Fé e espaço urbano

Como anunciar a fé cristã num contexto em que o sagrado perdeu sua visibilidade? Em época de cristandade o espaço público organizava-se ao redor dos símbolos cristãos, mas com a modernidade e a pós-modernidade até ele passou pelo processo de secularização

Imagem de Free-Photos por Pixabay

por padre Francisco Sorrentino, PIME


Novo perfil urbano

A nova configuração do espaço urbano é norteada pelas escolhas das pessoas: criam-se tantos espaços quantos são os desejos delas. Se antigamente a praça com a igreja representavam o centro de convergência da vida da cidade, hoje não é mais assim. Os critérios que definem o espaço público são outros: a lógica do mercado, a excessiva preocupação em delimitar a privacidade, a divisão por classe social (há bairro e bairro!). Além disso, o planejamento urbano visa favorecer mais a fluidez do trânsito do que o relacionamento entre as pessoas: já passou o tempo em que se podia passear conversando, tranquilamente, sem medo de ser atropelado ou assaltado. Até o valor da vizinhança nas ruas perdeu significado: os vizinhos não se conhecem mais. Anonimato e individualismo protagonizam a cena urbana.

Fermento na massa

Diante deste cenário, a fé cristã tem duas opções: aceitar, passivamente, o novo perfil da cidade e conformar-se aos novos parâmetros que a governam (infelizmente, é o que se repara na ação pseudo-evangelizadora de alguns grupos), ou recolocar-se seriamente em jogo. Esta segunda opção, longe do querer reivindicar a visibilidade hegemônica de outras épocas, pretende incrementar a vivência do testemunho cristão como “fermento na massa”. O evangelizador é aquele que acredita que, realmente, o Reino de Deus, comparado por Jesus ao grão de mostarda, comparação essa que vai na contramão de qualquer forma de ostentação, gera uma sociedade alternativa fundamentada na experiência da comunhão fraterna, cuja raiz está no acolhimento da paternidade de Deus.

Ressignificar o espaço urbano

Nesta perspectiva, é possível “imaginar espaços de oração e de comunhão com características inovadoras, mais atraentes e significativas para as populações urbanas” (Evangelii gaudium, 73). O segredo não está em teatralizar a fé cristã, mas em oferecê-la aos homens e às mulheres da cidade como alegre proposta de conversão e, portanto, de vida nova. À luz do Novo Testamento, tal proposta passa, necessariamente, pela experiência comunitária, graças à qual é possível ressignificar o espaço urbano em chave cristã. O grande investimento da pastoral urbana, portanto, é a criação de pequenas comunidades, onde as pessoas, saindo do anonimato da turbulência urbana, percebam que o Evangelho pode humanizar a cidade na medida em que penetrar na vida delas.

texto publicado na secção “Evangelho na cidade” na edição Abril da revista Mundo e Missão. Gostou da matéria? Seja um nosso assinante


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