Esperança entre jovens que se livraram das drogas

Missão: Jovens que levam esperança a outros jovens | Foto: Daan Stevens/Unsplash

Foto: Daan Stevens/Unsplash

Livro “Missões” traz testemunho de jovens que passaram pela Fazenda da Esperança, se recuperaram das drogas e desejam propor um novo estilo de vida a outros dependentes químicos

Obra de Dom Irineu tem objetivo de motivar jovens recuperados das drogas a ajudarem outros dependentes químicos

Obra de Dom Irineu tem objetivo de motivar jovens recuperados das drogas a ajudarem outros dependentes químicos

 

Dom Irineu Roque Scherer faleceu em 1o de julho de 2016, em Joinville-SC, onde era bispo desde 2007. Ele conhecia frei Hans desde os tempos de seminarista, mas sua amizade com a Fazenda da Esperança se intensificou no período em que foi bispo de Garanhuns-PE, entre 1998 e 2007. Ele conheceu a comunidade masculina e, sensível à questão das drogas entre os jovens, logo implantou a unidade feminina na mesma cidade. Transferido para Joinville, abriu uma Fazenda em Garuva, local que sempre visitava para atender aos jovens nas confissões, no sacramento do Crisma e na partilha de experiências.

Dom Irineu visitava as unidades repetidas vezes e deixou um legado em quatro volumes para formação dos jovens: “Meditações para reavivar a esperança”. Os três primeiros volumes falam sobre “Espiritualidade”, “Catequese” e “Padroeiros” (das Fazendas da Esperança). O quarto, “Missões”, tem o objetivo de motivar os jovens que – recuperados das drogas e com novo estilo de vida – possam convidar a outros que, livres do vício, queiram participar da missão de abrir uma nova unidade da Fazenda da Esperança. A obra também motiva voluntários que nunca usaram drogas, mas que se sentem chamados a conviver um período com nossos acolhidos. Lembro que existe outro projeto mantido por voluntários da Fazenda: o Projeto Espalhando Esperança.

Seguem abaixo dois relatos presentes no livro “Missões”

 

Experiências
(por Lucas Ricardo Marçal Ramos, 21 anos)
Ao conhecer a Fazenda da Esperança, não tive dúvidas: “Preciso fazer uma experiência missionária!”. Ingressei no projeto Espalhando Esperança. Já era algo pensado por Deus para a minha vida, pois logo surgiram os primeiros sinais desse chamado. No dia em que fui enviado à Argentina, a Palavra era “Ide e pregai o Evangelho até os confins do mundo” e, na Missa, o celebrante repetia as palavras da fundadora do Movimento Focolare, Chiara Lubich, às suas primeiras companheiras… “Geralmente os missionários recebem uma cruz e partem em missão. Eu envio vocês para ser a própria cruz, isto é, outro Jesus, expressão da Sua maior entrega, abandono e radicalidade no amor”.

Quando cheguei, fui surpreendido com o cuidado dos jovens em me ajudar a me adaptar na nova cultura, no simples gesto de acolhimento, no trabalho, na paciência em me ensinar a rezar o terço em castelhano… Fui compreendendo que não estava ali para ajudar, mas muito mais para ser ajudado. Em pouco tempo a dificuldade com o idioma foi superada e passei a me comunicar com gestos e atos concretos de quem se deixa guiar pelo Evangelho. A distância e a saudade da família também passaram, pois tinha encontrado uma nova família e até aquilo que me fazia falta tornou-se secundário.

Certa vez fiquei acamado por uma semana. Eu queria voltar para casa e ser cuidado pela minha mãe. Um padre tinha dito uns dias antes que, muitas vezes, queremos muito amar e não deixamos ser amados por Deus e pelo próximo. Era minha oportunidade de ser amado! Quem cuidou de mim foi um jovem de 17 anos. Todos os dias ele trazia a minha comida, “sentia” a minha febre ou simplesmente partilhava sua história de vida.

Algo estava diferente em mim. Algo capaz de me levar a renunciar alguns sonhos pessoais, o comodismo de casa, os bons momentos em família, o crescimento dos sobrinhos que tanto amo. Eu havia descoberto que, ‘no amor, o que vale é amar!’ Só cheguei a essa conclusão e decidi permanecer na comunidade quando fui convidado para as atividades missionárias que dariam início a uma nova Fazenda no norte da Argentina.

A ideia era ficar somente por quatro meses na nova fazenda. Já faz mais de 2 anos que estou nela. Lógico que enfrentei dificuldades, superações e surpresas. Não vou esquecer o dia em que a vice-presidente da Argentina veio conhecer nosso trabalho, e nem dos primeiros jovens que chegaram, carregados de misérias. Eu os acompanhei por um ano e, que alegria quando, enfim, eles retornaram para suas famílias com o desejo de construir uma vida nova.

 

Espalhando Esperança
(por Jeysamara Souza, 30 anos)

Participei da missão em Balsas-MA. Até então eu não sabia obedecer, pois, no tráfico onde vivia, eu mandava e dominava. Era autossuficiente e prepotente. A expressão forte, de ordem, que ficou para mim, foi: “Coragem, não tenhais medo!”. Ela me impulsionou a viajar sozinha, a ficar trinta dias no Maranhão, a vencer as tentações e permanecer fiel. Balsas foi a ocasião de um grande exercício de autoconhecimento. Dele aprendi a ser mais obediente, a sair de mim e ir ao encontro do outro.

Na Fazenda da Esperança tive que morrer para as minhas vontades e colocar o amor em primeiro lugar. Muitas vezes não havia hora para pararmos o trabalho. Limpávamos o terreno até a tarde e, no final do dia, apesar do cansaço, sentia a presença de Deus em nosso meio.

Para a inauguração da nova Fazenda, tudo estava bem preparado: clima de festa, de muita alegria e de muita paz. Sentimos que isso foi gerado pela doação de nossas vidas, do amor e da unidade construída entre nós. Deus foi generoso, abençoou nossos trabalhos e de todos os que participaram conosco da inauguração da nova Fazenda da Esperança.

 

Frei Hans (primeiro plano) e Dom Irineu se conheceram quando ainda eram seminaristas

Frei Hans (primeiro plano) e Dom Irineu se conheceram quando ainda eram seminaristas

Depoimento de Frei Hans Stapel, fundador da Fazenda da Esperança, a respeito de Dom Irineu Roque Scherer:

“Ao longo da vida encontramos muita gente, fazemos muitos contatos. Mas têm pessoas que fazem a diferença, nos ajudam a caminhar e a compreender que devemos dar passos. Dom Irineu foi uma delas. Ajudou-nos, fez a diferença, provocou-nos para que fizéssemos algo específico para a formação de nossos jovens”.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de novembro/2017 – Ed. 217
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