Fotografia contemplativa prevê enxergar além do óbvio

Crédito: Charlotte Butcher/ Unsplash

Na era em que tirar fotos virou algo banal, surge o conceito de “fotografia contemplativa”, que prevê desacelerar o dedo do próximo click e enxergar beleza e arte aparentemente inexistentes

 

A
era digital trouxe avanços indiscutíveis à arte de fotografar. Além da melhoria na qualidade das imagens, permitiu a popularização dos registros. A partir dos smartphones, praticamente todos têm uma câmera na mão, em qualquer lugar. E registra-se tudo. A todo momento. Mas, até que ponto tornar corriqueiro esse ato nos ajuda a pensar sobre as tantas (quase infinitas) imagens capturadas? Em resposta aos clicks desenfreados, que lotam os cartões de memória, surge uma onda nova: a Fotografia Contemplativa. Ela pode ser entendida como um estado mental aberto, curioso, sem julgamento, concentrado em apenas ver. Antes de ser uma técnica de fotografia é uma forma de ver o mundo e de viver. É a experiência visual direta, não conceitual, ou seja, a pura percepção.

Trata-se de uma prática ligada à meditação que, buscando ver a realidade sem pré-conceitos, fórmulas, definições, ansiedades, objetivos, visa trazer nossa visão para o presente, para o dia a dia, para o real, abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo”.

A proposta é trazer a arte para a vida cotidiana, e a vida cotidiana para a arte, entendendo que as boas imagens não estão no raro e no inusitado, ou no diferente, mas em tudo. Infelizmente, porém, nossos olhos da razão (chamados também de “olhar conceitual”) não enxergam isso. Os do coração, da percepção, dos sentidos, sim!

Ver e experimentar devem ser entendidos como atividades passivas. Experiência, por definição, só acontece sobre nós (em nós, por nós). Nas situações que controlamos não existe mais experiência. Mas não nos enganemos: aceitar e ser passivo (ou passageiro da experiência) é, na verdade, extremamente ativo e transformador. Isso porque apenas vendo realmente, sem intenção de controlar ou alterar, aceitando as imagens como elas se apresentam, é que podemos apreender o mundo, torná-lo nosso, espaço de nossa vida e nossa arte.

Devemos usar a fotografia para ver mais (e não menos) e para aumentar a experiência da vida, e não para enquadrá-la nos pré-conceitos que já temos. Devemos achar o mundo belo e por isso fotografá-lo. Não achar “legal” só o que “dá boas fotos”.

Fotografia: a arte de experimentar

Aceitar é o primeiro passo para ver de verdade. A aceitação não é resignação, e sim mudar o que for possível, aceitar o que não pode ser mudado, e não ficar lamentando o que não podemos fazer. Imagine se você sofresse porque não tem boas fotos, já que não foi a lugares especiais, cidades turísticas e famosas. Aceitar que você está aqui e agora, na sua cidade, leva-o a procurar o que tem de bom neste local.

Outro elemento bastante útil a todos que desejam se arriscar na fotografia contemplativa é a inteligência da visão. Sim, temos uma inteligência da visão, que está no olhar mesmo, e é, no mínimo, tão rica quanto a inteligência da mente. Devemos confiar nesse tipo de saber, infelizmente pouco explorado, mas totalmente verdadeiro, ancestral, presente e forte nos primeiros homens que desenharam nas cavernas. A inteligência da visão não deve substituir a da mente, mas complementar e ampliar nossa capacidade de ver e absorver o mundo.

É essa inteligência que tem os flashes de percepção, que bate o olho nas coisas e pode encontrar harmonia e beleza. A nossa mente, porém, geralmente descarta esses flashes, pois está sempre à procura de uma utilidade para tudo. A inteligência da visão não julga, não lembra, apenas vê. Podemos chamá-la de “olhar puro”.

Por fim, não dá para falar de fotografia sem abordar outro ponto importantíssimo: o fotógrafo precisa ver o mundo além do raso, do óbvio, e para ir fundo assim é preciso ter experiência de vida, não só a que vem com os anos, mas a experiência com qualidade.

Ela esbarra na experiência interpelativa, que é a experiência “real”, que nos toca, nos afeta, nos tira da reta e traz novos conhecimentos, inclusive pode até nos levar a mudanças de visão. Para ter essa experiência é preciso diminuir o ritmo. Nesses tempos de correria e estresse é preciso mesmo uma desaceleração, um momento para parar, sentir, pensar, ser tocado pelo acontecimento, e poder refletir, trocar experiências e mudar de atitude.

O doutor em Filosofia da Educação, Jorge Larrosa Bondía, afirma que “a experiência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, quase impossível nos tempos que correm”. Diz ele: “requer parar para pensar, olhar, escutar; pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir e sentir mais devagar; demorar-se nos detalhes; suspender a opinião, o juízo, a vontade, o automatismo da ação; cultivar a atenção e a delicadeza; abrir os olhos e os ouvidos; falar sobre o que nos acontece; aprender a lentidão; escutar aos outros; cultivar a arte do encontro; calar muito; ter paciência e dar-se tempo e espaço”.

A partir dessa premissa, a verdadeira experiência é a única forma de ampliarmos nossa humanidade, nossa “esfera do ser”. Precisamos ainda desenvolver nossa capacidade de gratidão e agradecer ao mundo pelo que ele nos dá. No caso específico da fotografia, pelas imagens que estão por aí para serem capturadas. Agora cabe a mim, e quem sabe a você também, tentar trilhar esse caminho e ver o que acontece.

 

Publicado no jornal Transcender de ago/set de 2018 – Edição nº 46
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