Emigração juvenil é um dos desafios na Guiné Bissau

Um jovem padre em missão no país africano conta que muitos jovens fogem dos vilarejos onde nasceram porque se sentem oprimidos

 

Guiné-Bissau é uma realidade e Bissau é outra. Para os jovens guineenses que chegam dos vilarejos, a capital parece uma metrópole, com seus mais de 600 mil habitantes apertados em 80 km2 entre o mar e o aeroporto. Bissau é o centro político, administrativo e comercial de um dos mais pobres países do mundo. E possui dinâmicas muito diferentes do lento ritmo no restante do país. Em Bissau existem oito paróquias católicas. Duas no centro da cidade: a catedral e a paróquia Nossa Senhora de Fátima, ambas fundadas e coordenadas por padres do PIME.

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Padre Giovanni Demaria

À frente da gestão dessa segunda paróquia está, há três anos, o jovem padre italiano Giovanni Demaria. Suas duas atividades básicas se relacionam a tocar em frente a paróquia e a Escola Solidariedade, um dos poucos colégios particulares da capital. Essa escola foi fundada pelo seu coirmão de instituto, o padre Dionísio Ferraro, e oferece creche e ensino fundamental a quase dois mil alunos. “A anuidade da Escola Solidariedade é de aproximadamente 150 euros (o que corresponde a cerca de R$ 640). É um custo razoável para os padrões guineenses. Graças a esse valor conseguimos pagar os professores, comprar o material didático e oferecer algumas oportunidades a mais, como, por exemplo, o curso de música. O nível acadêmico da escola é muito bom, pois a maioria dos nossos alunos prosseguem nos estudos até à faculdade”, conta padre Giovanni. Existem faculdades em Bissau e até que são bem frequentadas. É verdade que sua excelência acadêmica é questionada, até porque são instituições implantadas a pouco tempo no país.

Obstáculos e sonhos

Existem escolas oficiais na Guiné-Bissau e elas tentam funcionar. Mas é desastrosa a situação do sistema educacional em grande parte do país. O problema é a carência de bons professores. “Manter abertas as escolas oficiais não é tão oneroso assim – explica o padre Giovanni -, mas elas não funcionam, ou funcionam precariamente, pois o Estado não consegue pagar os seus professores. Estes, por conta disso, fazem contínuas greves: pelo menos em quatro meses do ano letivo se recusam a trabalhar.” O resultado é que as famílias utilizam o próprio salário em outras carências; consequentemente, as crianças permanecem sem estudo. Por sorte, existem as escolas particulares.

Há outros problemas. “Na Guiné-Bissau, o estudo, como o trabalho, em geral é apenas um ‘preenchimento do tempo’, enquanto se espera um modo de sair do país. É verdade! Muitos jovens têm um único e almejado desejo, que é irrefreável: ir embora. Fazem qualquer coisa para ir ao exterior. Se, por sorte, conseguem uma bolsa de estudos no estrangeiro, partem. Brasil, Portugal e China são os locais preferidos”, relata o missionário. O padre esclarece as motivações da emigração juvenil:

“Antes de tudo, os jovens fogem dos vilarejos porque se sentem oprimidos pelas tradições centenárias. Muitos, por exemplo, saem para não serem obrigados a se casar com alguém imposto pela família, ou porque lhes seria conferido o cultivo de uma propriedade agrária, sem, contudo, contar com implementos agrícolas. A solução mais fácil é migrar para Bissau. Eles sabem que aqui terão uma vida mais agitada, mais animada. Uma vez desembarcados, afrouxam os laços com a família. À medida em que o fenômeno acontece, cresce neles o desejo de pertencer a outro grupo, agora urbano, e que lhes possa fornecer outra identidade. E, assim, entram em jogo todas as ocasiões de agregação, oferecidas pela cidade, inclusive as nefastas”.

A paróquia se desdobra

Para bloquear os desvios oferecidos pela cidade grande, a paróquia Nossa Senhora de Fátima procura fazer sua parte. Mais de cinco mil pessoas se reúnem para as Missas dominicais e, à diferença do que ocorre na catedral, que é frequentada por estrangeiros e classes sociais mais elevadas, lá se reúnem os guineenses menos abonados. Desde a sua fundação, a paróquia não para de se estruturar. Hoje, conta com 15 grupos dedicados ao apostolado das famílias, de coroinhas, de escoteiros… “Toda semana há inúmeras aulas de catequese para todas as idades. É algo que não podemos vacilar ou perder, pois é tudo à base de autogestão e financiamento bancado pelos paroquianos”, disse o missionário, que, aliás, não quer depender de ajuda externa.

missão na guiné bissau

A fé de fachada

Então, tudo bem? Não exatamente. Pois, sobretudo entre os jovens, o desejo de ir embora desencadeia uma série de distorções que envolvem até a fé. Padre Giovanni explica: “Geralmente, atrás do pedido de se tornarem cristãos, ficam escondidas outras motivações e necessidades sociais e psicológicas, difíceis de serem entendidas. Por exemplo, para muitos, receber o batismo significa se tornar ‘civilizado’. Assim, uma vez no exterior, se apresentam como cristãos, e não animistas, que consideram como uma ‘crença inferior’. Por conseguinte, os sacramentos são vistos como diplomas a serem pendurados à vista de todos. E, uma vez obtidos, não será mais necessário viver a fé. Para esses, a vida de fé se limita a uma certidão de batismo. De fato, muitos jovens deixam de frequentar a igreja logo depois de receberem os sacramentos”.

O desabafo

“Aqui somos poucos e não temos forças para ampliar nossa ação missionária. Bissau é um campo aberto a ser cultivado: se contássemos com mais braços e mentes poderíamos nos dedicar às periferias, aos doentes, ao diálogo com os muçulmanos, aos universitários…Prefiro nem falar de outras urgências ligadas ao trabalho, à pobreza, à saúde das pessoas. Os guineenses vivem uma fragilidade cultural, social e econômica tão grande que abafam e dominam as questões sobre o sentido da espiritualidade. Para quebrar a resistência, seria necessário sairmos, irmos ao encontro das pessoas nos seus bairros, sentarmo-nos à mesa deles e lhes mostrar que outro mundo e outro futuro são possíveis. Com poucos operários na messe, boa parte dela se perde”, conclui padre Giovanni.

 

Texto de Gabriele Monaco publicado na revista Mundo e Missão de dezembro de 2018 – edição nº 228
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