Fotógrafo registra trabalhadores em condições análogas à escravidão

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Um piauiense usa seu tempo livre para registrar trabalhadores em condições análogas à escravidão na tentativa de debater o problema com a sociedade

 

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aber de um crime e não fazer nada para denunciá-lo é quase o mesmo que praticá-lo também. Isso porque a omissão, nesse caso, pode te tornar cúmplice. Mas, o que fazer quando o crime é cometido em larga escala, com o apoio de multinacionais poderosas e com a vista grossa do governo? Bom, um cidadão piauiense encontrou essa resposta na fotografia. É por meio de retratos que ele cumpre um importante papel na luta contra a escravidão contemporânea. Com a câmera debaixo do braço, ele usa seu tempo livre para registrar pessoas em condições degradantes de exploração. O objetivo é um só: trazer à tona esse sofrimento, muitas vezes escondido sob o mato alto das lavouras ou das oficinas têxtis improvisadas nas áreas urbanas, para despertar um debate a respeito do trabalho escravo.

Criado no sertão nordestino, Sérgio Carvalho se formou em economia e se tornou auditor fiscal do trabalho – profissão que o colocou cara a cara com a exploração da mão de obra humana e o sensibilizou a contribuir para conscientização e erradicação desse problema, que perdura em todas as regiões do país.

Em paralelo, sua trajetória como fotógrafo teve início em 1996, um ano após o governo federal admitir que havia, de fato, escravidão no território brasileiro. Em entrevista à revista Líbero, Sérgio Carvalho declarou que, nessas andanças, que já duram mais de 20 anos, o que mais o motivou a documentar esses trabalhadores foi a possibilidade de dar visibilidade ao tema.

“Procuro retratar a precariedade de vida, a solidão e a desesperança estampadas no olhar de homens e mulheres em situação extrema de exploração, utilizando a fotografia como instrumento de denúncia, mas também de transformação social”, disse.

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(Foto: Sérgio Carvalho)

Numa outra entrevista, concedida ao projeto Meus Sertões, Carvalho disse que teve um “estalo” na primeira viagem que fez para a Serra do Cachimbo, entre o Mato Grosso e o Pará – este último, um dos estados que mais concentra denúncias de trabalho escravo. “Pensei na hora: ‘a sociedade precisa conhecer a situação de vida dos trabalhadores daqui’”.

Desde então, não parou. Mas como não vive economicamente de fotografia, é um trabalho a mais que ele faz nos momentos em que pode. Tem que usar férias, feriados, finais de semana. Por isso, quando pensa num projeto, precisa encaixá-lo dentro de suas limitações de tempo. De todo modo, essa é uma das características do seu trabalho: ele não tem muita pressa em terminar. “Primeiro, preciso amadurecer a ideia, além de ganhar intimidade e confiança das pessoas fotografadas. Isso é fundamental. Se não for assim, torna-se superficial. Meu lema é: ou você entra de cabeça ou não entra”, acrescentou.

Como ativista no combate ao trabalho escravo, Carvalho aponta o desemprego crescente e a mão de obra sem qualificação como complicadores, pois, segundo ele, esses dois fatores alimentam uma indústria de empresários que buscam o lucro acima de tudo, inclusive da dignidade humana.

O que torna a situação ainda mais dramática, conforme explicou o fotógrafo, é que, muitas vezes, a pessoa se deixa escravizar por não enxergar nenhuma outra possibilidade de sobrevivência. “Na escravidão clássica, o escravo era um bem do senhor, era medida de riqueza. Não era interessante para o dono que o escravo não tivesse condições mínimas de trabalho e saúde. Hoje, porém, o trabalho escravo é temporário – as pessoas são descartadas a qualquer momento -, as situações são precárias, não tem mais interesse em dar condições de vida e trabalho porque, na hora que não quiser mais, bota fora e tem uma fila de desempregados no mercado querendo sobreviver de alguma forma”, pontuou. “Infelizmente, há um exército de necessitados, sem qualificação profissional, que aceitam até trabalhar como escravos”, enfatizou.

Publicado no jornal Transcender – edição nº 48
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