Discriminação e preconceito: obstáculos do cotidiano

racismo

P
ara Mariama, e tantas outras meninas negras, o seu cotidiano era complicado e repleto de desafios. A aceitação do seu cabelo afro e de sua origem era como olhar o mundo com outros olhos, era como se descobrir. Essa descoberta começou.

No início de sua transição capilar as coisas foram difíceis, seu cabelo ficou com texturas diferentes e ela se olhava no espelho e não se alegrava com o que via. Chorou e pensou desistir, mais ainda quando ouvia de sua família que não estava ficando bonita e que cabelo liso era melhor. Porém, para ela, não era só a forma do seu cabelo que estava em jogo e sim o que ela se tornaria, a sua identidade. Então, se manteve firme e, em meio a tantas críticas, seguiu em frente com o seu desejo de ter o seu cabelo natural.

Passado o tempo, vivia se perguntando o porquê de a sociedade achar que o cabelo ideal era o cabelo liso? Por que esse padrão de beleza existia? No entanto, naquele momento, as perguntas ficaram sem respostas. Vida que segue…

Em uma tarde ensolarada, enquanto estava a caminho de uma entrevista de emprego, Mariama andava na rua e ouviu, do outro lado do passeio, homens gritando para ela. Alguns pediam seu número de telefone; outros a chamavam de “linda” e outros nomes que a deixaram constrangida. Mesmo incomodada com isso, seguiu para seu destino.

Quando chegou ao local da entrevista, se deparou com centenas de pessoas, todas com o mesmo objetivo: começar a trabalhar o mais rápido possível. Durante a espera, focou seu olhar na secretária que observava os candidatos atentamente antes de chamá-los. Quando seu nome foi anunciado, Mariama entrou na sala e viu um homem com o seu currículo, que lhe pedia para que se sentasse na cadeira próxima a mesa.

Eram duas vagas à disposição, uma para a Limpeza e outra para Mecânica automotiva. No decorrer da entrevista, o entrevistador disse que havia a vaga perfeita para ela que, empolgada com a notícia, logo quis saber qual. O homem falou que seria a de faxineira e que a encaminharia para a empresa terceirizada que havia aberto a vaga. De imediato, Mariama disse que tinha se candidatado para vaga de mecânica automotiva e então o homem, dando risada, disse que não era o trabalho que uma mulher poderia realizar. Totalmente incomodada com a situação e sem saber o que fazer, ela negou a proposta e se retirou da sala.

Após sair dali, Mariama percebeu que a luta pelo fim dos estereótipos de beleza, de gênero, do assédio, racismo, machismo e de tantas outras formas de discriminação e preconceito é antiga e, muitas vezes, parece estar longe do fim. No entanto, essa luta deve existir sempre e ninguém pode se calar.

Diante disso, Mariama pensou e concluiu que vale a pena enfrentar todas as barreiras, todos os tabus e que irá realizar todos os seus sonhos, mostrando que uma pessoa, mesmo sendo negra e pobre, pode ser o que quiser.

 

*Baseado em fatos reais

 

Publicado no Jornal Transcender de julho/agosto de 2017

Adicionar Comentário

Seu endereço de e-mail está seguro conosco. Campos obrigatórios são marcados com *

Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP