Ética para nortear os limites da ciência

O
uso de animais para alimentação humana e para a pesquisa científica nunca foi tratado como um problema ético. A afirmação se sustenta na lógica da cultura ocidental, marcadamente antropocêntrica. O ponto de partida era o de que a ciência e a tecnologia tinham como meta final a produção de bens para os seres humanos, e a natureza estava à disposição para a consecução de tal finalidade.

Entretanto, as reflexões e os estudos sobre as possibilidades e os limites da ciência e da tecnologia modernas, associados aos avanços das ciências humanas e às novas descobertas a respeito da vida trazidas pela psicologia, pela neurociência, pela biologia e pela filosofia têm questionado tal concepção. Hoje, sabe-se que a natureza não é uma fonte inesgotável de recursos e que não podemos manipulá-la sem critério e responsabilidade. Temos consciência de que habitamos a mesma casa e de que devemos todos cuidar dela, uma vez que somos pertencentes à mesma família.

Cresce a percepção de que fazemos parte de uma totalidade de sentido, na qual todos os seres vivos tendem naturalmente à vida, esforçando-se, cada um deles à sua maneira, para atingir tal finalidade. Aumenta o número de pessoas que, de uma forma ou de outra, acreditam que os animais (e não nos esqueçamos de que somos animais), de maneiras diferentes, sentem e buscam a vida e, se pudessem, evitariam dor, sofrimento e morte.

A revisão da concepção da ciência e de seus métodos, bem como a inclusão de uma nova concepção a respeito dos animais, que reconhece neles a senciência, nos convida a repensarmos as estruturas que fundamentam a nossa ética e nos estimula a incluir nela novos fundamentos, tendo como referência não só o ser humano, mas uma comunidade maior de seres que participam do princípio de igual consideração de interesses.

As ideias do filósofo australiano Peter Singer, autor entre outros de Libertação Animal e Ética Prática, têm contribuído muito para essa reflexão.

Considerando que a comunidade de seres vivos que sentem, sofrem e buscam viver e reproduzir é maior que a comunidade de seres humanos, torna-se necessário repensar a ética, desta feita incluindo em suas estruturas e preceitos, toda essa extensa comunidade.

Duas evidências, entre outras, parecem confirmar nossa reflexão. A primeira diz respeito ao número crescente de pessoas que estão aderindo ao vegetarianismo ou ao veganismo, sobretudo entre os mais jovens, sempre susceptíveis aos apelos dos novos tempos. A segunda refere-se à criação do Conselho Nacional de Controle e Experimentação Animal (CONCEA). Esse conselho cria, regulamenta e fiscaliza os Comitês de Ética para o Uso de Animais em pesquisa (CEUA), que passaram a ser obrigatórios em todas as faculdades que utilizam animais em seu ensino e pesquisa. Membro de um desses comitês, tenho acompanhado de perto a riqueza, os desafios, as dificuldades e, sobretudo, a necessidade de uma nova ética capaz de contemplar e regular a vida em comum de todos os seres vivos.

Publicado na revista Mundo e Missão de abril de 2018 – Ed. 221
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