É preciso reconhecer o chamado de Deus

Irmã Lourença Kumagai, Missionária da Imaculada (MdI), residente em Manaus-AM, celebra mais de 50 anos de vida religiosa consagrada às missões

 

Lourença Kumagai, mais de 50 anos de vida missionária

V
im de uma família budista, religião trazida pelos meus pais (Antônio e Francisca) do Japão, e fui educada nos princípios daquela fé. Não conhecia o cristianismo. Porém, a partir do momento em que tive os primeiros contatos com a Igreja católica, através de padres do Pime, passei a buscar e conhecer o Evangelho e a verdadeira Igreja fundada sobre os alicerces dos apóstolos.

Aos dez anos de idade senti-me impulsionada a pedir ao meu pai a licença para ser batizada na Igreja católica. Tão nova, não sei se eu, na verdade, tinha bem consciência do que exigia do meu pai. Entretanto, tudo é obra do Espírito Santo. Não foi diferente com aqueles jovens pescadores da Galileia, naquele dia e naquela praia em que Jesus estava. Não foi por acaso. Nunca
é por acaso.

O Batismo

Hoje penso no heroísmo, na simplicidade e na inocência de uma budista que, com apenas dez anos, pede o Batismo. Algo que definiria toda uma trajetória de vida, não só de uma criança, mas de toda uma família até então budista. O interessante, quando pedi autorização a meu pai para ser batizada, a resposta dele foi: “Sim. Disseram-me que no Brasil todas as pessoas têm que ser batizadas; portanto, vocês também devem ser batizadas. Digo mais: eu também poderia me batizar”. Estas palavras nunca saíram da minha memória.

Fiz o percurso de preparação para receber o Sacramento e, assim, chegou o dia do Batismo. Guardo com carinho a feliz lembrança daquele dia tão lindo e dos meus padrinhos queridos: Irene e Irineu Gozzo. Minhas irmãs, seguindo o meu caminho, também pediram o batismo. Mais tarde, três delas também se tornariam missionárias da Imaculada: Margarida e Verônica (in memorian) e Paula.

Lindo foi ver meus pais se tornarem cristãos, batizados na mesma fé católica. Eu fui madrinha do meu pai, e uma de minhas irmãs, madrinha da minha mãe. Para participar da Igreja enfrentávamos inúmeras dificuldades, pois morávamos em um sítio distante da cidade. Levantávamos às três horas da madrugada e saíamos muito cedo de casa a fim de chegar à igreja em tempo de não perdermos a Santa Missa.

O chamado

Quando uma religiosa das irmãs Paulinas partia em missão para o Japão, senti uma forte vontade de também ser missionária. A partir de então, alimentava o desejo de ser missionária no mais profundo sentido da palavra. E não demorou para que isto acontecesse. Em 1957 deixei a família e parti para Ibiporã (PR), onde as Missionárias da Imaculada me acolheram e, com os testemunhos delas, que deixaram a Itália para anunciar Jesus Cristo no Brasil, vivi as primeiras experiências de doação a Deus e aos irmãos. Dois anos de experiência me fortaleceram ao chamado. Em seguida, em Assis (SP), iniciei uma caminhada mais profunda de preparação à vida religiosa missionária, através do postulantado e noviciado com o primeiro grupo de moças brasileiras que também iniciavam sua caminhada.

A consagração

No caminho de discernimento vocacional e formativo algumas pessoas nos abriam os horizontes. Uma delas foi o padre italiano Luiz Viganó, que diariamente celebrava a Missa para nós, dava aulas de Bíblia, eclesiologia e moral. Foi nosso diretor espiritual, além de nos ensinar, como mestre de obra, os trabalhos de horta, jardim e tantos outros. Nesses ofícios também nos orientava a irmã italiana Bernadete Gabercherk que, apesar de ser exigente e rígida, tinha grande carinho pelas noviças. Com ela fazíamos trabalhos pesados e cansativos de horta, cozinha, criação de galinhas e coelhos, lavanderia e rouparia. Cuidávamos do vestuário dos seminaristas e dos alunos internos do colégio diocesano Santo Antônio para sustentar a nossa vida no noviciado. Mas também desfrutávamos de momentos alegres de estudos, recreios e passeios. Em cada uma daquele grupo havia algo muito forte em comum: o mesmo anseio e desejo de ser consagradas a Deus e à missão ad Gentes, segundo o nosso carisma missionário.

Irmã Lourença (a segunda, da esquerda para direita) e a vida em fraternidade com as Missionárias da Imaculada, na região Norte do Brasil, onde vive atualmente

A missão

Aprendi a viver a minha entrega a Deus através do exemplo das nossas fundadoras: Josephina Dones, de profunda vida de oração, pessoa carinhosa e de extrema bondade, sempre atenta às necessidades das irmãs, apesar de ter sido muito rígida também; e Igilda Rodolfi, cujo carisma missionário era extremamente forte. Seu jeito silencioso, sempre em oração e contemplação, sonhava um dia alcançar a missão na China. O sonho, porém, não se concretizou, pois, no início da fundação, não tínhamos missão naquele grande país asiático.

Logo depois da minha consagração a Deus pelos votos religiosos de pobreza, obediência e castidade, iniciei a itinerância missionária de um lugar para o outro, buscando realizar o que havia terminado de professar: Assis, São Paulo (Vila Missionária), Londrina, Manaus e o interior do Amazonas (Maués, Barreirinha e Nhamundá).

Permaneci por doze anos em atividade de enfermagem junto aos doentes da colônia dos hansenianos, em Marituba-PA. Depois, em Lecco, na Itália, durante seis anos também atuei na área da enfermagem, atendendo os padres idosos e doentes do Pime. De volta ao Brasil, retornei à Marituba e, um ano depois, parti para Macapá (AP), por dez anos, sempre como enfermeira. Sem mais condições de exercer tais funções, por problemas de saúde, vim a Manaus, onde me encontro há dez anos.

A vida é a melhor escola

Viver em comunidade não é fácil, pois precisamos aceitar as pessoas como elas são e não como gostaríamos que elas fossem. Aceitar as diferenças que existem em cada uma delas é fator fundamental para sermos felizes e fazermos os outros felizes também.

Aos jovens, digo que vale a pena ser missionário/a, amar a Deus, a missão e os irmãos da mesma forma que Jesus amou. Não tenham medo de ser generosos em dizer sim a Deus, apesar das dificuldades da vida missionária. Ela é um constante discernimento que nos leva a fazer novas escolhas a cada dia para poder seguir a Jesus no itinerário da missão.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. 219

 

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