Paquistão: educação cristã e extremismo islâmico

Sala do 3º ano em uma escola no Paquistão

Sala do 3º ano em uma escola no Paquistão

Jornalista paquistanês aponta um panorama sobre os entraves enfrentados no sistema educacional de seu país

 

“É constante a queda do sistema de educação paquistanês. Coisa que os governos civis e militares não se interessam em resolver.” A afirmação é do paquistanês Aoun Sahi, editorialista de The News International. Segundo ele, apesar das dez diferentes reformas da educação, propostas desde 1947, nenhuma delas vingou no Paquistão. Profundo conhecedor da realidade econômica e cultural do seu país, Sahi é muçulmano, mas defende “a enorme contribuição da minoria cristã ao sistema educativo”.

Confira a seguir a entrevista que ele concedeu à AsiaNews, agência de notícias do Pontifício Instituto das Missões Exteriores (PIME):

O presidente Ali Jinnah defendia direitos iguais, liberdade religiosa e instrução gratuita. Por que as diretrizes do fundador do Paquistão não aconteceram?

A morte de Muhammad Ali Jinnah, em 1947, apenas três meses de presidência, significou o fim da revolução educacional que ele defendia para o Paquistão. Em 1949, a aprovação das Resoluções Objetivas pelo poder legislativo foi o primeiro golpe à educação laica e progressista de Jinnah. As tais resoluções inseriram uma obscura ideia de identidade islâmica e de sentido do Estado, reforçando os lobby fundamentalistas. Mas a era draconiana do general Zia ul-Haq (1977-88) foi pior ainda, tanto para o sistema educativo quanto para a liberdade religiosa. Ele colocou o Ministério da Educação em mãos de um partido extremista que promoveu uma sistemática distorção dos eventos históricos e dos livros-texto. Foram promulgadas leis, como se fossem pronunciamentos divinos, contra mulheres e minorias. As leis sobre a blasfêmia foram as piores e a jihad (guerra santa) afegã contra a União Soviética revigorou a influência ideológica e subverteu completamente a estrutura da sociedade paquistanesa. O último prego do caixão de Jinnah está nas mãos dos militares e dos líderes religiosos. Hoje, uma visão distorcida do Paquistão como fortaleza do islã penetra a fundo nas mentes dos cidadãos, especialmente dos jovens, e exige décadas de esforços para voltar ao caminho certo.

Que papeis têm as madrassas – as escolas corânicas – na instrução do país?

As madrassas são muito importantes, mas, ao mesmo tempo, as mais abandonadas. Ainda que sejam apenas 7% das escolas primárias no país, sua influência é amplificada pelas carências da escola pública e pela religiosidade congênita da maioria da população. Há mais de 13 mil madrassas, com cerca de 1,5 milhão de alunos. Cerca de 75% destes seguem a doutrina Deobanda, intransigente, da qual o talibã paquistanês é prosélito. Todavia, é de notar que apenas de 25 a 30% da população segue este tipo de doutrina. O proselitismo levou o islã radical a cada canto da nação, glorificando a jihad contra quem não é islamita.

O direito à educação é negado a 25 milhões de pessoas e 30% dos estudantes vivem condições de extrema carência educativa. Quais soluções a política e a sociedade devem oferecer?

É constante a queda do sistema educativo paquistanês. Coisa que os governos civis e militares não se interessam em resolver. Apesar das dez diferentes reformas da educação, propostas desde 1947, nenhuma delas vingou no Paquistão. Educar significa promover oportunidades iguais para todos. Sem estudo de qualidade, as crianças perdem a motivação e os pais deixam de enviar os filhos à escola. Eles e seus filhos percebem que passar de 8 a 10 anos na escola não leva a nada. Nas áreas rurais, o acesso das meninas à instrução é um detalhe a ser lembrado. Política e sociedade civil devem trabalhar em conjunto para uma reforma educacional que garanta a todas as crianças um ambiente propício à aprendizagem, professores competentes e um currículo de alta qualidade.

As escolas particulares suprem parcialmente as carências do setor público; contudo, o acesso à educação é negado a milhões de paquistaneses. O que se pode fazer para modificar a situação?

Parece que o Paquistão esteja se precipitando no vórtice do analfabetismo e poderia levar um apoio crescente a grupos extremistas, à pobreza e à fragmentação social. É verdade que o setor privado cresceu nos últimos dez anos, mas, deixando de lado as escolas de excelência, as instituições privadas de baixo custo oferecem uma educação de péssima qualidade. Cerca de 80% da educação privada vêm deste segmento. Uma recente pesquisa mostra que o Paquistão é o segundo país do mundo em abandono escolar. E 10% das evasões escolares no planeta são paquistanesas. Segundo nossos políticos, isto é consequência da falta de recursos. Mas o país gasta sete vezes mais em armas do que na educação. Além disso, as 26 nações mais pobres do que a nossa enviam seus filhos à escola. Aqui, o que falta é vontade política e empenho, algo que poderia ser modificado em poucos anos.

Há quem tenha interesse em manter o país na ignorância. Entretanto, atuando em conjunto, cristãos e muçulmanos poderiam modificar a situação?

A situação atual não interfere na vida de nossa elite política e militar, pois seus filhos frequentam excelentes escolas particulares e universidades no exterior. O egoísmo da elite é a razão principal do status quo, pois uma “classe média instruída” poderia desafiar o monopólio do seu poder. Por isso, pouco lhes interessa se o sistema educacional é ou não falimentar. Hoje, no Paquistão, a educação privada de custo baixo e de melhor qualidade é a oferecida pela Igreja. E sempre foi assim. Todos admitem que as contribuições da minoria cristã ao sistema educacional são louváveis. Por isso, precisamos retirar benefícios da experiência pedagógica acumulada pelos cristãos. Uma aliança educacional entre a maioria muçulmana e a minoria cristã realizaria prodígios.

O governo está mais interessado no exército; o Ocidente, em venda de armas. Quais são as responsabilidades da comunidade internacional?

Nossas lideranças militares olham mais para o setor da defesa, do qual deriva seu poder. Infelizmente, os maiores aportes do Ocidente chegam sob a forma de equipamentos militares que fortalecem as Forças Armadas. Ora, a ditadura militar administrou mais de 50% do período de independência do país, e a ela não interessa a educação da nação. A comunidade internacional jamais convida ditadores a educarem as massas. Vários exemplos comprovam investimentos em guerra ou na propagação do extremismo em nome de Alá e não na educação das populações. Essa tendência leva o país a um maior poder dos fundamentalistas que desejam um governo do tipo talibã. Por isso, devemos considerar prioritária a educação partilhada. Dela depende a sobrevivência da nação.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de abril de 2018 – Ed. 221
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