Garota de 12 anos dá aula de reforço para outras crianças

Herois cotidianos

(Foto: Aldo Carneiro)

De forma voluntária, a jovem Stheffany compartilha o que sabe com outras crianças nos becos de uma favela da capital pernambucana

 

F
oi brincando de “escolinha” com algumas amigas da comunidade em que mora que a pequena Stheffany Rafaela da Silva, de 12 anos, iniciou uma ação inspiradora. Em meio aos becos e vielas da favela Roda de Fogo, no Recife (PE), ela reúne crianças menores que ela para dar aulas de reforço escolar. Tudo de forma voluntária.

A rotina de estudos faz parte do seu dia. Logo após chegar da escola, ela almoça e já pega uma vassoura para varrer o beco de terra onde as aulas costumam acontecer. Traz uma lousa pequena, pendura de forma improvisada no cano de uma das casas, ajeita o apagador e o giz, e sai de porta em porta chamando as crianças para mais um dia de aula. Como a ação é realizada há quase dois anos, ela já conhece todas pelo nome.

Com um sotaque arrastado, ela vai percorrendo as vielas: “vem, Fabrício, bora estudar”. Quando reunidas, as crianças sentam nos degraus das casas, com os cadernos nas mãos, e ficam atentas a tudo que a garota diz.

Assim como o restante da turma, sua família tem poucos recursos. Por isso, ela pede para sua professora folhas de desenho que sobram das aulas para, depois, fazer cópias de atividades dos livros didáticos. Algumas crianças ainda têm dificuldade para segurar o lápis. Sempre disposta a ajudar, Stheffany se ajoelha do lado, pega as mãozinhas menos treinadas, e vai escrevendo junto, explicando como se faz.

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Estudar para mudar o mundo

A amiguinha Camila é sua assistente. E diz que começou a ajudar porque aprendeu que a educação é a melhor forma de mudar o mundo. Sonha com um lugar melhor, sem racismo, sem violência. E sobre isso a menina entende bem, pois convive com esses dramas no dia a dia da comunidade.

Uma das vizinhas, Maria Caita, explica que, antes da iniciativa de Stheffany, as crianças ficavam espalhadas pelos becos, correndo de um lado ao outro, reproduzindo uma cena triste, porém cotidiana: “Elas brincavam de polícia e ladrão, usando as mãos como armas e gritando o barulho dos tiros”, disse Maria em entrevista ao programa Fantástico.

Apesar de não escolher uma única disciplina para suas aulas, Stheffany elegeu a matemática como favorita. Inclusive, já escolheu que vai trabalhar com isso quando for mais velha. “Quero fazer faculdade para ser professora, primeiro, para dar aula de tudo. Depois, só de matemática, porque é o que eu mais gosto”, afirma a garota.

No colégio onde estudava, a Escola Pintor Lauro Villares, Stheffany já era conhecida por dar aulas nos becos da Roda de Fogo. Por causa disso, ganhou uma bolsa em uma escola particular da região, onde começou a estudar no fim de abril deste ano, custeada por uma pessoa que se sensibilizou com a história da pequena professora.

Para incentivar as crianças a irem às aulas, Stheffany pede na comunidade doces e materiais para cozinhar e oferecer aos estudantes. Sustentando a casa com o dinheiro do Bolsa Família, a mãe de Stheffany, Rafaela da Silva, de 29 anos, sente muito orgulho da filha. “Ela é, para mim, a realização do que eu queria ser. Me tornei mãe muito nova e não pensei em estudar. Saí da escola no 9º ano do ensino fundamental e me arrependo de ter parado. Por isso, sempre incentivo que ela continue com essa sede pelos estudos.”

 

Publicado no jornal Missão Jovem de novembro de 2018 – edição nº 344

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