De sementes e caminhos

caminhar

Neste mês, com a cruz nos ombros e sementes nas mãos, os cristãos sobem com Jesus “o único caminho que conduz à vida” (Mt 7,14)

 

O
tempo – que é o senhor dos anos, das décadas e dos séculos – pode ser comparado a um arado implacável que abre contínuos sulcos na história, de onde arranca princípios antigos e semeia novos. Ininterruptamente. A Europa ocidental do século 17, por exemplo, assistiu a uma quebra de braço entre as raízes da fé e as sementes da razão. E essas venceram. Desde então, as certezas do cérebro passaram a encobrir os mistérios do coração. Cada vez mais. Vínculos familiares e amores, um dia sólidos e repletos de afeto e compaixão, se esfumaçam. Por todo o lado o ter supera o ser. Mais prazeres e menos alegrias. A felicidade estampada no sorriso puro das crianças vai se apagando pelo arado do tempo na alma, não só das pessoas, mais também das culturas e das nações.

A soma de todo o progresso científico não foi e nunca será suficiente para acrescentar sabedoria ao mundo, apenas conhecimento.

Descobriu Salomão que é apenas a sabedoria que nos aponta o caminho. Quanto à habilidade para caminhar, isto sim vem das ciências, do domínio tecnológico e do progresso material.

Fé e ciência são “as duas asas – dizia João Paulo II – pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. Não uma sobre a outra, mas ambas em harmonia e equilíbrio. Infelizmente, não é assim. Para voltar a voar, livre e solto, o homem tropeça, às cegas, “tocando as coisas com as mãos para poder caminhar” (Jó 12, 25).

A modernidade não é apenas líquida, como apregoava o sociólogo polonês Zygmunt Bauman. Mas é fluida e se evapora. Tudo, até a fé, coitada, é negociada por espertalhões. Alguns exemplos esclarecem: muita gente venera, por exemplo, uma lasca da cruz de Cristo: “autêntica!”, juram; “trazida de Jerusalém”, repetem. E a água do remanso onde Jesus foi batizado também é vendida em pequenos frascos. Até os ares da gruta de Massabielle, em Lourdes, e da azinheira, de Fátima, são negociados por 4 euros o frasco. Dos shows “religiosos”, midiáticos, com direito a quebras de muros de Jericó, a exorcismos e até ressurreições ao vivo, nem é bom falar.

Ao contrário de todo esse comércio, a cruz de cada um é o caminho certo da fé. “Quem não tem pernas firmes no caminho da fé pode sempre se servir da cruz como apoio”, ensinava Edith Stein, vítima do nazismo.

Neste mês, com a cruz nos ombros e sementes nas mãos, os cristãos sobem com Jesus “o único caminho que conduz à vida” (Mt 7,14).

Nos sulcos abertos pelo madeiro, muitas sementes de ressurreição, de solidariedade, de perdão e de amor. Porém, se este não for gratuito, não é amor. Apenas comércio. E tudo voltará como antes, uma pena!

 

Editorial publicado na revista Mundo e Missão de março de 2019 – edição nº 230
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