por abusos de direitos humanos |

 

L
ogo após a Agência do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNDUH) ter publicado um relatório sobre a violação dos direitos humanos na Nicarágua, o governo do país determinou que o trabalho da agência estava concluído e, que, portanto, deveria ir embora.

A missão ONU chegou ao país em junho para enfrentar a crise sócio-política que eclodiu em abril. Na quarta-feira, divulgou um relatório denunciando o “alto grau de repressão” do Estado em protestos contra o governo nos quais registrou “mais de 300 mortos e 2 mil feridos”. Conforme o documento, o Estado nicaraguense é responsável por graves violações aos direitos humanos. A agência acusa o governo do presidente Daniel Ortega de uso desproporcional da força pela polícia, o que provocou execuções extrajudiciais, desaparecimentos forçados, e obstrução de acesso a cuidados médicos, entre outras violações aos direitos humanos. O governo também é responsabilizado por “detenções arbitrárias ou ilegais de caráter generalizado, frequentes maus tratos e casos de tortura e violência sexual nas prisões, violações à liberdade de reuniões pacíficas e manifestações”.

“A repressão e a retaliação contra os manifestantes continuam na Nicarágua enquanto o mundo olha para o outro lado. A violência e a impunidade dos últimos quatro meses expuseram a fragilidade das instituições do país e do Estado de Direito e criaram um clima de medo e desconfiança”, declarou o alto-comissário da ONU para direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein.

No último sábado (01), antes de deixar o país,  a missão da ONU dirigida pelo peruano Guillermo Fernández Maldonado ressaltou que continuará “supervisionando a situação e ajudando as vítimas que procuram a justiça e a verdade, mesmo trabalhando no seu escritório regional que se encontra no Panamá”.

Daniel Ortega

Daniel Ortega: foi presidente da Nicarágua entre 1985 e 1990 e voltou ao cargo em 2006, tendo sido reeleito em 2011 e 2016

O presidente Ortega contestou o relatório, considerando-o subjetivo, “distorcido, prejudicial e claramente parcial, redigido sob influência de setores vinculados à oposição e sem o devido cuidado de expor os fatos em maneira objetiva”. Porém, a decisão do governo, de suspender de um momento para outro a presença da ACNDUH na Nicarágua, logo após o relatório ter sido publicado, foi criticada pelas organizações humanitárias internacionais e locais, que qualificaram o ato como uma “expulsão”. A diretora da Anistia Internacional, Erika Guevara Rosas, por exemplo, declarou que “com esta decisão, o presidente Ortega comprova crimes cometidos e evidencia o desprezo pelas obrigações internacionais do seu governo”.

O relatório divulgado pela agência da ONU pode ser conferido na íntegra (em inglês): https://www.ohchr.org/Documents/Countries/NI/HumanRightsViolationsNicaraguaApr_Aug2018_EN.pdf

Adicionar Comentário

Seu endereço de e-mail está seguro conosco. Campos obrigatórios são marcados com *

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP