ONG em São Paulo ensina ballet para cegos

(Foto: Ângela Rezé)

 

Bailarina e fisioterapeuta, Fernanda Bianchini fundou uma associação que ultrapassa os limites da deficiência visual e ensina ballet para cegos há mais de duas décadas

 

É
com a leveza do toque e uma voz firme que diversas jovens que não enxergam são guiadas pela sala de dança da Associação Fernanda Bianchini, na capital paulista. A música, que embala a coreografia, também serve como referência. Lá, além do ballet clássico, elas aprendem que a deficiência visual não é um empecilho, apenas mais um desafio a ser enfrentado. Quem garante isso é Fernanda Bianchini, bailarina e fisioterapeuta que fundou a entidade em 1995 com o propósito de ensinar os passos que aprendeu desde a infância.

Formada em ballet aos 14 anos, Fernanda era voluntária no Instituto de Cegos Padre Chico, também em São Paulo, quando uma das freiras a questionou sobre a possibilidade de uma pessoa cega aprender a dançar ballet.

“Eu me sentia insegura e incapaz de ensinar um grupo de meninas tão especiais”, relembra. “Foi naquele momento que os meus pais me alertaram sobre nunca dizer não aos desafios, pois são sempre a partir deles que alcançamos os maiores ensinamentos de nossas vidas”, conta com um sorriso no rosto. Apesar de não ter sido fácil, a experiência no instituto foi tão positiva que a motivou a criar, pouco tempo depois, uma organização dedicada exclusivamente a formar bailarinas com deficiência visual.

(Foto: Ana Machado)

O método, pioneiro no mundo, foi todo desenvolvido por Fernanda, inclusive como tema de seu mestrado, ao longo de uma extensa trajetória de aprendizado conjunto. Por meio do toque, ela orienta e repete todos os movimentos exigidos por cada passo até que as bailarinas dancem apenas com instruções orais. Mas, no início, não era bem assim. “Certa vez, para ficar mais fácil de explicar um passo, eu disse às meninas que era para imaginar um salto dentro de um balde e aí uma delas levantou a mão e perguntou: ‘Tia, o que é um balde? Eu nunca vi um’”, lembra Fernanda. “A partir daquele dia, percebi o quanto eu precisava entrar no mundo dos cegos, entender suas limitações e dificuldades, para que depois eu pudesse apresentar o meu mundo da dança clássica”, comenta.

Duas décadas depois de ter sido criada, a Associação Fernanda Bianchini comemorou seu aniversário de 20 anos em grande estilo, com um espetáculo composto pelas principais coreografias desenvolvidas desde o início do projeto e como uma grande homenagem aos mais de 500 jovens que já passaram por lá. O show foi apresentado no final de 2015, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo, com recorde de público. “Nunca tínhamos esgotado o número de ingressos na bilheteria”, comemora Fernanda.

Apesar de ser reconhecida internacionalmente como uma ONG voltada a pessoas com deficiência visual, inclusive como a única companhia profissional de ballet para cegos no mundo, a associação fundada por Fernanda passou a trabalhar com a inclusão de outros tipos de deficiência (auditiva, intelectual, física etc) e atualmente oferece gratuitamente aulas de diferentes modalidades de dança, desde o ballet clássico, dança de salão e sapateado, até mesmo outras expressões artísticas, tais como teatro e artes plásticas.

“Com certeza foi o trabalho que mais me enriqueceu como ser humano”, declara Fernanda. “Através desses meninos e meninas eu aprendo, dia após dia, a fechar os meus olhos e enxergar com os olhos do coração. Isso me permite ver o mundo mais bonito, com mais significado”, finaliza.

(Foto: Angela Rezé)

Assista alguns trechos de uma apresentação do grupo no Theatro Municipal de São Paulo no ano passado:

 

Publicado na revista Mundo e Missão de março de 2018 – Ed. 220
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