Educação da fé exige ação conjunta entre catequistas e familiares

família

Quando as crianças chegam à comunidade para serem iniciadas na vida cristã sacramental, já trazem traços e ecos da descoberta de Deus que os catequistas devem perscrutar e acolher

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ovas tecnologias de comunicação, novos paradigmas comportamentais e novos arranjos familiares deslocam a instituição “família” para o centro de uma turbulenta mudança. O que estava estabelecido já não é mais a regra; os limites entre o certo e o errado parecem demarcados não por um consenso, mas por indivíduos; os valores são outros; os papéis sociais estão embaralhados; e as relações humanas, fragilizadas pela revolução comunicacional, alteram profundamente o cotidiano. Qual o grande desafio nesse terreno movediço? Parece-me que seja, exatamente, entender as permanências e as mudanças.

Se as relações familiares estão em plena turbulência, é desafiador repensar a educação da fé cujo berço é a família. Sem dúvida, é preciso manter sólidos os fundamentos da revelação cristã, porém não dá mais para simplesmente seguir um catecismo. Temos que descobrir aos poucos o que fazer; como fazer; por que fazer; em cada circunstância. A forma como as relações transitam entre o virtual e o real carrega tanta cumplicidade que se torna obrigatório um vigiar constante sobre nossas opções, porque as coisas que expomos no digital acontecem, de fato, na vida real.  Tudo se movimenta rápido e com maior ênfase sobre as novas gerações. É papel da família – pais, avós, tios – ajudar os jovens a interpretar o que se vivencia nessa transição. Explicar o sentido profundo da realidade, as consequências de nossas opções, e a necessidade intrínseca de colaborar para uma convivência fraterna em todos os ambientes, reais e virtuais.

Forjar o caráter dos filhos e abastecê-los com valores que deem sentido à vida é o maior investimento de uma família.

Educar uma criança é dar os primeiros passos com ela, é soletrar o que define uma escolha, é saborear primeiro para garantir-lhe segurança. Pensando assim, iniciar uma criança na vida cristã é como mergulhar com ela no amor de Deus, testemunhado por nossos antepassados e encarnado na pessoa de Jesus. É iniciar a criança no sentido de enxergar os sinais do amor divino nos acontecimentos, nas relações e nos reveses da vida, e, para além da dispersão e do acúmulo de atividades, encontrarem juntos Aquele que pode preencher o coração humano. Essa sensibilidade vai se aprimorando no confronto da Revelação com os acontecimentos da vida. Ao longo do processo, é isso que irá consolidar a fé a ponto de transformá-la em referencial na conduta do cristão.

Iniciar a criança na arte de dialogar com o sobrenatural, em meio a tantos ruídos e informações ambíguas, é uma tarefa que precisa ser iniciada no colo dos pais, pois é com eles que aprendemos a sorrir, a falar e caminhar, até conquistarmos a autonomia.

Quando as crianças chegam à comunidade para serem iniciadas na vida cristã sacramental, já trazem traços e ecos da descoberta de Deus que os catequistas devem perscrutar e acolher e, a partir daí, socializar novas descobertas e novos compromissos que se abram mais para o espaço comunitário, o social, o mundo, a nossa “casa comum”. Mas jamais isentar os pais no processo dessa iniciação.

A educação da fé precisa da ação conjugada e comprometida de diversos protagonistas. E a família é a primeira e última instância. Sua contribuição é fundamental e vem, sobretudo, pelo exemplo de ações e atitudes. Eu diria que o catequista precisa ter olhos atentos às crianças e aos pais. Estimular ações conjuntas, proporcionar a narrativa de histórias e fatos, buscar soluções à luz da fé podem ser alguns passos para que pais e filhos cresçam juntos nesta dimensão.

É indiscutível que, primeiramente, precisamos ter consciência de que é o Senhor que nos atrai e nos precede na missão de educar na fé. Mas cabe a nós desenvolvermos a abertura para que a proposta de Jesus, sua pedagogia, sua compaixão, sua autenticidade nas relações com o Pai e com os irmãos, nos faça discípulos, dignos do nome de cristãos.

 

Publicado no jornal Missão Jovem de dezembro de 2018 – edição nº 345

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