Felice Tantardini: o missionário feliz

A aventura humana e espiritual de um missionário leigo do PIME apaixonado pela sua vocação. Viveu quase 70 anos entre os mais pobres de Mianmar, onde muitos o veneram como se faz a um santo

 

F
elice Tantardini nasceu em junho de 1898, na província de Lecco, na Itália. Foi o sexto dos oito filhos da profundamente religiosa família Tantardini que, sob o olhar dos pais, Battista e Maria Magni, a cada noite recitavam o rosário.

Depois do terceiro ano do ensino Fundamental, que “repetiu duas vezes para adquirir um pouco mais de instrução”, Felice passou a trabalhar como aprendiz de ferreiro na oficina do irmão mais velho, Giuseppe. Em 1911, aos treze anos, Felice perdeu o pai, levado tragicamente por uma enchente. Aos dezessete anos, quando a Itália ingressava no primeiro conflito mundial, Felice se tornou funcionário de uma indústria nos arredores de Gênova.

Em 1917 foi convocado ao serviço militar, mas foi logo exonerado por trabalhar em uma indústria bélica. No mesmo ano, após uma derrota do exército, Felice foi reconvocado, treinado e levado à frente de batalha. Pouco depois foi capturado e feito prisioneiro e, com seis companheiros, encaminhado para trabalho forçado em ferrovias. Conheceu uma longa e cansativa odisseia, caracterizada por provações e sofrimentos devido à fome e ao frio. Passava de um campo de trabalho a outro: Udine, Gorizia e Belgrado.

Finalmente, com quatro companheiros, planejou a fuga, arrastando-se como rato de esgoto em um canal de escoamento. Ganhou a liberdade e, depois de uma viagem aventureira, chegou à Grécia. Em junho de 1919 retornou finalmente à terra natal, Introbio de Valsassina. Ao fim de 18 dias de licença, ele e outros soldados italianos foram despachados para a ilha grega de Kalimno, onde permaneceram por três meses. Depois da baixa militar, Felice retomou o trabalho, primeiramente como ferreiro e, a seguir, como eletricista junto a uma mineradora.

A vocação missionária
Enquanto descansava do trabalho, Felice lia antigas edições da revista “Le Missioni Cattoliche” (As Missões Católicas, posteriormente rebatizada de “Mondo e Missione”), conservadas para ele por sua irmã mais nova, Anna. O rapaz começou, assim, a sonhar com a vida missionária, embora o seu chefe almejasse vê-lo casado com uma de suas três filhas.
Felice confiou à mãe o seu sonho missionário, e dela ouviu que aquilo poderia ser apenas “fogo de palha”. Mas, se fosse uma vocação real, ela não lhe negaria o consentimento e o abençoaria.

O ferreiro ingressou no Pime em setembro de 1921. Em agosto do ano seguinte recebeu a batina e o crucifixo. No dia 2 de setembro partiu para a Birmânia (hoje Mianmar) como irmão leigo. Lá permaneceu por quase 70 anos. Retornou à Itália apenas uma vez, entre abril de 1956 e janeiro de 1957, para um check-up geral de sua saúde e para tentar ganhar um pouco mais de peso.

Felice estava destinado a Toungoo, mas se movia de uma missão a outra, percorrendo enormes distâncias a pé ou a cavalo, sob o sol inclemente, ou debaixo de chuvas torrenciais. Às vezes, cruzava com bandidos e guerrilheiros, cobras, tigres e outros animais selvagens.

Uma grande vocação
Irmão Felice era muito devoto de Maria. Durante o período em prisão, ela o salvou da desesperança e da tentação de se deixar morrer por fome e frio. Sua vocação missionária recebia o sustento da “Madonna”. E, enfim, foi por sua intercessão que em 1924, em Leikthò, viu-se curado milagrosamente de fortes dores abdominais. Foi assim: ao ser colocado na maca, rumo ao hospital de Toungoo, pediu para ser levado ao altar da Virgem: “Minha boa Mãe, cura-me rapidamente desta estranha doença e lhe prometo um rosário inteiro todos os dias”. O pedido foi atendido, pois logo se levantou sozinho, sem dores. A barriga se desinchou e ele saiu da igreja aos gritos: “A Virgem curou-me!”. O pároco, os que carregavam a maca e as pessoas do vilarejo ficaram maravilhadas. Curado, Felice manteve a promessa e recitava não um, mas três rosários por dia!

A doação de si era sempre expressa na obediência pronta, exemplar. Ia para onde o bispo ou o superior o mandavam, principalmente quando se tratava de ajudar as pessoas da floresta. Despia-se de tudo com naturalidade, sem alardes, em favor dos pobres. Nada mantinha para si, salvo o necessário. Era querido por todos, mas se conservava humilde e disponível. A humildade fazia parte de seu DNA. Era “alérgico” aos primeiros lugares e, sempre acostumado a servir, não gostava de ser servido.

“O ferreiro de Deus”
Em obediência a seus bispos, Alfredo Lanfranconi e Giovanni Battista Gobbato, escreveu suas memórias no livro “Il fabbro di Dio” (O ferreiro de Deus). A autobiografia surgiu com simplicidade franciscana, tanto que pode ser considerada uma tradução moderna dos “fioretti” (sentenças) de São Francisco. Esta autobiografia conserva a vivacidade e a espontaneidade do narrador, que era uma característica peculiar do irmão Felice.

Da leitura atenta da autobiografia e das inúmeras cartas que irmão Felice escrevia a parentes e amigos, e dos depoimentos de testemunhas, tanto as de Taunggyi como as de Milão, podemos ter uma ideia do percurso de fé do Servo de Deus, em constante tensão rumo à santidade. Uma santidade feita de pequenas coisas.

Alguns aspectos caracterizam a espiritualidade do irmão Felice, como sua fisionomia interior, o seu “ser mais” do que o seu “fazer mais”. A primeira virtude evidenciada é a profunda fé que alimentava sua alma. Os critérios que inspiravam suas palavras, seus escritos e seu agir, seus relacionamentos eram colhidos não pela lógica humana, mas pelo Evangelho. Podemos dizer corretamente que ele via e julgava as coisas, os acontecimentos e as pessoas com os olhos e o coração de Jesus, de quem sempre foi profundamente apaixonado.

O trabalho cotidiano
Quando era ainda um menino, Felice foi educado a amar o trabalho manual. Quando adulto, declarava: “O cansaço material é para mim um fator indispensável de vida”. De profissão, Felice foi ferreiro, como já sabemos, mas na realidade fazia um pouco de tudo e acolhia com dedicação e espírito de sacrifício – realmente missionário – todo pedido de ajuda que vinha dos coirmãos e dos nativos. Tornava-se assim, marceneiro, agricultor, mecânico, enfermeiro, hidráulico e, quando necessário, também catequista.

Com o inseparável cachimbo na boca, Felice passava os dias alternando entre o rosário e as atividades humildes e discretas, que, porém, representavam sua contribuição essencial à causa missionária. Fundou muitas oficinas nas várias missões, formando inúmeros trabalhadores locais; por isso, o governo italiano conferiu-lhe, em 1973, o título de “Mestre do Trabalho”, por ter contribuído para a honra do trabalho italiano no exterior.

Irmã Bibiana (de origem birmanesa) declara: “Felice era um homem todo oração e trabalho. Suas múltiplas atividades eram todas para Deus…”. Padre Mario, sacerdote birmanês, lembra-se dele “como um homem que trabalhava muito, que era entusiasta pelo seu ofício e que conseguia entusiasmar a todos”.

Felice estava sempre disponível a dar uma mão, e a fazer o bem. Os vários depoimentos evidenciam que o Servo de Deus praticava todas as obras de misericórdia, tanto as materiais quanto as espirituais. Era capaz de instruir, consolar, encorajar e corrigir com sutileza e tato.

Felice, o irmão feliz
Uma característica peculiar de irmão Felice foi uma espécie de alegria franciscana que o acompanharia por toda a vida. “E este nome, Felice, exprime a ideia de minha vida – lê-se no livro “Il fabbro di Dio” –. Esforço-me para estar sempre e a todo custo feliz, e ter a intenção de fazer feliz também os outros”.

Vários coirmãos experimentaram a alegria contagiante do irmão Felice. Sobre ele escreveu padre Clemente Vismara (bem-aventurado e proclamado “Patriarca da Birmânia”): “Irmão Felice… O nome é apropriado. Em qualquer tempo, em qualquer lugar e circunstância que encontrarem irmão Felice, verão sempre florescer de seus lábios um sorriso sereno, pacato, espontâneo, como de quem é amigo de Deus, amigo dos homens e inimigo de ninguém”. Muitas palavras bonitas também lhe dedicou padre Cesare Colombo: “Se alguém está preocupado, que passe quinze minutos com irmão Felice e as preocupações desaparecem. Aquele santo homenzinho espalha alegria por todos os poros. Meus leprosos lhe querem muito bem. É um ‘ladrão de corações’”.

“A fé age por meio da caridade”, afirmava o apóstolo São Paulo. Do amor ao bom Deus emanava a caridade de Felice em direção a todos. Caridade que se traduzia concretamente no serviço atencioso que ele prestava, em especial aos mais necessitados: os leprosos, os deficientes, os doentes e sem distinção de religião.

Aos 85 anos de idade, por ordem do bispo, Felice “foi aposentado”. Seu trabalho se tornou a oração: rezava o dia todo, quase sempre na capela dos padres, pela manhã, e, à noite, na catedral da cidade, recitando o rosário ou lendo livros devocionais. Sua dose diária de Ave-Maria subiu de modo impressionante: até 15 ou 20 terços recitados, geralmente de joelhos.

Rumo ao altar

A fama de santidade de Felice entre aos birmaneses é extensa, profunda. Muitos o veneravam ainda em vida e rezavam a ele como a um santo, além de citar as graças recebidas por seu intermédio. A fé que Felice mantinha era constantemente alimentada pela oração e pelos sacramentos: eram onde buscava luz e força para enfrentar todo tipo de fadiga e de prova, sem se lamentar, sempre com sorriso nos lábios e paz no coração.

Testemunhos sobre ele fortalecem ainda mais sua santidade em vida: “Havia uma fé pura e simples. Deus e a Virgem Maria eram seu tudo. Todas as manhãs, fazia pelo menos uma hora de meditação e depois tocava o sino para a Santa Missa. E isso, sem jamais se cansar. Era fiel à adoração eucarística, que fazia principalmente à noite, depois do trabalho. Quando rezava, recolhia-se verdadeiramente. Falava com Deus, como se o visse”.

“Nos últimos tempos – atesta padre Igino Mattarucco –, Felice não temia a morte; pelo contrário, desejava-a para se encontrar com sua mãe e a Virgem Maria.” Morreu no dia 23 de março de 1991, aos 93 anos. Foi sepultado no jardim do centro para deficientes “Jesus Menino”, em Paya Phyu, subúrbio de Taunggyi. Poucos anos depois, o Pime promoveu a causa de sua beatificação e canonização, iniciada em 2001, em Taunggyi, pelo arcebispo dom Matthias U Shwe e, em Milão, em 2002. A causa agora está na fase romana. A ‘Positio’ (condição) de Servo de Deus é datada de 2011.

Certamente, Felice mantém no paraíso a promessa de continuar sendo missionário. Não mais batendo na bigorna, mas batendo sem parar no coração do Bom Deus para a salvação de toda aquela gente pobre e humilde que ele tanto amou, e por todos nós que respeitosamente o invocamos.

 

Publicado na revista Mundo e Missão de dezembro/2017 – Ed. 218
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