Estamos mais conectados e curiosamente mais distantes

conectados e distantes

Mais do que o contato físico, perde-se a empatia. Aos poucos, nas sociedades mais numerosas e cosmopolitas de sempre, vamos perdendo a nossa humanidade

 

A
credito que a experiência humana é como uma rede. Cada um de nós é um elo nessa rede e ela vai se tornando cada vez maior, à medida que crescemos, com as pessoas que vão entrando em nossa vida. Cada uma dessas pessoas, cada ligação que temos, é um elo dessa rede. Uns mais apertados, outros mais frouxos. Mas, ainda assim, um elo. E, de uma forma ou de outra, estão todos interligados. Num qualquer tropeção da vida, a estrutura abala – mas, se esses elos estão no local onde devem estar, ela não se desintegra.

Infelizmente, porém, percebemos que há imensos elos inexistentes ou ineficazes, o que atira uma fatia enorme da população para uma situação dramática e para a qual não existe uma solução única e imediata. Não só isso, mas temos uma abordagem quase que punitiva para com esta fatia da população, que passa quase automaticamente a ser vista como indesejável. Falamos, por exemplo, “os drogados”, “os moradores de rua”, “os analfabetos”, como se esta parcela da sociedade fosse diferente, como se nada tivéssemos a ver com ela. Mas, ao fazê-lo, ignoramos que, muitas vezes, o que nos separa desta camada de ‘indesejáveis’ é só o fato de termos nós próprios uma rede mais sólida, que faz com que não nos afundemos num dos muitos tropeções da vida.

Sem cair em exageros sobre qual é o nosso papel, o que se exige é que se pense na sociedade como um todo, não apenas como uma coleção de partes. Que não pensemos na nossa felicidade individual a qualquer custo. Estamos mais conectados e curiosamente mais distantes, sim. Mas, mais do que o contato físico, perde-se o calor, perde-se a empatia, acumulando-se o cinzentismo, o rancor, tudo o que temos de negativo. Aos poucos, nas sociedades mais numerosas e cosmopolitas de sempre, vamos perdendo a nossa humanidade.

A vida irá quebrar a maior parte de nós. E isso, mais uma vez, deveria ser algo que nos aproxima. É nessa fragilidade que nos encontraremos e a mudança começará quando, de forma constante e assertiva, formos melhores uns para os outros.

Quando praticarmos a caridade de forma constante, quando formos mais gentis, quando estivermos mais disponíveis. Quando escutarmos. Quando não ligarmos ao amigo médico para nos passar à frente. Ao amigo polícia para safar de multas. Quando, com pequenos gestos, nos tornarmos a melhor versão de nós mesmos, todos os dias. Quando voltarmos a ser tolerantes, para nós e para com o outro.

Se pensarmos nos melhores momentos da vida, do que mais nos lembramos não foi o atingir de um objetivo qualquer – mas sim a partilha dessa felicidade com os que mais amamos. Esse é, sempre, o elemento comum. A partilha. A cor. A alegria. E deveríamos ser capazes de partilhar o que de tão positivo há, de forma constante, com todos os membros da comunidade.
Não são mudanças radicais, nem tal se exige. Temos apenas de perceber que, com simples palavras e uma mão amiga, poderemos transformar as vidas dos que nos rodeiam. E só essa partilha dá sentido à existência em sociedade. É aqui que começa a experiência humana.

 

 

Texto adaptado para o jornal Transcender – edição nº 46. *Publicado originalmente no site Ponto SJ sob o título “Do ‘eu’ até ao ‘nós’: estar, ser e viver em comunidade”

 

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