Esperança por meio do conhecimento

Foto: Sara Genhren

Com a ajuda de professores voluntários, ONG promove aulas de reforço escolar e incentiva crianças e jovens a desenvolver um olhar crítico diante das desigualdades sociais

 

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uando pisou pela primeira vez em uma comunidade em São João do Meriti, na região metropolitana do Rio de Janeiro, Tayana Leoncio nem sonhava que poucos anos depois estaria à frente de um projeto que tem despontado como um grito de resistência contra a desigualdade social que assola a vida da maior parte da população brasileira.

Em 2013, enquanto participava de uma ação voluntária para entregar brinquedos no período do Natal, Tayana se deparou com uma realidade que despertou nela a vontade de fazer algo. “Aquela falta de cuidado com o ser humano me fez parar para refletir. Aí entendi que eu não podia voltar para casa do mesmo jeito. Ao conhecer tantas famílias carentes, me senti responsável e nasceu a vontade de ajudar de alguma forma”, relembra.

Tayana Leoncio: “Ao conhecer tantas famílias carentes, me senti responsável e nasceu a vontade de ajudar” | (Foto: Fernanda Tribino)

Na companhia de amigos começou com visitas pontuais, em datas comemorativas, para entregar alimentos, roupas, cobertores, entre outros. Aos poucos, os moradores começaram a lhe contar que não eram apenas esses itens que faziam falta, mas também o acesso a uma educação de qualidade. Desestimulados, crianças e jovens desistiam de frequentar a escola.

Formada em Teologia e especialista em História, Tayana se propôs a dar aulas de reforço, com foco principalmente em redação, leitura e interpretação de textos. A demanda era grande e ela convidou algumas pessoas para ajudá-la. As aulas de Português e Matemática passaram a ser realizadas em um espaço cedido pela Igreja católica, no bairro Parque Analândia, onde funciona até hoje.

“Sou cristã, mas não sou católica. No entanto, fico feliz com essa parceria que, desde o início, me permitiu estruturar melhor as coisas por lá”, explica a fundadora do Há Esperança. “Escolhi esse nome para o projeto porque percebi que a população dessa comunidade, e da maioria das periferias, convive com um sentimento de conformismo. Acabam acreditando que não dá para mudar a situação. ‘É assim mesmo’, me diziam. Por isso, o projeto nasceu para mostrar que há esperança, sim, e que ela começa a partir da educação”, ressalta Tayana.

(Foto: Tayana Leoncio)

Atualmente, o projeto atende 30 crianças por semana, com aulas às terças e quintas. Tayana e mais três professores voluntários se revezam nos turnos da manhã e da tarde. Há também uma preocupação com os adultos, geralmente mães de alunos, que passaram a frequentar o local. Para elas, há o Grupo de Convívio, que realiza rodas de conversa sobre diversos temas, como empoderamento feminino, saúde e cidadania.

Esperança para o futuro

Entre as novidades propostas para este ano está o Grupo de Estudos, que já tem sete mulheres inscritas. Incentivadas a voltar para a escola, a ONG servirá para que elas tirem dúvidas e se ajudem no caminho do conhecimento. O projeto também irá realizar a Primeira Feira Literária na comunidade, prevista para acontecer em julho. “Iniciamos essa ideia no ano passado e propomos que as crianças fossem as autoras das histórias que serão apresentadas na feira”, conta.

Outro programa oferecido é o Acompanhamento Familiar, que atende 30 famílias em situação de vulnerabilidade social. Com a ajuda de duas assistentes sociais, Tayana faz visitas às casas cadastradas e distribui cestas básicas.

(Foto: Tayana Leoncio)

Sem ajuda financeira do governo ou da iniciativa privada, Tayana conta apenas com doadores sensibilizados pela causa. E eles têm contribuído de maneira efetiva: 150 kits escolares e mais de uma tonelada de alimentos são distribuídos anualmente.

Para completar o leque de atividades do Há Esperança, outra ação que tem beneficiado as crianças atendidas são os passeios culturais. Eventualmente o grupo visita museus, parques e também vai à praia. Apaixonada por fotografia, a fundadora do projeto registra tudo. Os cliques não guardam apenas a memória desses momentos, mas também revelam a tal esperança que Tayana insiste em acreditar.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de abril de 2018 – Ed. 221
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