Guerras que transformam arte em ruína

Antes e depois em Palmira: apenas a entrada principal do Templo de Bel ficou em pé após ataque do Estado Islâmico

Ao considerar que uma obra de arte possui um valor inestimável, pode-se pensar também que essa mesma obra irá durar para sempre. Mas, as ações do homem e as guerras destroem memórias e partes da história

 

O
Arco do Triunfo, em Palmira, na Síria, era o principal ponto de encontro para as aulas do professor Samir. Lá, ele começava a explicação sobre a arte e as antigas civilizações. Imerso naquele cenário, não tinha como não se maravilhar com as obras que a própria história deixou ali registradas. Porém, o professor não poderá mais ministrar suas aulas no Arco do Triunfo. A guerra se encarregou de destrui-lo. O professor Samir é fictício. No entanto, a destruição de sítios arqueológicos e obras de arte por causa da guerra é um fato.

“Localizado ao nordeste de Damasco, no deserto da Síria, o oásis de Palmira abriga as ruínas monumentais de uma grande cidade que foi um dos mais importantes centros culturais da antiguidade. Subjugada à influência de diversas civilizações, a arquitetura e as artes de Palmira fundiram nos séculos I e II as técnicas greco-romanas com tradições artísticas autóctones e persas.” É assim que a Unesco inicia a definição da cidade no texto em que dá a justificativa para que ela se tornasse Patrimônio Mundial da Humanidade, título concedido em 1980.

Tadmur é o nome antigo de Palmira, que significa a “cidade das tâmaras”. Foi fundada no século I a.C e sempre esteve aliada ao Império Romano. Está localizada na antiga “rota da seda”, que ligava o mundo greco-romano à Pérsia e ao Oriente.

“Palmira é a expressão mais bela da mescla de culturas da antiguidade no Oriente Próximo, da qual nasceria o Islã”, escreveu o historiador britânico Tom Holland sobre o Oriente no século V. O Estado Islâmico (EI) ficou no controle da cidade em 2016, durante dez meses. Neste período foram destruídos alguns pontos importantes do sítio arqueológico, como o Templo de Bel, o Templo de Bal Shamin, o Arco do Triunfo e torres funerárias do século I d.C.

A população de Palmira, antes do início do conflito na Síria, era composta por aproximadamente 70 mil pessoas. Depois da invasão do grupo extremista, há apenas 15 mil.

Outros lugares

Não somente Palmira foi parcialmente devastada por causa da guerra. A destruição do patrimônio cultural e histórico da cidade despertou uma discussão sobre as obras de arte e os sítios arqueológicos que foram danificados. O historiador Renan Frighetto, professor do Núcleo de Estudos Mediterrânicos da Universidade Federal do Paraná, relata que “as destruições de monumentos, tanto em Palmira como em outros lugares da Síria, do Iraque, da África, do mundo inteiro, fazem com que percamos nossa condição histórica e humana para sempre. Infelizmente, isso é irreparável”. Ele ainda complementa que “é bom lembrar que toda construção do passado foi feita com técnicas da época e com materiais nem sempre facilmente encontrados. Podemos fazer uma cópia, mas nunca será o original”.

O motivo para a destruição, segundo o responsável pelo departamento de patrimônio histórico da Síria, Maamoun Abdul Karim, é que o Estado Islâmico os vê como “símbolos de idolatria”.

O Museu de Mossul, um dos mais importantes do Iraque, também está em ruínas. Depois de dois anos sob o domínio do EI, o que sobrou foi uma montanha de pedras. As forças de segurança do país recuperaram o edifício, mas estátuas antigas e relíquias pré-islâmicas não existem mais.

Três esculturas faziam parte da coleção mais valiosa do museu. Eram dois touros alados assírios e um leão alado. Os touros tinham cabeça humana, mediam mais de dois metros de altura e pesavam mais de quatro toneladas. “Antiguidades que pesam muito e era impossível roubá-las, então os jihadistas do EI as destruíram no próprio museu”, relata a arqueóloga iraquiana Layla Salih.

No Museu de Mossul era possível encontrar vários objetos da arte assíria, conhecida por seus baixo-relevo. As obras eram do cristianismo. Na antiguidade, o norte do Iraque pertencia ao Império Assírio, cuja capital era Nínive. As ruínas da cidade, que datam do século 7 a.C, tiveram 70% de sua área destruída pelo EI. No passado, Nínive abrigou palácios, templos e mansões. Parte dos muros e portões da cidade foi derrubada por escavadeiras.

 

Valores culturais

Sempre que a história é destruída, a cultura entra em crise. Para Nada al-Hassan, chefe da unidade de países árabes do Centro pelo Patrimônio Mundial da Unesco, “quando nos perguntam porque damos tanta importância para o patrimônio, nossa resposta é que os seres humanos são mais importantes que qualquer coisa. Mas a perda do patrimônio representa um trauma, porque é uma perda de memória, de sua identidade histórica, suas raízes”.

 

Publicado no jornal Transcender de janeiro/fevereiro de 2018 – Ed. nº 44
Telefone: (11) 5549-7295
Fax: (11) 5549-7257
Rua Joaquim Távora, 686
04015-011 Vila Mariana, São Paulo - SP